Baixa-Estima lá no Auto.

Outro dia estava rindo com uns amigos (diria que estava conversando, mas a gente mais riu do que conversou) e, pra variar, meu estado civil virou assunto. Daí uma amiga perguntou se eu tinha “problemas de auto-estima”. Por que eu não teria?

Eu apanhei, tomei choques, cusparadas e armlocks minha infância inteira. Caçula de quatro irmãos, eu me desdobrava pra suprir o desejo de judiação de todos eles. Eram muitas musiquinhas, cuecões, luz do banheiro apagando de repente, beliscões com os dedos do pé, etc. Bullying começa em casa.

Cresci ouvindo piadas de baiano e japonês ao mesmo tempo na escola; além das piadas de cunho geográfico, rolava um bullying pelo tamanho da minha cabeça e por causa da minha miopia; eu só portava a camisa 10 do time da escola porque eu usava a mesma camisa (enorme) do meu irmão (corte de gastos e a esperança de ser o Raí um dia); meu biotipo na infância, apesar de me dar agilidade pra fugir correndo dos valentões, não me ajudava muito quando uns três deles me cercava.

Eu já fui o pobre na escola de ricos e depois, na escola pública, fui desdenhado por acharem que eu era rico. Já fui o nerd demais pra ser amigo dos descolados e não nerd o bastante pra ser amigo dos nerds. Já perdi no braço-de-ferro pra uma garota. Já tomei fora de menina fácil. Já fui tachado de baitola na faculdade porque reclamei de uma coleção de Playboys jogada numa área comum da república. Já fui tachado de baitola porque não gosto de cerveja. Já fui tachado de baitola porque dispenso garotas quando não quero nada com elas.

Hoje vejo uma galera com 10 anos a menos que eu fazendo trabalhos melhores que os meus; vejo que a ciência avança menos que minhas entradas no cabelo; vejo que em um mês de inatividade eu perco os dois quilos de massa muscular que demorei três anos pra ganhar. Eu vejo meus amigos casando e tendo filhos, outros indo para o exterior, outros ficando milionários, outros ganhando prêmios. Eu vejo o Hulk na seleção do Brasil (como pode?).

Às vezes penso que esse meu jeito piadista não é só porque minha mãe conheceu meu pai num teste da A Praça é Nossa. Às vezes penso que isso é algum modo de defesa. Mas daí penso melhor e vejo que é isso mesmo. Aos 12 tive um professor de desenho que me aloprava o tempo todo, e no último dia dele na escola ele me disse uma daquelas coisas que muda a vida da gente: “Thales, eu só te encho o saco porque você se irrita. O dia em que você não ligar mais pra isso, perde a graça e ninguém mais te zoa”. Aprendi a lição, Fausto: hoje em dia eu sou o primeiro a praticar bullying comigo mesmo, que é pra não dar chance pros outros mesmo.

Voltando ao primeiro parágrafo, respondi à pergunta da minha amiga com um sonoro “Claro, ué!”.

Sei que existe gente com problemas e traumas muito mais sérios que os meus, porém eu me reservo o direito de ter problemas de auto-estima. Mas acontece que o meu problema geralmente é que acabo me superstimando. Sempre acho que se eu não estiver no comando das coisas, nada vai dar certo. Acabo abafando a capacidade dos outros e atropelando o que poderia rolar muito bem sem mim. Tenho um problema em encontrar substitutos pras tarefas que desempenho por acreditar que sou bom e que ninguém é eficiente o bastante pra ficar no meu lugar. Gosto de jogar no time mais fraco, que é pro time depender de mim, mesmo que perca (o que geralmente acontece). Acabo sendo crítico e exigente demais com o que espero de uma mulher pra mim, e acabo sozinho.

Vez ou outra eu preciso parar na frente do espelho e dar uma boa olhada em mim mesmo. Não pra me lembrar que sou magrelo, míope, fraco e que vou ficar careca aos 40. Mas para me lembrar que sou barro. Tão barro quanto qualquer outra pessoa. Tão ruim quanto qualquer outra pessoa. Tão imerecedor de graça quanto qualquer outra pessoa.

Assim eu me lembro que não faz sentido me sentir melhor que alguém. Não faz sentido me achar pior também. Ninguém é bom, no fim das contas.

Somos todos barro.

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