Deus não me deixa ser ateu

“Sabe, Deus é como o ar: a gente não vê, não apalpa, mas se não estivesse aqui, ninguém estaria vivo”. Ah, cale a boca, por favor.

Eu tenho tudo pra ser ateu (e não é só ateu dispor, gata): desde o primeiro episódio de Beakman na TV Cultura eu amo a ciência; acredito que as espécies evoluem; acredito em coincidências; duvido de tudo que seja taxado como paranormal; acredito que houve um bang tipo Big Bang lá no começo do nosso Universo; tento ser o mais racional possível em tudo na vida; e gosto de acreditar apenas naquilo que se pode provar. Deus não se pode provar…

Mas Deus não me deixa ser ateu.

Talvez eu esteja meio calvinista ultimamente, mas não consigo não acreditar nessa história doida escrita nesse livro doido cheio de gente doida. Você pode dizer que sou assim porque passei 99% dos meus domingos confinado em uma igreja, que eu tenho medo de chutar o balde e ter que aguentar re-evangelização nos almoços em família, que eu não tenho coragem de assumir que estive errado minha vida inteira, mas a real é que eu já tentei, mas não deu. Como disse um velho amigo meu, “na época da ditadura eu entrei pro Partido Comunista e tentei virar ateu, mas não consegui”.

Toda certeza é absoluta, porque se há uma minúscula dúvida em uma virgulazinha de nada, essa dúvida anula o que você chama de certeza. Você então tem uma grande aceitação de uma verdade. E a verdade é que, por mim, eu chutaria o pau da barraca a qualquer instante, pararia de me preocupar com eternidade e aceitaria que a morte é um enorme ponto final na minha minúscula existência.

O que me impede é uma conta dentro de mim que não fecha. Uma parte de mim é 100% dúvida e incapaz de acreditar em qualquer coisa não provada. A outra é 100% certeza, e eu a chamo de Fé.

Essa tal de Fé me mostra o tempo todo que esse meu lado incrédulo é tosco, mundano e imperfeito demais pra entender qualquer coisa, que minha visão é limitada pelas coisas que eu vejo e que jamais vou entender como tudo isso funciona. E ela é forte demais: quando o outro lado fecha a mão pra dar um soco, já toma logo um chute no queixo e fica quietinho chorando no canto da sala.

Às vezes ela fica ali, calada, só me observando bater a cabeça, mas depois me dá um tapa na cara que me arregala os olhos e então vejo o quão cego eu sou. E o mais incrível, e a razão por essa conta não fechar, é que essa tal Fé não vem de mim. Alguém um dia abduziu minha razão e implantou esse chip na minha cabeça, que me faz ter certeza de coisas absurdas e me prova que existem coisas além das que eu posso provar. E esse chip aponta como fabricante e me leva a conhecer esse ser mal interpretado que chamamos de Deus, Jeová, Cara-Lá-de-Cima ou Papai.

Ele tem tantos nomes assim porque não gosta de aparecer de um jeito só. Pra quem está lutando, ele aparece dando força e coragem. Pra quem gosta de pirotecnia e mágica ele chega fazendo milagres e coisas malucas do tipo. Como me conhece bem e sabe que eu gosto é de A+B=C, ele me contou baixinho uma coisa outra dia: “No princípio eu disse: Haja luz. E houve Big Bang”.

Fonte

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