Nós

Quando eu tinha uns 11 anos meu irmão me levou pra uma atividade do grupo escoteiro que ele participava. Achei tudo muito demais: ficar correndo pra lá e pra cá, rolar na lama, aprender a resgatar feridos, escalar coisas, fazer fogueira, pontes, torres de observação e tudo mais. Pouco tempo depois eu comecei a me preparar pra fazer minha promessa escoteira.

Aprendi a história do escotismo, a usar cumprimento escoteiro da mão esquerda, e decorei com gosto que prometeria pela minha honra fazer o melhor possível para cumprir meus deveres com Deus e com minha Pátria, ajudar o próximo em qualquer situação e obedecer à Lei Escoteira. Só tinha um problema: tinha uma prova de nós.

Pra você entender um pouco esse meu drama com nós, eu demorei mais que as crianças normais pra conseguir amarrar meus cadarços do jeito certo: cerca de 22 anos. Aquela história de “o jacaré passou atrás da árvore, pulou no lago e saiu do outro lado dando um triplo mortal carpado” demorou pra amadurecer dentro de mim. Eu mandava logo um nó todo torto, dava outro por cima pra segurar, jogava as pontas pra dentro do tênis e tudo dava certo.

No Manual do Escoteiro havia umas dezenas de nós específicos pra cada situação e minha angústia era decorar míseros quatro deles pra mostrar pro Chefe que eu estava apto a usar aquela roupa de gosto discutível e aquele belo lenço laranja (que eu não faço mais ideia de onde foi parar). Escolhi os nós mais fáceis. Decorei mil vezes antes da prova, dei uma enrolada de leve na hora e, com uma leve camaradagem daquele senhor vestido de criança, passei na prova.

Nos acampamentos que se seguiram eu sempre me prestava a cortar bambu, buscar lenha, armar as barracas, mas fugia sempre das cordas. Invejava muito os outros escoteiros que davam nós que levavam trocentas etapas pra terminar, mas logo depois os odiava quando tinha que enfrentar algo em que eu era ainda pior do que em dar nós: desatar os nós.

Não sei se alguém da minha época vai ler isto daqui, mas se você um dia se perguntou “por que diabos alguém cortou essa corda boa sem razão alguma?”, a resposta é minha falta de habilidade e paciência em desatar nós.

Pra mim, qualquer nó que não se soltasse puxando uma das pontas, era nó cego e precisava ser cortado. Às vezes eu insistia por um tempo e achava que era só uma questão de puxar mais forte ou de forçar aqui ou ali, mas quando me dava conta, o nó estava ainda mais apertado e a corda já toda desfiada, por vezes irrecuperável.

Nós são assim. Nós somos assim.

Sempre que evocamos a primeira pessoa do plural numa frase, estabelecemos que existe uma relação entre pelo menos duas pessoas. Nós somos duas partes de uma corda, ligadas por meio de uma relação em que uma parte prende a outra. Uma relação, um nó, algo que nos une, que nos torna dependentes um do outro.

Às vezes essas relações são bem trabalhadas e harmoniosas. Uma parte sustenta a outra perfeitamente. Belos laços são expostos e, a qualquer momento, essa relação pode ser repensada, aprimorada, fortalecida sem que nenhuma das partes sofra dano algum. Pelo contrário, ambas se tornam mais laceadas, mais maduras, prontas pra aguentar a carga que for sem arrebentar.

Noutras vezes essa relação é inconsequente, feia. Uma parte começa a escorregar sobre a outra e achamos que é só uma questão de apertar mais um pouco aqui e ali. É só enrolar uma parte nela mesma, fazer uma volta e passar tudo por dentro. É só forçar mais, é só jogar um pouco de água pra travar tudo, é só jogar algum peso por cima e nada vai escapar. Quando se vê, nada daquilo faz mais sentido e é preciso soltar tudo para uma nova relação ser feita. Quando se vê, se está apertando mais o nó ruim. Quando se vê, as duas partes já estão desfiadas e não servem mais como cordas. Quando se vê, a faca é a última esperança pra acabar com isso tudo.

Quando se vê, não era uma relação, era um nó cego.

Minha mãe costuma ficar brava comigo toda vez que me vê com um saquinho plástico de qualquer coisa na mão. Sou daqueles que geralmente rasga o saco de pão ao invés de abri-lo da maneira certa, como um ser humano comum. Geralmente ela toma o pacote da minha mão e, com toda a calma do mundo, olha pro nó, mexe daqui, puxa de lá, e pronto: tá aberto.

Mas teve um dia em que o padeiro caprichou tanto no nó, que não tinha de onde mexer ou puxar. Eu, com fome, já fui rasgar o logo plástico, quando vi que o sangue japonês realmente corre nas veias da minha mãe: ela me aplicou um golpe de Judô.

Mentira. Ele nem sabe fazer essas coisas, graças a Deus.

Ela me repassou uma coisa que o pai dela, Sr. Sigestoshi Matsuoka (mais conhecido por Sr. Zé Japonês) a ensinou enquanto ainda era vivo, uma daquelas sabedorias que poderia ter vindo do Sr. Miyagi: “Pra soltar um nó que está difícil, você não o puxa. Você o chacoalha”.

Pensei que seria uma coisa extremamente besta e que só iria piorar o nó cego – e a minha fome. Mas não, deu muito certo. Conforme ela chacoalhou aquilo, espaços começaram a aparecer e, puxando daqui, mexendo de lá, o pacote de pão estava aberto e eu não precisei cortar e nem rasgar nada. E o pão foi o que menos me alimentou nessa hora.

Um dogma acabava pra mim naquele momento: não existe nó cego.

Não existe relação entre duas pessoas que não possa ser resolvida.

É tudo uma mera questão de chacoalhar um pouco. Enquanto os dois lados tentam resolver se enrolando e puxando, ignorando que este nó está fadado ao fracasso e que é preciso se soltar pra começar de novo, as coisas vão apenas piorar. Mas se algo vem e as chacoalha, tudo que foi ignorado balança junto. Tudo se desarma. Cria-se espaço pra se soltar, se repensar em um nó melhor, se repensar em um nós de verdade.

Jamais serei ingênuo de afirmar que tudo pode ser restaurado entre duas pessoas que tiveram problemas enquanto se relacionavam. O trauma às vezes é grande demais, tudo se desfia e as partes perdem a capacidade de sustentar qualquer outra relação tão forte quanto essa. Já em outros casos, a covardia e o medo de enfrentar o lento e difícil processo de desatar e arrumar o nó mal feito dão oportunidade para que lâminas cortem fora essa relação.

O que não percebemos é que a cada nó cortado, à cada relação descartada, um pedaço nosso fica preso ao outro. Um pedaço que nos diminui e que jamais teremos de volta. Aos poucos a nossa impaciência e soberba destroem nossa capacidade de se relacionar e nos condena à completa solidão.

Meu desejo é que, começando por mim, a gente aprenda a ser menos preguiçoso e soberbo. Que a gente enxergue que uma relação não se faz sozinho e que nela não existe um lado mais importante que o outro. Que a gente enxergue que, mesmo que estejamos desfiados, existe alguém pode nos trançar de novo. E que, mesmo cortados, um restinho de corda de cada lado basta para um novo nós surgir.

Não existe nó cego. Chacoalha aí pra ver.

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4 comentários sobre “Nós

    • Oi, Julliana!
      Que bom que se identificou. Ainda não entendo a dinâmica de pessoas caírem de repente nos meus textos e eles fazerem sentido para elas. hahaha
      Sempre que precisar de alguma opinião estranha beirando o absurdo, apareça por aqui. =)

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