A previsão para hoje é de pancadas de falta de assunto.

“Nossa, tá [ INSERIR AQUI ALGUM FENÔMENO NATURAL CORRIQUEIRO ] hoje, né?”

É com esse modelo de frase, meus amigos, que acabam 90% dos silêncios constrangedores em filas, elevadores e salas de espera. E é com um vago “É…” que se começa um silêncio ainda mais constrangedor logo em seguida.

Estamos em pleno Verão por aqui, moramos num país tropical abençoado por Deus e quente por natureza, e desde 1500 tem gente afirmando o óbvio em bom português: “Nossa, tá quente hoje, né?”. Eu realmente agradeço as pessoas que me dizem isso todo dia, porque estava difícil de entender o porque meu braço insistia em grudar na mesa. A vontade que me dá é de pegar um Halls Preto, dar pra pessoa e dizer “Aqui ó, use como sabonete, campeão”.

Mas na verdade isso tudo me preocupa: vivemos uma verdadeira pandemia da obviedade cíclica. Por todos os lados, as pessoas reclamam das mesmas coisas todos os anos e das mesmas maneiras. No verão reclamam do calor. No inverno, reclamam que tá frio. Quando chove, reclamam que só chove. Quando não chove, reclamam que goiabeira já tá dando saquinho de Tang.

Se desse um tsunami no Brasil eu pularia de cabeça na onda pra não ter que escutar os mimimis posteriores.

Mas a real causa disso tudo não é ingratidão com Deus e a natureza, mas um grave problema climático ignorado por todos os institutos metereológicos. Esqueça Aquecimento Global, Calotas Polares e Camada de Ozônio, o nome disso é Falta de Assunto. Simples assim.

As pessoas mais extrovertidas ou inquietas não conseguem ficar sem falar ou postar alguma coisa nas redes sociais por muito tempo, e em algumas semanas existem assuntos pertinentes pra se explorar. Mas e quando o Corinthians não está em crise? Ou quando a novela ainda está no meio, ou quando o BBB ainda não começou? Aí o óbvio pede licença e entra na conversa: “Acho que vai chover, hoje, ein…”.

Quando eu morava longe dos meus pais, todo Domingo à noite a gente se telefonava, mas depois de alguns meses o assunto da semana sempre recaía se estava quente, se estava frio, se tinha chovido ou se eu tinha sobrevivido à mais uma enchente de Bauru. Não me importava com isso, gostava de matar a saudade, mas comecei então a desenvolver uma técnica que gostaria de compartilhar com vocês.

Consiste em falar qualquer coisa que vier à cabeça quando não se tem assunto. Qualquer coisa mesmo.

“— Eu tinha um pastor alemão quando era criança. O nome dele era Paspo.”

“— Qual sua cor predileta? A minha é azul.”

“— Já comeu comida mexicana? Não? Hemorróida? Puts.”

“— Meu Pokemon inicial predileto sempre foi o Charmander.”

“— Par ou ímpar?”

Parece idiota, e realmente essa é a ideia. Mas acredite: funciona (e às vezes vão achar que você é maluco). As pessoas não sabem o que fazer quando você leva as coisas pro nonsense, e tudo que vier daí será divertido. Ou agressão, dependendo do assunto que você escolher.

Inquieto que sou, acredito que o mundo precisa de conversas superficiais para continuar girando, mas ele está faminto por assuntos que não sejam sobre o clima e estações do ano. Entretanto, se não houver outro meio de puxar assunto, fale sobre o sol e a chuva, mas, por tudo que é mais sagrado, não rime com casamento de viúva.

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