Qual é a boa pra 2017?

Vai ano, vem ano e eu continuo com uma dúvida que me persegue desde a minha infância: que raios o Claudinho e Buchecha queriam dizer quando cantavam “controlo o calendário sem utilizar as mãos”? Sempre imaginei eles mexendo com o pé naquele calendário de parede horroroso que a gente ganha no açougue, ou talvez eles tivessem poderes de telecinese, ou talvez eles simplesmente conseguiram decorar qual mês tem 30 dias e qual tem 31 sem ter que contar nos ossinhos e vãos dos dedos. Vai saber! Quem sabe eles apenas escreveram isso em meio a um “delírio de jogar futebol”.

Mas outra coisa que me incomoda há um tempo é que chega nessa época e eu começo a ver pelas ruas os carros com um adesivo de uma igreja escrito “2017 será o melhor ano da sua vida”. Todo ano é o mesmo adesivo, mudando apenas a data. Mas poxa, será que quem colocou o adesivo nesse último ano realmente acredita nisso? 2016 não foi dos anos mais fáceis não.

Esse ano tivemos tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo que eu sinto muita pena dos jornalistas que trabalharam na retrospectiva. Eles irão precisar de uns 10 anos de terapia depois de relembrar toda a maluquice de crise financeira, brigas políticas, desastres, guerras e tudo mais que  nos tirou o sono e a paz nessa última volta ao redor do Sol. E não bastando os 365 dias de desgraça, esse ano ainda era bissexto!

O tempo todo fomos bombardeados por más notícias: toda manhã eu ligava a TV no jornal e não saía pro trabalho antes de completar meu bingo mental com as palavras “Crise”, “Petrobras”, “Cunha”, “Lula”, “Lava-Jato”, “Impeachment” e “Desemprego”; chegava na empresa e o assunto era o estupro coletivo da menina no Rio, avião da Chapecoense caindo na Colômbia e mais um ataque terrorista na Europa; voltava pra casa cansado de tanta notícia ruim e descobria que os grupos no Whatsapp haviam se tornado os obituários oficiais de gente famosa: todo dia era a notícia de mais um artista que partia dessa vida.

Quando foi mesmo que o mundo virou um grande especial do Cidade Alerta?

Sempre concordei com a frase que diz que “todo otimista é um pessimista mal informado”, mas acho que em algum momento de nossa busca por uma vida sem alienação acabamos por nos embrenhar no outro extremo da informação: nos alienamos do bem.

Desde que Adão e Eva fizeram o favor de contaminar tudo com a maldade o mundo está caído e descendo ladeira abaixo, e não é surpresa nenhuma que tanta coisa ruim tem acontecido por aqui: assistimos indignados a absurda guerra na Síria, mas vivemos brigando uns com os outros por motivos extremamente banais; lamentamos a separação de casais famosos, mas traímos e incentivamos todo tipo de safadeza em prol de uma liberdade que apenas escraviza; acusamos nossos políticos de corrupção, mas a honestidade não tem dado muito as caras por aqui ultimamente; denunciamos a hipocrisia nos púlpitos, mas causamos divisão até mesmo dentro de casa por não sabermos lidar com nosso orgulho.

É muito ódio, é muita safadeza, é muita irresponsabilidade, é muita ganância, é muito ciúmes, e o pior de tudo: é muito natural.

Nada disso deve nos surpreender porque sabemos bem que essa é a natureza humana, caída, perdida e devastada por ela mesma. Tudo que vemos, ouvimos e conversamos nos afeta e nos leva a desesperar ainda mais. Mas não precisa ser assim: saibamos enxergar os sinais do que nos traz esperança.

Neste ano comemoramos quando cientistas e inventores permitiram que daltônicos enxergassem toda a beleza de flores pela primeira vez e, além de vários outros avanços contra o câncer, diabetes e Mal de Alzheimer, vimos pessoas que sofrem com Mal de Parkinson conseguindo comer sozinhas usando fantásticas colheres adaptadas que não tremem. Vimos policiais abandonarem seus postos para socorrer cachorro que estava passando mal e ajudar idoso a atravessar a rua. Vibramos com nossos atletas superando toda dificuldade e ceticismo e trazendo medalhas, recordes e orgulho para nosso país tão sofrido. Nos emocionamos com médicos permitindo um cachorro visitar um paciente terminal, nos inspiramos com igrejas construindo casas para os membros mais pobres, nos alegramos com brasileiros concorrendo a Nobel, Oscar e até prêmio de melhor jogador de video game do mundo. E tem muito mais que não aparece nos jornais: teve gente fazendo as pazes depois de anos sem se falar; teve gente alimentando quem não tinha o que comer. Teve cachorro rolando na grama. Teve festa de aniversário surpresa. Teve mensagem de madrugada falando que vai ficar tudo bem. Teve criança nascendo. Teve risada. Teve música boa. Teve comida boa. Teve piada ruim. Teve amor onde nunca se imaginou.

Até mesmo em meio à desgraça e à dor, se soubermos procurar, enxergaremos coisas boas. Neste ano tivemos a trágica queda do avião vitimando a equipe da Chapecoense, além de jornalistas e tripulação, e em meio à lamentação pelas falhas humanas e pelos sonhos despedaçados, encontramos um povo que não tinha a mínima obrigação de se comover conosco, mas resolveu nos dar um abraço maior que a tragédia que nos acometeu.

Nós focamos tanto no que há de mau no mundo e perguntamos onde Deus está quando a realidade nos bate com os dois pés no peito, mas é porque somos orgulhosos demais para assumir que a culpa, enquanto humanidade, é sempre nossa. Basta ceder um pouco desse nosso pedestal para que possamos reconhecer que Deus está, desde sempre, trabalhando ativamente pra nos trazer esperança apesar das consequências que nossas más escolhas produzem. Basta abrir os olhos para enxergar o quanto há de bom no mundo apesar de nossa natureza caída. E melhor que isso: quão doce é a esperança ao saber que estes são apenas pequenos sinais da paz eterna que nos foi prometida.

Não sei se o próximo ano será o melhor da sua vida e duvido que usar um adesivo no carro dizendo isto vá facilitar alguma coisa, mas torço para que nos próximos 365 dias saibamos ser gratos: que a gratidão nos encha de esperança ao crescermos um pouco mais nas piores dificuldades, e que a mesma gratidão nos inunde pela graça de receber o que é bom sem que mereçamos.

Que a esperança de um ano melhor não se baseie nesta nossa humanidade caída, mas nos sinais de que há alguém trabalhando para redimir o que parecia não ter mais conserto.

Um minuto de silêncio.

Quando estava na faculdade, provavelmente num dia sem muito o que fazer, resolvi que tinha que fazer meu testamento. Sim, com uns 20 anos de idade, vivendo num lugar tranquilo, sem nenhum problema de saúde que desse razão a isso, resolvi que precisava deixar por escrito o destino dos meus (poucos) pertences e as instruções pro meu funeral. Você deve estar achando que sou doido, e talvez essa seja a resposta mesmo. Eu tenho um pessimismo “Murphyano” secreto onde sempre acho que as coisas tem enormes chances de darem errado, e como quase todo mês eu pegava estrada pra voltar pra minha cidade dividindo pistas simples com caminhões carregados de cana, julgava ter grandes chances de sair feito garapa de alguma dessas viagens.

Meu testamento era uma coisa bem besta, como se pode imaginar. Eu descrevia detalhes de como queria meu funeral e pra quem deveriam ser doados minha câmera, meu computador, minha cama, meu quimono de Aikido, minha bateria e essas coisas. Eu também insistia que tivesse bexigas ao invés de flores e de que iria deixar umas piadas ruins anotadas, daí qualquer pessoa que quisesse ir lá na frente falar algo sobre mim, teria que contar uma dessas piadas antes. É besta? É. Mas ia ser legal, assuma.

No meio desse monte de bobagens eu ainda acho que algumas coisas devem ser levadas em conta, como não vestir meu corpo com a camisa do São Paulo e, se for permitido, pra me enrolar num lençol do Corinthians ao invés de usar caixão: já que é pra apodrecer, vamos fazer direito. Mas fora essas coisas com sentido, ao mesmo tempo me deparei com o quanto eu não respeitava a morte e a dor naquele momento. Queria que não tivesse choro e dizia que “luto é uma coisa besta”. Ninguém tão próximo de mim havia morrido, e o único velório que havia ido era o do meu avô, com 4 anos. Só lembro que queria ir embora porque tinha certeza de que ele iria se levantar do caixão e chupar o sangue de todo mundo ali presente. O tempo passou e eu ainda não havia entendido muita coisa sobre a morte.

Hoje entendo que acima de tudo nessas horas é preciso de um pouco de silêncio.

Quando a tragédia bateu na porta de casa levando meu pai, não faltou gente tentando me acalmar dizendo que estava lá por mim, de que tudo iria dar certo e de que a vida é uma bosta mas eu iria superar. Aceitei e agradeci a todos pelo apoio, mas diante da minha expressão catatônica todos remendavam dizendo o óbvio: “não tenho o que falar…”.

Aprendi que existem momentos em que não temos mesmo o que falar, e nesses momentos a melhor opção é nem comentar sobre isso. As pessoas que mais me consolaram naquele dia foram as que simplesmente chegaram e me abraçaram sem falar nada. Chorar com os que choram é o suficiente. Me lembro desses abraços e o silêncio deles fala comigo até hoje.

Hoje acordei cedo e, enrolando pra levantar olhei no celular e vi uma manchete dizendo que o avião que levava o surpreendente time da Chapecoense e uma ótima equipe de jornalistas pra final da Copa Sulamericana caíra na Colômbia matando quase todos os passageiros. Me levantei assustado pra tomar banho e ouvia na sala o pessoal de casa comentando enquanto o repórter da TV dava detalhes da tragédia. No trabalho, os colegas e clientes falavam sobre isso o dia todo. Na rua, todo mundo era expert em aviação. Na Internet, todas as linhas de todos os sites mostrando mostrando todos os ângulos do horror em tempo real. Quase se podia literalmente tocar no assunto, de tão denso e tenso que ele habitou o dia.

Talvez nós precisamos de um pouco de silêncio.

Precisamos de silêncio para digerir toda essa informação. Precisamos de silêncio pra aceitar toda essa nova realidade. Precisamos de silêncio para nos lembrar dos que se foram. Precisamos de silêncio para valorizar os que ficaram. Precisamos de silêncio para perceber que a tempestade já se foi, mas também para perceber que ninguém é imune às próximas que virão. Precisamos de silêncio para perceber que há esperança além da dor.

Precisamos de silêncio para aprender que é preciso viver a vida, mas que isso passa por aprender a respeitar a morte.

Portanto, façamos hoje um minuto de silêncio por cada atleta que morreu. Façamos um minuto de silêncio por cada funcionário do clube, por cada jornalista, por cada tripulante do avião. Mas não façamos apenas por estes.

Façamos um minuto de silêncio porque nenhum homem é uma ilha, e a morte de qualquer pessoa nos diminui por sermos parte da humanidade. O silêncio também é por nós.

Que no gramado da morte esse minuto de silêncio faça ecoar a esperança de uma vida sem dor e tristeza por toda a eternidade.

Neymar, nem eu, nem você.

Milhares de pessoas em pé ao redor de um campo. Bilhões de pessoas ao redor do mundo sentadas na beiradinha do sofá e estrangulando a almofada. Dez companheiros ajoelhados. Onze rivais secando. Quarenta e quatro metros de caminhada. Ele pegou a bola, deu um beijo no seu primeiro grande amor e a repousou a onze metros do abismo entre o sucesso e a maldição. Um som de apito. Todo mundo quieto e eu afirmei “Eu não queria ser o Neymar hoje”.

Como 99% dos brasileirinhos, eu também sonhei ostentar a camisa 10 e a braçadeira de capitão da Seleção. Eu vi Raí, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká carregarem o peso desse número nas costas, eu vi Dunga e Cafu ensinarem que a liderança vai muito além de um pano azul enrolado no braço direito (e vi Thiago Silva mostrando que essa responsabilidade não é pra qualquer um). Eu vi o futebol brasileiro ser motivo de piada em vários Jogos Olímpicos. Eu vi o 7×1 dois anos atrás. E agora eu e todo mundo víamos em Neymar a esperança do único título que faltava em nossa prateleira futebolística.

Ele já tinha feito um golaço, já tinha dado vários passes geniais, já tinha quase feito outro gol, já tinha batido no peito e encorajado os outros jogadores antes dos pênaltis e ficou com a cobrança mais difícil de todas. Qualquer coisa menor que a perfeição e tudo que ele havia feito não valeria de nada. Nem o Neymar queria ser o Neymar naquela hora.

Mas ele respirou, correu, bateu e o Planeta Terra deu uma chacoalhada com tanta gente pulando ao mesmo tempo. Eu dei um pulo, gritei “AEEE BRASIL!”, e já aproveitei pra falar tchau e correr porque estava 15 minutos atrasado pra dar um estudo sobre soteriologia na igreja (parece chato, e é mesmo, mas a gente fez ficar legal lá).

Enquanto dirigia o carro, não conseguia tirar da cabeça a imagem do Neymar comemorando o ouro sem marra nenhuma, agradecendo a Deus ao mesmo tempo em que soluçava de tanto chorar com a cara enfiada na grama. Não via a hora de voltar pra casa e terminar de assistir a cerimônia de premiação com todos aqueles caras que deram um pouco de alegria pra um povo tão sofrido como o nosso. Cheguei em casa, abri o celular e vi uma bela foto do Neymar com uma faixa escrito “100% Jesus” na testa e a legenda “Neymar diz ‘Vocês vão ter que me engolir’, parte pra cima de torcedor e o manda tomar naquele lugar”. Eita, Neymar…

Ao invés dos melhores momentos com dribles, passes e aquela cobrança de falta que até Rogério Ceni aplaudiu de pé, tudo que vi era o tamanho da incoerência desse rapaz que carrega Jesus na testa mas manda o próximo ir tomar lá. Os piores momentos dele, curiosamente, transformaram tudo que ele fez em nada mais que a obrigação. Eu não queria ser o Neymar mesmo.

Imagino como deve ser pesado ter vigilância 24 horas sobre sua vida. Imagino como deve ser conversar com seus colegas de trabalho tampando a boca porque vão fazer sua leitura labial mais tarde no Fantásico. Imagino como deve ser animador não conseguir dar um passo pra fora de casa sem tomar flash na cara. Imagino ter amigos que se importam mais com o que tenho do que comigo. Imagino muita oferta de sexo e nenhuma de amor. Imagino o Galvão Bueno me ligando Domingo de manhã. Imagino ter dinheiro suficiente pra me esquecer de Deus.

Imagino todos os meus pecados em destaque na capa do UOL.

Não estou defendendo o que o Neymar fez de errado, mas é muito fácil falar do pecado alheio quando ninguém sabe do nosso. É muito fácil apontar os erros dos outros, mas é bem complicado abrir nosso armário e deixar todo mundo ver o tanto de esqueletos que temos guardado durante nossa vida. Eu gosto de imaginar que no Juízo Final vai ter um enorme telão onde vai passar, humano por humano e pra toda a humanidade, tudo o que nós fizemos de errado por aqui. Imagina só passando todas as mentiras que nós contamos; imagina só passando um close de todas as vezes que olhamos pra bunda de alguém; imagina só passando todos os pensamentos de ódio que guardamos pra nós; imagina os históricos de internet que deletamos; imagina as brigas que tivemos; imagina a desobediência aos pais; imagina a indiferença com quem precisava; imagina a propina; imagina a avareza; imagina a sonegação; imagina a preguiça; imagina as vezes em que pensamos “vocês vão ter que me engolir”; imagina as vezes em que falamos “Deus te abençoe”, mas nosso coração gritava “Vai tomar no meio do…”.

Imagina se todo mundo soubesse como todo mundo é ruim.

O mesmo Jesus que Neymar amarrou na testa disse uma vez que é importante tirar a trave do próprio olho antes de querer enfiar o dedo no olho alheio pra mostrar que tem um cisco lá. O meu erro não anula o erro do outro, mas perceber que também erro me move a agir com amor quando vejo o outro errando também.

Cada um à sua maneira e segundo as suas fraquezas é atraído pro mal. Mais cego é aquele que só vê o mal no outro. E eu demorei muito pra aprender isso.

Minha vida inteira fui rotulado como menino 100% Jesus e por muito tempo eu tentei sustentar essa imagem, mas não existe super crente e eu passo bem longe disso. Me dá medo saber que muita gente me enxerga assim porque de certa maneira eu viro um ídolo, e daí pra virar um Judas sendo malhado em praça pública custa apenas um erro descoberto. E eu finjo muito bem, gente.

Pior que os erros que cometemos, é o erro de interpretação de texto quando lemos a Bíblia. Há muito, muito tempo atrás um tal de João Ferreira de Almeida, português gente boa, traduziu a Bíblia pro Português, e ele escolheu uma palavra bonita pra explicar o que temos que fazer quando virmos alguém fazendo merda: exortar. O problema é que todo mundo acha que exortação é sinônimo de bronca, chamar atenção. Mas não, procure aí no seu dicionário. Exortar significa animar. Simples assim.

Pra cada “não faça isso” da Bíblia, existe um “mas faça desse jeito que é bem melhor”. Nossa função não é a de apontar o dedo e levantar pedras pra condenar o erro dando bronca na pessoa, mas sim a de chegar no outro e falar “Ei, mano, assim dá merda. Vamos tentar desse outro jeito na próxima?”. Não tem nada mais eficiente pra parar de errar do que tentar acertar.

Nossa decepção com o erro do outro vem na mesma proporção que nossa expectativa. Mas o erro maior está em esperar algo de bom de gente que tem uma natureza tão corrupta e enganosa quanto a nossa. Esperar de um humano qualquer coisa além da natureza humana é idolatria.

E isso conta não só pro Neymar ou pra mim, mas pra você, pro pastor da igreja, pro padre, pra freira, pro faxineiro, pra empregada, pra sua mãe, pro professor, pro presidente e até pro seu vizinho ateu. Não existe gente perfeita, mas também não existe caso perdido. Somos todos barro, constantemente sendo moldados, mas teimosos em continuar rachando.

Que no dia do Telão Final, depois de toda a humanidade assistir os nossos piores momentos, Jesus delete esse arquivo e diga: você fez muita merda, mas vem cá que você é 100% meu.

Apaixone-se por alguém que não te merece

Ah, como eu queria viver noutros tempos! Nesses dias de touchscreens, selfies e Tinder todo o romantismo nos foge por entre os dedos. Bons tempos eram aqueles em que ficávamos a ver as moças passearem pelos bosques, cavalgávamos no fim da tarde pelas campinas ao encontro da amada para declamar todo o nosso amor com o joelho direito no chão, os braços abertos e as folhas de outono como testemunhas. E então, depois um pé na bunda, voltávamos pro feudo tocando no alaúde aquela música fossa do Frejat.

Seja no feudo ou na cidade, seja à cavalo ou espremido num metrô, se apaixonar de verdade é quase sempre aquele ato irracional que muitas vezes vai nos custar horas de terapia e algum tempo pra recuperar a dignidade perdida. Mesmo assim, todo dia me deparo com vários textos do tipo “Apaixone-se por uma pessoa que te faça rir”, ou “Namore alguém que ande de bicicleta”, ou ainda “Case-se com alguém que saiba o nome dos 151 Pokemons da primeira temporada” (mentira, eu só estou tentando me ajudar nessa). Todo mundo quer dar um pitaco de como você deve proceder pra encontrar a pessoa ideal pra passar o resto da vida junto. Todo mundo pinta a vida como um conto de fadas, mas ninguém conta que o príncipe só sabe falar de academia e a princesa tem mais bafo que o dragão do castelo. Não é por acaso que essas dicas geralmente não dão certo.

Em todos os meus fracassos amorosos alguém (geralmente minha mãe) sempre chegava em mim dizendo que foi melhor assim, que quando não é pra ser não acontece, que Deus está preparando alguém melhor pra mim, que “quem sabe sua prometida ainda nem nasceu” (tem coisa mais desesperadora do que ouvir isso com mais de 25 anos?). São sempre essas e outras coisas do tipo advindas de contos de fadas, livros de auto-ajuda baratos e forçação de barra bíblica.

Por muito tempo acreditei que um dia Deus gastou tempo planejando a moça A para o moço A, a moça B para o moço B e todo esse alfabeto pareado e destinado a se encontrar um dia para viverem felizes para sempre. Acreditava que toda panela tinha sua tampa e comecei a pensar que talvez eu fosse uma frigideira ou, sei lá, um rodinho de pia nessa história toda. Mas um dia vi minha mãe tampando a panela do feijão com um prato e parei pra perceber que a moça A namorava o moço A e depois o traiu com o moço B, que por sua vez era afim da moça C e usou essa situação toda pra flertar com a moça E e gerar ciúmes, o que revoltou o moço J, que foi fofocar tudo pro moço L, que era secretamente afim do moço R, que virou padre depois que a moça N morreu num acidente trágico antes do casamento deles. A teoria do caos e toda aquela baboseira do bater da asa de uma borboleta podem explicar bem todo esse tornado nos planos do destino depois que a moça A resolveu dar uma escapadinha.

Já me cansei de ouvir aquele papo de que “existe uma pessoa prometida” pra mim, mas a verdade é que ninguém nunca me prometeu nada disso. E duvido que tenham prometido pra você também (a não ser que vossa senhoria ainda esteja a viver no Brasil Colônia e já pagaste adiantado o dote ao pai da donzela).

Não bastando a falta de lógica nessa história de que as pessoas estão destinadas umas às outras, o grande problema reside no fato de que não tem como existir uma pessoa certa pra outra se todo mundo no mundo é errado. De Dilma Roussef à Megan Fox não existe gente perfeita neste mundo.

Portanto, desencane de buscar a pessoa certa pra você e comece a buscar uma pessoa errada, porque é o único tipo de pessoa que se vai encontrar por aí. Aprender a se perceber como uma pessoa cheia de defeitos é essencial para finalmente se enxergar no mesmo patamar de gente ruim que, surpresa, todo mundo está. E à partir daí se pode derrubar os preconceitos e expectativas irreais baseados em ideais de perfeição que deixariam até Platão enjoado. Se precisar, assista aquele filme de terror chamado O Amor é Cego.

Mas calma. Não estou falando que se deva abdicar de todos os gostos pessoais e coisas que se acha importante encontrar na outra pessoa, mas sim de que você não vai encontrar todos esses gostos pessoais e coisas que acha importante numa pessoa. Não no mundo real. Aceite isso e aprenda a lidar com o inesperado sem descambar para a frustração. Boa parte do que chamamos de defeito são apenas características que o outro vai carregar pra sempre, e depende exclusivamente de você se esforçar para ajustar um pouco suas expectativas para fazer caber a pessoa que se gosta integralmente nos seus sonhos.

No fim das contas, é muito bonita a ideia de nascer destinado para amar e ser amado por outra pessoa, mas a realidade é sempre mais bonita que a fantasia simplesmente por ser real.

Na vida real não existem príncipes cavalgando cavalos brancos para salvar donzelas em perigo, mas existe pegar dois ônibus pra conseguir passar uma hora ao lado da pessoa (e mais dois ônibus pra voltar pra casa). Na vida real não existem dragões acorrentados em castelos, mas existe parar tudo que se está fazendo para ouvir a outra pessoa chorar do outro lado do telefone por alguma coisa que deu errado no dia dela. Na vida real não tem bruxa malvada, mas tem aquele chefe que te segura até às 19h e te faz perder a reserva do restaurante bem no aniversário de namoro. Na vida real não tem sapo enfeitiçado, mas tem vício em foto de perereca. Na vida não real não tem torre de castelo, mas tem 12 andares sem elevador. Na vida real não tem maçã envenenada, não tem fada madrinha, não tem sapato de cristal. Na vida real tem câncer, tem boleto, tem verruga na testa, tem suor na mão, tem erro de português, tem tênis molhado, tem um filho de 5 anos, tem calvície hereditária, tem parente morrendo, tem diarréia no primeiro encontro, tem alface no meio do dente.

Na vida real não tem muita ficção.

E concorde comigo: é muito mais bonito se apaixonar com tudo isso acontecendo do que simplesmente porque o destino apresentou a pessoa prometida para você.

Há um tempo atrás uma das minhas amigas que mais me conhece na vida veio me falar que esperava muito que eu encontrasse alguma garota especial que me merecesse de verdade. Recebi aquilo respondendo um “Eita, tomara que não!”. Eu, que me conheço melhor que minha amiga, sei o quão ruim sou e o quão péssimo consigo ser se parar de me esforçar só um pouquinho. Além disso, não sou rico nem galã, e o que deveria compensar sendo legal e engraçado geralmente não sai como esperado. Então me parece um baita de um castigo alguém merecer uma pessoa cheia de defeitos como eu.

Porém, sabendo que no fundo ninguém realmente merece algo de bom, espero encontrar um dia alguém que me aceite. E espero estar pronto para aceitá-la também.

Acredito que tudo que existe e acontece de bom sobre a Terra nos ajuda a entender um pouco mais de quem Deus é e o que ele tem feito por aí, e no caso de se apaixonar isso fica ainda mais evidente para mim. Nosso coração é podre demais para aceitar o quão podres realmente somos, e toda essa presunção só evidencia o quanto estamos distantes de alcançar qualquer coisa de bom por nossa própria conta. Somos culpados do mau que somos e do mal fazemos, e não merecemos nada além da justa punição de morrermos solitários e separados do que quer que buscamos pra vida. Mas apesar dos defeitos, apesar dos erros, apesar de quem nós somos, o Amor se encarrega de absorver isso tudo e anular toda e qualquer rebarba que o impeça de nos aceitar ao seu lado onde não existe “até que a morte os separe”.

Não existe merecimento nenhum em ser amado. O nome disso é graça.

Se for pra se apaixonar, que não seja por quem te mereça.

Tenha paciência e deixe que o Amor faça o trabalho dele e una perfeitamente todas as coisas.

Se apaixone por graça, simplesmente.

Aquele abraço

Pode parecer fofo demais pra mim, mas uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi virar tio. É legal demais aguardar o nascimento de um sobrinho e depois acompanhar o desenvolvimento dele sem ter que ficar acordando de madrugada e sem ter que trocar fraldas, já que você não é o pai da criança. E quando menos se espera, você já está fazendo piada com pavê naturalmente e ensinando a criança a fazer coisa errada.

Me lembro que com meus três sobrinhos um dos momentos em que mais aproveitei foi quando eles aprenderam a abraçar. Isso também pode parecer fofo demais, mas não. Obviamente, eu amo abraçar essas crianças e não consigo vê-las sem sair correndo feito retardado exigindo um abração no tio, mas era extremamente divertido mesmo convencer elas a abraçarem tudo que vissem pela frente. Depois que ganhava meu abraço eu falava “Isso, agora dá um abraço na bicicleta também. Pronto, agora abraça a mesa. Que gostoso! Agora abraça a parede. Olha como ela ficou feliz! Mas o chão também quer um abraço, oras!” e assim passava um bom tempo me divertindo às custas de abraços desperdiçados em coisas inanimadas.

Mas quando criança eu também era meio tapado nisso de abraçar. Me lembro que uma vez saí correndo todo feliz e dei um baita abraço na minha mãe, daqueles abraços de criança que segura forte numa coxa e repousa a cabeça no quadril. Fiquei um tempo considerável ali até perceber que aquela mulher, que não era minha mãe, estava achando a situação bem estranha. Soltei dela sem graça e fui procurar minha mãe verdadeira bastante desconcertado. Duas décadas mais tarde, provando que continuo tapado, fui conhecer a família da minha namorada e, por centímetros, não abracei por trás a namorada do meu cunhado por engano bem na frente de todo mundo. Acho que ninguém percebeu, mas isso ajuda a explicar porque fiquei solteiro novamente.

Apesar da minha falta de atenção e das sacanagens com sobrinhos, a ciência tem descoberto nos últimos anos que o abraço é na verdade extremamente benéfico para o corpo humano. Estudos mostram que, além de ser muito gostoso, o abraço (e quando digo abraço, me refiro a abraço de verdade, não aquela ombrada social com três tapinhas nas costas que costumamos fazer) realmente alivia dor, estresse e ansiedade, auxilia em tratamentos de problemas psicológicos, reduz a pressão arterial e diminui o risco de pegar gripe (desde que você não abrace pessoas gripadas, é claro). Abraço faz bem pra saúde, veja só!

Sem saber disso tudo, num dia desses eu estava passando por Campinas e aproveitei pra ir no Hospital da Unicamp dar um abraço na minha vizinha. Ela foi transferida pra lá às pressas depois de sofrer vários infartos e como o marido dela não conseguia nenhuma notícia do hospital, prometi a ele que aproveitaria minha viagem pra voltar de lá com notícias. Perguntei dela na recepção e, pra minha felicidade, ela havia acabado de sair da UTI e já estava bem e no quarto. Elevadores acima, pedi licença pra entrar no quarto e ela ficou tão eufórica por ouvir uma voz conhecida que só não pulou da cama porque as pernas dela ainda estavam anestesiadas por conta do cateterismo. Conversamos um pouco, rimos bastante, oramos juntos, mandamos uma foto pra família e ligamos pro marido dela.

Quando estava pra sair, perguntei se ela queria que eu mandasse alguma mensagem pra eles e ela pediu “Manda um abraço pro Dê!”. Retruquei falando “Poxa, Glorinha, mas só um abraço pro Ademir?! Não quer que mande um beijo?”, e ela então fez uma cara de “Ué…”. Acatei o pedido dela rindo e voltei pra casa.

Alguns dias depois entreguei o abraço pro Ademir. Infelizmente, o fiz na porta do velório. Ela havia pegado uma infecção no hospital e acabou não resistindo por muito tempo. Eu já o tinha abraçado algumas outras vezes, mas quando contei essa história pra ele e entreguei este abraço enviado por ela, ele chorou e me apertou mais forte, como se ela estivesse ali nos braços dele. Como num último gesto dela, mesmo que inconsciente do futuro que a aguardava, aquele abraço levava um pouco da força e conforto de que ele precisava pra se curar naquele momento.

E a mim, por ter tido a honra de ser usado como intermediador deste gesto, ficou a lição de que não existe maior demonstração de amor do que um abraço.

Existem milhões de outras formas de se interagir com pessoas que se ama. Existem formas que demonstram o máximo de intimidade, como o sexo ou usar o banheiro de porta aberta. Existem formas que demonstram como a pessoa é valiosa, como torrar o salário comprando um anel de ouro ou até mesmo doando um órgão pra que a outra continue vivendo. Existem formas que demonstram carinho, como um beijo ou um “vai ficar tudo bem” sussurrado ao pé do ouvido. Mas nenhuma dessas consegue funcionar em todas as ocasiões como um abraço.

Ninguém dá presentes quando o outro chega em casa contando que foi demitido. Ninguém dá beijo de língua pra contar do falecimento de alguma pessoa próxima. Ninguém tira a roupa quando ouve um diagnóstico de câncer. Ninguém transa porque está desiludido com a vida. Não tem carinho, não carro zero, não tem rim, não tem cafuné, seio, homenagem, piada ou frase de auto ajuda que ajudem realmente quando o que se precisa é de um abraço.

Nenhum outro gesto persiste na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

E não existe outro gesto que doa mais quando a morte decide que é hora de separar.

O abraço é mais do que um emaranhado de braços em volta de torsos. O abraço é guarda baixa que permite agarrar a realidade do outro. É diluidor de tristeza. É multiplicador de alegria. É sinfonia de sentidos no silêncio.

O abraço é sincronia de corações.

Dentro deste espaço onde se tenta ignorar que dois corpos não o podem ocupar ao mesmo tempo, cabe muito mais do que se imagina.  No abraço cabe a paciência que dissolve a desesperança. No abraço cabe a compaixão que ignora a indiferença. No abraço cabe a alegria que carrega o consolo. No abraço cabe a paz que afasta o medo.

No abraço cabe o amor que não caberia em lugar nenhum.

Quem é você dentro de você?

Num passado distante cientistas foram desafiados a criar um complexo sistema mundial de interligação de computadores para troca de informações à distância. As possibilidades eram enormes: poderiam enviar informações militares e científicas de um continente a outro, acessar dados bancários, conversar com pessoas do outro lado do mundo, comprar e vender sem sair de casa. Décadas mais tarde, cá estou eu, me dedicando a gastar tempo nesse tal complexo sistema mundial de interligação de computadores para fazer testes em que descubro qual seria meu Pokémon na vida real.

Por mais tonto que seja, é muito divertido responder 5 perguntas e descobrir que no universo de Friends eu seria o Ross (droga, sempre quis ser o Chandler), que no Star Wars eu seria o Jar Jar Binks (o que é indiscutível, infelizmente) e que dentre as princesas da Disney eu seria a Branca de Neve (sim, eu já fiz esse teste mesmo). Os resultados são meio deprimentes, mas é viciante demais pra parar com isso.

Fora estes testes bisonhos de “quem é você na fila do pão” e “quem é sua alma gêmea” (nunca funciona, acreditem em mim), tem outros realmente interessantes por aí, alguns que dá até pra botar certa fé e parecem ter algum embasamento de psicologia por trás. Meus favoritos são aqueles em que você tem que imaginar um cenário com vários elementos e depois descobre que aquele deserto é a representação da sua vida patética e sem sentido, o cavalo rebelde é sua pessoa amada que está pisando na única flor do jardim, que representava seu último amigo. (Baseado em fatos bizarramente reais de um amigo meu esse exemplo.)

Meu primeiro contato com testes assim foi na época em que a Internet ainda era tudo mato. Quando criança conheci uma velhinha muito simpática que parecia ter poderes sobrenaturais. Ela estava em casa conversando com minha mãe e do nada me pediu pra desenhar uma estrada, árvores e uma casa. Achei tonto da parte dela (e não disse isso porque eu era um menino muito educado), mas fiz lá o tal desenho pra velhinha. Ela pegou o papel na mão, abaixou os óculos de velha dela e começou a me descrever completamente se baseando no desenho: “Olha, menino, estas árvores inclinadas pra direita mostram que você gosta de imaginar muito as coisas antes de fazê-las; a cerca na estrada feita assim me diz que você tem muito medo de arriscar nas suas decisões; o caminho com curvas deste jeito mostra que você é muito desorganizado; e esta casa com telhado deste jeito e um cachorro na porta me indicam que você gosta muito de cachorro, porque eu nem pedi pra desenhar cachorro”. Caramba! Não lembro bem como foi que ela descreveu as coisas na verdade, mas ela parecia saber mais de mim do que eu mesmo! Em seguida pegou meu caderno da escola e descobriu pela minha letra que eu era impaciente, distraído e sentia ciúmes da menina que gostava (o que era verdade mas neguei, obviamente). Depois de desnudar meus sentimentos e personalidade ela deu um sorrisinho, fez alguma piadinha sobre poderes mágicos e me deixou anos pensando que ela era prima da Morgana ou algo do tipo.

Infelizmente anos mais tarde eu soube que ela havia estudado algo relacionado a psicologia, o que fez a magia desaparecer um pouco, mas de qualquer maneira isso me fez ficar fanático por estes testes de personalidade.

Há um tempo atrás eu vi em um site mais um destes testes em que se tem que imaginar um cenário, um animal, uma cabana e mais um monte de coisas. Entre estas coisas, devia imaginar uma caneca ou frasco que estava no fundo da tal cabana. Como ele é? Imaginei um frasco de vidro bem fino e fraco, todo embaçado e com água suja parada. O que você faz com ele? Contrariando o que eu realmente faria na vida real, me imaginei pegando o frasco, jogando a água suja fora e depois fui em uma torneira, o lavei, sequei e levei comigo tomando todo o cuidado do mundo. No fim do teste eles explicavam que o frasco representava a minha relação com a pessoa mais importante pra mim naquele momento. Mais tarde naquele dia liguei pra tal “pessoa mais importante pra mim naquele momento”, contei que fiz mais um daqueles testes tontos, falei que limpei o frasco porque não queria nenhum Aedes Aegypti por perto, rimos, nos desejamos boa noite e fomos dormir.

Um mês depois ela me largou e voltou com o ex-namorado.

Não sei se Freud explica isso também, mas aquele teste fez sentido até demais pra mim. Era realmente um relacionamento frágil, cheio de sujeira acumulada de passados mal resolvidos. Tentei limpar com cuidado, mas na vida real acabou tudo despedaçado.

Este pode parecer um texto sobre pé na bunda e seus pais falando “Pelo menos agora você sabe como faz pra pegar alguém, né?” (e não, ainda não sei), mas não. Este texto é apenas um devaneio sobre como carregamos tanta sujeira nesse nosso frasco chamado vida. Sobre como como nossas atitudes são comandadas por coisas que nem percebemos que nos dominam e ditam nossa vida.

O que somos e o que fazemos é, em sua maioria, resultado do que vivemos até então, e a nossa linha do tempo é o tempo todo agredida e entortada por pancadas que experimentamos todo santo dia. Cada pequena falha nossa ou do outro faz pingar mais uma gota no frasco, cada pecado cumpre sua função em aumentar a distância nos relacionamentos, cada trauma nos imputa medos que tornam opacas nossas decisões e, quando menos esperamos, nosso frasco está transbordando sujeira e nos encontramos envoltos em tanto lodo que já não dá mais pra ver do outro lado do vidro.

É preciso limpar o que está ali dentro.

Ignorar a sujeira que acumulamos conosco não a limpa, e nessa vida não se tem tapete suficiente pra varrer tudo pra debaixo dele. Cada trauma ignorado, cada falha arquivada, cada pecado engavetado vão cobrar sua atenção um dia. É preciso esvaziar nossos armários para que as traças não corroam o que realmente importa. É preciso tratar as velhas feridas, mesmo que seja pra aprender como tratar as que ainda estão por vir. É preciso enfrentar os velhos traumas para que eles não roubem sua liberdade de escolha na vida. É preciso enterrar seus mortos, mesmo sabendo que parte de você será enterrada junta. É preciso se livrar da sujeira que acusa e te impede de se relacionar consigo mesmo, pois só assim pode-se se tornar livre pra se relacionar com o outro outra vez.

Quantas amizades precisam ser desperdiçadas por medo de confiança? Quantos amores precisam ser evitados por medo do abandono? Quantos cachorros precisam ser negados por medo da separação? Quantos projetos precisam ser engavetados por medo do fracasso? Quantas festas, quantas comidas, quantas experiências, quantas viagens, quantas roupas, quantos sorvetes, quantos abraços, quantas danças, quantos prazeres?

Quanta vida é preciso deixar pra lá por coisas que já deveriam ter sido deixadas pra lá?

É preciso esvaziar o velho eu para poder ser preenchido de uma nova vida.

Não há frasco que não possa ser lavado. Não há passado que não possa ser deixado pra trás.

É preciso aprender perdoar – a si mesmo, inclusive.

Poderes mais ou menos trazem responsabilidades mais ou menos.

Sei que parece idiota, mas durante boa parte da minha adolescência eu torci pra que uma aranha radioativa me picasse. Eu lia aquelas histórias em quadrinho do Homem Aranha e também queria ser o menino magrelo e míope que sofria bullying (isso eu já era, na verdade) se transformando num cara com super poderes, que podia saltar de um prédio pro outro e disparar teia para salvar as donzelas indefesas de criminosos encapuzados. Eu sei, picada de aranha geralmente causa necrose nos membros, e no interior de São Paulo não existe tanto prédio assim pra se pendurar, mas, tirando a parte de usar uma roupa coladinha dessas numa região tropical, deve ser louco demais ter grandes poderes assim, mesmo que eles venham com toda essa baboseira de grandes responsabilidades.

Essa besteira de querer ser super herói na verdade começou mais cedo. Me lembro que quando criança fiz uma máscara azul pra usar com um colete azul de gosto duvidoso que minha mãe tinha me dado. Meu codinome era Netuno, e eu deixava tudo isso guardado dentro do guarda-roupa, daí entrava nele e saía fantasiado pra combater o crime imaginário do meu quarto. (Pensando agora, eu meio que literalmente saía do armário com outro nome e uma máscara combinando com um colete. Ok, isso tudo soa muito estranho agora…)

Mas enfim, cresci aprendendo que na vida não existem super heróis, mas sim toda aquela história bonita de que “existem é pessoas que fazem atos heróicos todos os dias, como os bombeiros, policiais, médicos e aquele cobrador de ônibus que te vê correndo feito um queniano e pede pro motorista segurar o busão mais um pouquinho”. E é mesmo, todos os dias vemos heróis ordinários que nos salvam do fogo, do assalto, da virose e do atraso no trabalho. Todos os dias se descobre mais um herói que salvou alguma criança em apuros, todo fim de campeonato tem o herói que salvou o time do rebaixamento, toda ano eleitoral tem o herói que vai nos salvar da corrupção e todo ano seguinte tem um herói que vai julgar o herói anterior por desvio de verbas públicas.

Nós procuramos heróis que nos salvem do crime, da tristeza, do tédio, da carreira, do chefe, da doença, da rotina. Nós procuramos heróis que nos salvem do tempo, da existência, da humanidade. Nós procuramos heróis que nos salvem de nós mesmos. E na primeira ação heróica que vislumbramos, nosso herói ordinário se torna um símbolo, e daí não fica muito distante o caminho pra transformá-lo num ídolo. E menor ainda é a distância entre o ídolo e a idolatria.

Idolatramos políticos que nos salvariam do comunismo, idolatramos ideologias que nos salvariam do consumismo, idolatramos empresários que nos salvariam do desemprego e idolatramos empresas que nos deixam desempregados. Idolatramos pessoas que nos salvariam da solidão. Idolatramos o casamento que nos salvaria da perdição. Idolatramos teologias que nos salvariam do compromisso real que nos convoca.

E, mais cedo ou mais tarde, todos os ídolos se mostram imperfeitos e se tornam decepção.

Me lembro de uma cena de 300 de Esparta quando o Rei Leônidas do abdômen trincado assume o máximo de sua fraqueza, tira sua armadura, solta seu escudo e, sob flechas inimigas, joga sua lança contra o andrógeno Imperador Xerxes, o grande herói e líder persa que se dizia um deus e era idolatrado por meio mundo. A lança viaja pelo ar e rasga um lado do rosto de Xerxes, que tenta de todas as maneiras esconder o sangue que revelava sua mera humanidade. Leônidas morre, mas mostra que seu adversário não passa de um ídolo de carne, osso e sangue como todos nós.

Criamos expectativas demais no que não é pra ser, e a mesma afobação que transforma heróis em ídolos se vale da decepção pra transforma-los em vilões.

Na contramão desta história, um certo Jesus entrou na capital de seu país aos gritos de “Salva-nos”. A galera viu que ele fazia umas coisas inexplicavelmente doidas, arrastava multidões e falava como um rei poderoso. Era o herói que esperavam há tempos pra salvá-los do pesado domínio romano, era o rei que todos ansiavam pra por fim a uma era de abusos e sofrimento, era o messias prometido que traria estabilidade e grandeza à Israel. Idolatraram o próprio Jesus, exaltaram o que ele nunca clamou ser, e aos gritos de “Crucifica-o”, mataram a fraude de um herói que não salvou nem a si mesmo.

Mas orgulhoso de sua morte, ele não escondeu seu sangue e nem reagiu, pois sabia que a salvação pela qual ele veio não se conquista por heroísmo e espada, mas sim por entrega e amor.

Nosso desejo por salvação não encontra nada além de frustração quando procuramos por heróis que nos salvem. E pior: nosso desejo por salvação geralmente não sabe ao certo nem do que quer ser salvo. Estamos danados no sentido não baiano da palavra, condenados, irremediavelmente perdidos.

Estamos à deriva no meio do oceano da perdição humana e não faz sentido pensar que alguém de dentro do barco tenha capacidade pra nos salvar dali.

Não faz sentido procurar no meio dos imundos quem nos salve da sujeira. Não faz sentido procurar na humanidade quem nos salve de ser humanos.

Não faz sentido procurar um herói quando se precisa de um Salvador.

A Santa Ifigênia, o Waze e o Cosmos.

“Você pega reto aqui na avenida, passou um, dois, três faróis, vira à esquerda, mas não na esquerda mais fechada da bifurcação, na outra, depois segue reto, vai passar três Assembléias de Deus, na quarta você entra na rua do lado direito, pega a faixa da esquerda, sobe na terceira rua à esquerda, depois direita, faz o retorno no balão, passou a faixa de pedestres apagada você volta pelo viaduto na faixa do meio, pega no farol à esquerda, sobe a quinta rua à direita e quando vir uma casa com portão preto e um vira-lata de poodle com labrador caramelo você anda mais uns duzentos metros e pergunta num posto ali do outro lado da rua que eles te ajudam. Não tem como errar.”

Tem como errar sim.

Invejo as pessoas que tem senso de direção e entendem essas coordenadas que os frentistas dão quando a gente tá perdido e para pra pedir informação. Eu me perco tanto dirigindo em lugares desconhecidos (e em conhecidos também, não vou mentir) que costumo dividir minha história motorística em AW e DW: Antes do Waze e Depois do Waze. É tão reconfortante você não fazer a mínima ideia de como chegar num lugar e ouvir “Vire à direita em 50 metros. Depois: na rotatória, pegue a terceira saída.” (e espero que você também tenha lido essa parte dando as pausinhas na frase igual à moça do GPS).

Essa história de ser perdido não começou aos 18 anos com minha carteira de motorista. Eu era aquela criança lesada que se perdia da mãe no supermercado, que ia no banheiro do shopping e depois não sabia voltar, e que na praia passava 10 minutos no mar e meia hora procurando o guarda-sol da família toda vez que ia dar um mergulho. Geralmente nesses momentos de perdição eu acabava encontrando o caminho de volta sem grandes problemas, mas teve uma vez em especial que eu realmente entrei em desespero.

Estava em São Paulo, na região da Santa Ifigênia (maior centro de muamba eletrônica do Brasil) e meu pai, crente de que com uns 12 anos eu já tinha responsabilidade na vida, me mandou ir ao carro buscar alguma coisa pra ele: “Lembra onde está o carro, né? Segunda rua à direita, depois anda 3 quarteirões. Não tem como errar.”. Tinha como errar sim.

Não faço a mínima ideia de quantas ruas e quarteirões andei, mas eu, menino nerd do interior, estava tão vislumbrado com aquele tanto de lojas de computadores, e videogames, e bancas de CDs piratas, e controles de Playstation, e fita de Gameboy, e chaveiro de Pokebola e “… eita. Onde eu tô?”. Andei mais ou pouco procurando o carro, mas lá tinha um monte de carros. Voltei procurando a rua da loja onde meu pai estava, mas lá tinha um monte de ruas com um monte de lojas. E um monte de gente. E um monte de mendigos. E, por mais idiota que soe, eu realmente pensei que não ia mais encontrar meu pai, que minha mãe ia parar na Praça da Sé com uma foto minha e eu ia virar morador de rua porque nasci sem noção espacial.

Não sei por quanto tempo fiquei perdido procurando meu pai, mas mais tarde ele me encontrou no meio daquele monte de gente, me abraçou e eu chorei de alívio feito uma criança com metade da minha idade.

Se perder não é legal.

Pela longa estrada da vida onde o poeta nos diz que a gente vai correndo e realmente não pode parar, não é incomum se perder e se perceber muito longe da onde realmente deveria estar. Seja a paisagem nos distraindo, a preocupação com quem está no retrovisor ou apenas alguém apontando o caminho errado mesmo, sempre tendemos a passar reto naquele ponto em que a vida precisa de uma mudança de direção. Às vezes é a carreira profissional que faz se perder da família. Às vezes é a falsa alegria dos comerciais que faz se perder de uma alegria verdadeira e gratuita. Às vezes é o medo disfarçado de segurança que faz se perder de novas experiências. Às vezes é a internet que faz se perder do mundo real. Às vezes é a inveja, é a bagunça, é a vergonha, a procrastinação, o remorso, o passado, o trauma, o conformismo, indiferença, maldade, falta de fé.

São essas coisas e outras tantas que nos desviam para a larga estrada da zona de conforto e nos afastam cada vez mais do que realmente importa.

Nos perdemos na verdade porque nosso piloto automático está configurado para um grande e absurdo plano de fuga.

Num dia desses, depois de tentar fugir deliberadamente de coisas que realmente importam pra mim, estávamos montando uma fogueira num acampamento e procurando algum pontinho azul no céu que nos desse esperança de uma noite sem chuva. A previsão do tempo já havia alertado e olhar pra cima apenas confirmou: só se via 50 tons de cinza nublado quase chovendo. Exercitei minha falta de fé cobrindo a fogueira com uma lona, fomos jantar e quando voltamos pra acender a fogueira nos surpreendemos pois, sem cair um pingo, já não se via uma única nuvem no céu. Enquanto a fogueira queimava, parei pra olhar pro alto e realmente não me lembro de ter visto tantas estrelas assim na vida. Talvez eu nunca tivesse reparado o quão grande isso tudo é. Talvez eu nunca tivesse me achado tão pequeno assim. Como de costume, comecei a viajar.

O Universo é realmente algo enorme e se a gente acha que a Terra é grande é porque a gente é realmente muito minúsculo mesmo. Deste cantinho da nossa galáxia eu estava contemplando um pequeno pedaço de um todo tão grande, mas tão grande que me fez me sentir menor que o nada.

E como é fácil se perder na grandiosidade do Universo sendo tão insignificante e frívolo.

Naquela noite, reafirmei pra mim mesmo que sou pó, mas fui relembrado que eu, um nada perdido no espaço, sem capacidade alguma de voltar com minhas próprias pernas, estava de repente no exato lugar onde deveria estar, não porque acertei o caminho, mas porque fui encontrado e guiado até lá.

Do lado daquela fogueira, sob o vasto manto estelar que me cobria, eu, que sou um cisco cósmico senti o Pai me abraçando e me aquecendo, como quem diz “Ei, olha como o Cosmos é lindo. Ei, você é parte disso tudo que eu criei.”.

Eu, um pontinho insignificante do Universo, de repente sou importante para alguém que é maior que o próprio Universo.

A verdade é que todos nós iniciamos esta curta viagem terrena já na contramão e nossa natureza nos faz querer fugir cada vez pra mais longe, até o ponto em que já não fazemos a mínima ideia de onde fomos parar.

Mas a boa notícia é que tanto faz como ou quanto você se perdeu. Nada disso importa.

Basta reconhecer estar perdido para finalmente ser encontrado.

Agridoce

Já passava de uma da madrugada. O filme tinha acabado de terminar, o pessoal começou a se levantar pra ir embora e eu comecei a pensar em como matar minha fome noturna. Tinha sobrado brigadeiro de colher que as meninas fizeram pra comer durante o filme, mas minha mãe tinha feito peixe frito na janta. Me bateu o dilema: Brigadeiro ou peixe? Doce ou salgado? No meio do embate moral que se formou dentro de mim, ouvi uma voz vindo de dentro que me disse: “Come tudo junto, Thales”.

A voz era o sono, eu sei, mas eu decidi segui-la e peguei um pedacinho do filé de merluza empanado, cobri com um pouco de brigadeiro e comi com a exata cara de nojo que você está fazendo agora. E me assustei, porque ficou bom. Sério. Peguei um pedaço maior, tentei de novo pra ver se não era alucinação, mas não, realmente tinha ficado muito bom. E quando digo bom, não me refiro a comer batatinha com Sundae do Mc Donalds (isso as pessoas fazem só pra chamar atenção), mas talvez, debaixo do olhar de desaprovação de quase todos ali, eu tivesse acabado de descobrir o Santo Graal da improbabilidade de gostos misturados.

Segundo minha enciclopédia mental de cultura inútil, o que a gente geralmente chama de gosto é na verdade o cheiro da comida. Existem apenas cinco gostos que nossas línguas são capazes de discernir: o ácido, o doce, o salgado, o amargo e o umami. Sim, existe um treco chamado “umami” que ninguém sabe realmente como é, mas que todo mundo concorda que é gostoso. O resto todo é apenas o cheiro da comida, e essa é a razão pela qual a comida fica sem gosto quando estamos gripados, ou porque tampamos o nariz quando vamos tomar aquele remédio com delicioso gosto de chão de hospital.

Mas fora toda a complexidade do que é gosto e do que é cheiro, o divertido mesmo é misturar coisas inesperadas na cozinha. Já fiz algumas boas experiências, como o frango grelhado com morango, que fica ótimo em um sanduíche com queijo, por exemplo; ou o filé de abacaxi temperado e assado à manteiga, que vai muito bem com omelete e champingnon; e uma vez coloquei pedaços de chocolate refogados ao alho no molho de tomate para acompanhar macarrão, e ficou realmente bom. É claro que algumas vezes fracassei, e te digo pra evitar colocar limão em qualquer vitamina com leite, não tentar comer Sucrilhos com Sprite e jamais jogar uma colher de Nescau na Coca-Cola.

O interessante dessas misturas é que a gente descobre que o doce não é o contrário do salgado e nem o ácido o inimigo do amargo, mas ambos os gostos podem coexistir fazendo festa na boca. Eu posso colocar sal na manga e experimentar o doce e salgado ao mesmo tempo, assim como posso colocar limão na rúcula e sentir o ácido e amargo juntos. Ou posso colocar sal na manga, a manga na rúcula e mergulhar tudo em suco de limão pra tentar descobrir finalmente o que é o umami, e ainda não vou descobrir o que é. Mas além dos gostos que sentimos na língua, as sensações que sentimos na vida também são assim.

Certa vez compartilhei algumas dessas experiências culinárias com um Chef de Cozinha de verdade e, obviamente, ele me disse que sou retardado e tinha fumado maconha pra experimentar essas coisas. Mal sabia ele como era lá em casa…

Meu pai era o mestre da nojeira na cozinha. Eu imagino que ele tinha algum problema no paladar ou olfato porque sempre comia comida azeda ou estragada sem perceber, mas além disso não era estranho entrar na cozinha e o encontrar colocando chuchu em cima de bolacha Passatempo, misturando jiló com doce de figo e mel, ou comendo pão com abobrinha, manga e amendoim. Não posso negar que depois de um tempo o estranho era vê-lo comer alguma normal. E também não posso negar o quanto ainda acho anormal ter que falar dele apenas no passado.

Há pouco tempo atrás eu tomei o café da manhã mais estranho da vida. Me lembro que bebi um suco de laranja, comi um Polenghinho e uma barrinha de cereal, mas por ter encontrado meu pai tragicamente já sem vida há algumas horas, senti apenas um amargo intenso em tudo que experimentei naquele dia. De repente comer tomate com gelatina ou qualquer outra mistura absurda que ele fazia parecia ter mais sentido do que tudo ao redor. O amargo da tristeza que eu sentia era tão forte que me impedia de perceber qualquer outra coisa. Mas aos poucos comecei a sentir algo estranho e improvável.

“É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia a poesia do velho Vinicius, e aprendi assim minha vida inteira de que ou se sente alegria ou tristeza. Mas conforme o baque foi passando, eu percebia que, alheia à toda a tristeza que sentia naquele momento, havia ainda um sentimento destoante, uma estranha alegria latente dentro de mim. Apesar de todo o medo e insegurança que fazia os músculos do meu coração oscilar, meus músculos da face repuxavam estranhamente me colocando um sorriso improvável no rosto. Eu não entendia bem da onde vinha, mas não queria abrir mão daquela alegria estranha que vez ou outra se deixava sentir ali no meio de toda aquela bagunça.

Já ouvi gente dizer que a alegria é uma invenção moderna e que a busca por ela é uma jornada sem sentido. Por outro lado, não é incomum ouvirmos que precisamos fazer ou ter certas coisas para sentirmos alegria. Ligamos a alegria à realização profissional, aos relacionamentos amorosos, à saúde, ao dinheiro na conta do banco ou ao jogo do Corinthians (se perder, a gente fica alegre, é claro). Mas isso tudo não passa de distração, como uma sobremesa doce após o almoço. E não me entenda mal, distrações e sobremesas são sempre bem vindas. O problema é vincular sua alegria com coisas tão efêmeras e imperfeitas quanto dinheiro, romances ou o ataque do Timão. Se sua alegria é tão falha assim, que triste ela é!

A alegria verdadeira e de que precisamos geralmente passa despercebida o tempo todo. Alheia a todos os sabores amargos e doces que a vida nos oferece, separada de toda tristeza e distração que nos atinja, a alegria está ali escondida, insípida, inodora e incolor, dando liga a cada um dos sabores. A alegria que precisamos não dá cárie nos dentes, não faz subir nossa pressão arterial e não nos coloca uma careta engraçada no rosto. A alegria que precisamos não tem prazo de validade, não estraga fora da geladeira e não mancha roupa alguma.

A alegria que precisamos nos refresca a alma. A alegria que precisamos nos saceia a sede e nos permite experimentar o equilíbrio de tudo que a vida nos oferece. E mais que isso, a alegria que precisamos nos oferece vida.

O velho Vinicius de Morais uma vez disse também que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É realmente muito triste esse ponto de vista onde a tristeza não cumpre sua função de nos levar à reflexão e à uma consequente mudança de pensamento, mas ao contrário, nos escraviza e nos leva cada vez mais pra baixo, cada vez mais fundo.

Porém, é no fundo do poço que se encontra água limpa.

Não desejo isso a mais ninguém, mas chegar tão lá embaixo é uma das maneiras de se aprender esta verdade. Porém a boa notícia é que não é necessário ir tão fundo assim: a alegria verdadeira que precisamos nos é oferecida o tempo todo graciosamente e de graça. A alegria verdadeira não se vende em galões de 20 litros e não se acaba com má gestão da Sabesp. A alegria verdadeira não se seca com o calor e não se suja com nossa podridão. E o melhor de tudo: não importa o tamanho da nossa sede, beber dela uma vez já é o bastante pra saciar uma vida toda.

Os que tem sede, venham. Os que choram, bebam. É tudo de graça. É tudo graça.

Felizes os que choram, porque o choro acaba. Felizes os que choram, porque a alegria jorra pra eternidade.

Eu tinha vergonha do meu pai.

(Este texto foi publicado originalmente no Facebook dias após o falecimento do meu pai, João Rios Filho, em Julho de 2015)

 

Eu tinha vergonha do meu pai.

Pensei que talvez não fosse o melhor momento pra falar disso, mas é sim. E já havia dito isso pra ele algumas vezes, já que essa vergonha já passou há muito tempo.

Num mês de Agosto quando eu estava na sexta ou sétima série a minha escola mandou um recado avisando que teríamos uma homenagem aos pais lá. Aquelas coisas cafonas de sempre: jograis mal ensaiados, um aluno cantando mal uma música do Fábio Júnior e algum presente inútil que custasse menos que R$2,00. Fui pra casa com o bilhete e mostrei pro meu pai como sempre, já esperando a resposta padrão “Uh, filho, o pai vai viajar pra vender nesse dia, tudo bem?”. Eu sempre respondi “tudo bem” porque realmente estava tudo bem.

Ele sempre saiu pra trabalhar antes de acordarmos, geralmente passava mais da metade da semana fora trabalhando, passava muitos sábados e domingos se preparando para viajar e nunca foi aquele pai que sentava no sofá pra ver desenho com os filhos, até porque os desenhos passavam em horários em que ele geralmente não estava lá. Mas isso tudo nunca foi um problema porque nós sabíamos que ele estava fazendo isso pra cuidar da família e aproveitava cada folga que tinha pra nos levar ao clube, cachoeira, praia, pra nos ensinar a andar de bicicleta, ensinar matemática e todas essas coisas que jamais sairão da memória.

Mas depois daquele bilhetinho da homenagem do Dia dos Pais ele respondeu um surpreendente “Vou sim, filho”. Me assustei bastante, tentei argumentar que ele não precisava ir, que precisava trabalhar ou descansar ou qualquer coisa, mas ele realmente queria ir lá.

Pra quem não o conhecia muito bem, imagine um personagem da Praça é Nossa habitando a realidade fora da TV. A cada 10 coisas que dizia, 11 eram jargões. Se encontrasse 100 pessoas num dia, contava a mesma piada 100 vezes. Brincava com todo mundo, o tempo todo (inclusive em velórios). Agora imagine que você seja o menino não-popular da escola e seu pai chega lá aloprando com todo mundo, inclusive com as poucas pessoas que ainda te respeitam. E ele fez isso.

Chegou zuando todo mundo. Amigos, inimigos, professoras, todo mundo. Eu só abaixava a cabeça esperando ele não contar alguma coisa constrangedora minha pros meus colegas. Acabou a homenagem, ele me deu um beijo na testa e foi embora. Eis que então veio rindo a loirinha que já tinha seios (toda sala de sexta-série tinha uma loirinha que já tinha seios e você sabe disso, não me julgue). Pensei que ela ia falar que descobriu com meu pai que eu tinha medo de ratos ou que eu brincava com Comandos em Ação inventando nomes em inglês pra eles. Ela chegou e disse: “Cara! Seu pai é muito legal! Queria que o meu fosse assim também.”.

Oi?

Eu ali todo preocupado em passar algum vexame e na verdade meu pai era legal e eu não sabia. Dali em diante eu comecei a reparar e vi que mesmo ele ainda parecendo um personagem da Praça é Nossa (e eu assobiava o tema do programa pra ele o tempo todo), ele era tipo um daqueles personagens legais, tipo o Zoínho ou aquele que falava “Mestre, Uaaaalaaaa!”. Eu tinha orgulho de muitas coisas que meu pai fazia, mas só nesse dia eu aprendi a ter orgulho do meu pai.

Na semana passada o encontramos morto. E foi uma morte que realmente não inspira orgulho algum. Não vou mentir e dizer que não senti vontade de encher o corpo dele de socos por nos deixar de maneira súbita e inexplicável assim, ainda mais num momento em que fazíamos planos alegres com a família e projeções otimistas para os negócios. A morte dele merece tanto orgulho e compreensão quanto alguém que suja a cueca quando está com diarreia. Ninguém escolhe fazer isso, ainda mais quando realmente só se tem motivos para não fazer. Para a triste surpresa de todos, inclusive a dele, ele enfrentava uma doença que nem mesmo ele tinha conhecimento, e não se deve ter vergonha alguma disso. Não foi covardia, nem fuga ou desespero. Foi doença, e com doença não vem orgulho e nem vergonha, vem apenas compreensão.

Mas em meio à dor da perda e da tragédia, Deus escolheu apenas uma palavra para me consolar: Orgulho.

Nos ofereceram a maior sala de velório da cidade. Ela não foi grande o bastante (e nem chegou perto disso). Lá eu vi os meus tios, que ele sustentou e alimentou ainda adolescente. Vi também amigos antigos, que viajaram centenas de quilômetros, cada um com a sua história de como meu pai os animou, os ajudou, os consolou e até os salvou em diversas situações. Abracei pessoas que tiveram seu primeiro emprego graças a ele, outros que sustentaram suas famílias quando apenas meu pai acreditou na capacidade deles. Cantei hinos junto com pessoas que aprenderam a cantar sob a regência do “Malestro” João Rios, o maestro mais mala e exigente que já passou por esses lados. Ouvi os violinos de músicos profissionais que aprenderam a tocar e a amar música em um dos projetos gratuitos de musicalização que meu pai criou e se dedicou por anos. Sorri com pessoas que queriam morrer, mas desistiram depois de conhecer meu pai. Orei com pessoas que conheceram a Deus através de palavras do meu pai. Chorei de alegria e esperança com minha mãe e irmãos ao sentirmos a certeza de que meu pai está junto ao Pai.

Não saberei aqui na Terra o quanto mais posso sentir orgulho dele. A cada volta de viagem ele contava mil histórias de como Deus o usou na vida de outras pessoas, e nessa viagem final já ouvimos um tanto do quanto Deus o usou para chacoalhar os corações mais duros e acalmar os corações mais aflitos. Na Eternidade terei bastante tempo pra sentar com ele e Jesus pra ver os frutos da vida dele (e fazer piadas dessa história toda, é claro).

Infelizmente, em meio a todo esse orgulho cabe um pouco de vergonha também. Não por meu pai, mas pelas pessoas maldosas que criam e espalham os boatos mais absurdos. É normal numa situação inexplicável se buscar respostas, mas a maldade e o desrespeito das pessoas chega a incomodar um pouco. Desmentindo alguns dos boatos, nós não estamos quebrados financeiramente, o casamento dos meus pais continuava tão belo e exemplar como sempre foi, meu pai não cometeu crime algum e eu estou vivo (sério, até eu morri em alguns boatos por aí). E caso você tenha dúvidas sobre pra onde meu pai foi, te convido pra conversar um pouco sobre fé, graça e salvação.

Independente do que digam, não tem boato que vá tirar minha paz, não tem memória que vá diminuir meu orgulho pelo meu pai e nem mau conselho que me faça esquecer o que ele me ensinou. De herança ficou apenas a fé, e não há circunstância que a possa abalar.

Em nome da minha família agradeço as mensagens de apoio, as lágrimas, os abraços e as orações. É o momento mais difícil de nossas vidas mas, contrariando toda a lógica, nossos corações estão aquecidos e em paz. Agora entendemos a tal “paz que excede todo o entendimento” e sabemos, mais do que nunca, que Deus cuida de nós.

Quanto ao futuro, ficam agora a saudade e as boas memórias. E que ninguém queira fazer qualquer coisa pela memória ou honra do meu pai, pois ele mesmo nada fazia pra si próprio. Que a gente aprenda com o exemplo dele o que é viver uma vida de serviço ao próximo e de amor a Deus.

Até logo, pai.