Só por hoje.

Desde que li o primeiro Sherlock Holmes há alguns anos atrás, uma das minhas diversões é tentar desvendar as pessoas na primeira olhada que dou. Mesmo sabendo que tudo acontece numa ficção, acho incrível isso de ler a vida e a personalidade da pessoa ao observar pequenos detalhes da roupa, corpo ou coisas assim.

E num dia desses eu estava voltando pra casa numa tarde e vi um homem subindo uma rua com uma certa dificuldade. Ele não devia ter mais que 40 anos, mas respirava feito um homem de 60. Pele queimada de sol; pés pretos e rachados num chinelo velho; calça gasta e suja, daquelas que nem dá pra saber a cor original mais; camiseta também velha, com cara de fim de bazar de igreja. Cabelo bagunçado demais pro fim de uma tarde de sábado.

Ele vinha subindo a rua sozinho, com uma apatia enorme, mal olhava pra atravessar de um quarteirão pro outro, afinal, era pela rua que ele andava mesmo. Numa mão ele carregava uma sacolinha leve, praticamente vazia.

Tudo muito elementar, até então. Qualquer pessoa enxerga nesse homem mais um daqueles homens que a gente faz que não vê todo dia.

Mas na outra mão, com muito cuidado, ele levava à frente do corpo um papel grande e dobrado. Reparei que entre um passo e outro, ele sempre olhava para o papel, e tomava cuidado pra não o balançar demais, como se houvessem jóias delicadas lá dentro.

Eu fingi que esperava os carros passarem pra engatar a primeira e sair da esquina onde estava, mas nem tinha mais carro nenhum passando. Queria mesmo era saber o que tinha naquele papel. Olhei pros lados duzentas vezes, desengatei e engatei a marcha quatrocentas vezes e aquele homem subia a rua cada vez mais devagar e eu não saberia o que tinha de tanto valor no tal papel dobrado.

Talvez uma carta? Talvez um desenho? Quem sabe uma escritura, um documento, um autógrafo do Sidney Magal, uma foto do Sílvio Santos?

Cansei de esperar e resolvi virar a rua e passar bem do lado dele.

Passando bem devagar e vi apenas que no verso do papel não havia nada impresso. Não fiquei contente, reduzi ainda mais a velocidade e entortei meu pescoço como se aquele papel fosse o rebolado da Juliana Paes. Satisfazendo a lombriga da minha curiosidade, o homem levou a outra mão ao papel e o abriu. E sorriu. Um sorriso estranho, de canto de boca, misturado de esperança e descrédito de qualquer coisa.

Era um calendário. Daqueles de açougue ou padaria, pra pendurar na parede, impresso porcamente na gráfica mais safada e usando aquele azul padrão de calendários de açougue e padaria.

Um calendário.

Continuei descendo a rua digerindo aquilo. Pensei que teria uma epifania e a frase “Controlo o calendário sem utilizar as mãos” faria finalmente sentido, mas não. Na verdade ninguém controla o calendário, a gente apenas tenta se preparar pro que vem e é obrigado a aceitar o que passa. Alguém precisa avisar isso ao Claudinho & Buchecha.

Me passou pela cabeça “Pra quê um calendário quando se tem uma vida sem perspectiva dessas?”. Sou escroto assim.

Mas depois, já longe do homem, me lembrei de um verso que o Vô João leu na virada de ano, que dizia: “Ensina-nos a contar nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios”.

O Tempo nos oprime o tempo todo. Quando se vê, já é sexta. Quando se vê, já acabou o fim de semana. Quando se vê, é Natal. Quando se vê, já se passaram 10 anos de quando você falou que iria mudar. Quando se vê, você está subindo uma rua e não tem fôlego pra isso.

Quando se vê, você cagou em tudo e o que sobrou é o hoje.

Que bom que sobrou alguma coisa. De hoje em hoje, é que se muda pra melhor ou pra pior. Planos a longo prazo são bússolas descalibradas, você só vê que navegou errado quando se está longe demais pra voltar. Mas é hoje que a decisão tem que ser tomada, pra que no próximo hoje você possa tomar mais uma decisão.

Um leão por dia, já diria Scar. Uma cruz por dia, já diria Jesus. Um Yakult por dia, já diria minha mãe (mais que isso, você morre).

Não sei mais daquele homem e seu calendário. Não sei porque ele sorriu, não sei quais leões ele tem enfrentado e quantos ele tem vencido todo dia. Espero que ele (e eu também) olhe pra cada dia como uma oportunidade nova, e pro futuro como nada mais que uma esperança, porque o que vai além disso é perca de tempo.

Só por hoje não se preocupe com amanhã. Basta a cada hoje o seu mal.

Fonte
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s