Amor Limitado

Eu te amo.

Essa foi a frase mais falada na internet dos anos 00 passados. Eu achava curioso como a geração emo falava mais “eu te amo” do que “mãe, cadê minha chapinha?”. A frase estava por toda parte: no status do MSN (saudades, MSN…), nos comentários dos Flogs (tiraram o meu do ar…), nos scraps do Orkut (me add lá!), nos versos das capas de caderno, até mesmo escrito à caneta Bic na borda quase branca do All Star modinha da época. Mas, será que rolava todo esse amor mesmo?

Nessa época eu, que não nasci pra ser emo, comecei a entender o que significava a tal “banalização”. Ouvia muito disso sobre muitas coisas, mas ao ver o tanto de gente que jurava amor em caracteres especiais do Windows um pro outro e depois mal se cumprimentava na escola, entendi que o “eu te amo” era o novo “bom dia”: mais uma expressão formada de belas palavras e vazia de significado.

Não sei se depois da infância eu disse “eu te amo” pra mais de 3 pessoas. Devo ter falado pros meus pais, provavelmente por SMS ou email, e uma vez disse pra uma menina que não me amava e tal. Acontece. Enfim, eu cresci aprendendo a dar o devido valor pra algumas palavras e a ter medo de usar algumas outras. Basicamente eu era o fariseuzinho juvenil que prometia pra não jurar, afinal, é pecado jurar em nome de qualquer coisa; eu dizia que gostava demais disso ou daquilo pra não dizer que adorava, afinal, só devia adorar a Deus. (E eu trocava Deus por São Pedro em todas as piadas pra não usar o nome de Deus em vão. E até hoje nunca o usei em vão, porque realmente não sei como ele se chama.)

Com esse lance de amor eu faço igual até hoje. Geralmente eu digo que “gosto muito” ou “curto de coração”, mas não falo que amo. Não por acreditar toscamente que dizer que amo alguma pessoa específica é pecado ou viadice, mas porque eu entendo que existe uma responsabilidade muito grande por trás disso tudo. Amor é coisa séria. Juro.

Obviamente, eu amo muita gente. Pessoas próximas, pessoas longes, pessoas que mal conheço ou que nem conheço. Mas não acho que elas precisem ouvir aquelas três palavras pra saber isso de mim. Elas nem precisam saber que existo, na verdade. O que me dá medo de contar pra essas pessoas sobre tudo isso é o fato de que minha capacidade de amar é plenamente imperfeita e vai falhar numa hora ou outra. Se ninguém souber desse grande poder, vão esperar menos responsabilidade de mim. Peter Parker me entende, provavelmente.

Mas afinal, se aquilo que os emos fazem não é amar, o que é o amor, o amar e tudo mais? Se você que é dos gregos, vai encontrar várias palavras pra essa mesma coisa de modos diferentes. Se você é dos românticos, vai gostar de classificar o amor como um sentimento. Se é dos apaixonados, vai confundir com paixão. Já ouvi falar que o amor é um movimento, uma ação, uma decisão. Para o apóstolo Paulo, o amor é o que dá liga pra qualquer coisa que você faz. Camões dizia que o amor é o fogo que arde sem se ver. Renato Russo foi menos criativo e decidiu concordar com esse dois últimos caras. Numa das definições mais interessantes que já li, Paulo Brabo fala que o amor é um vírus, um desestabilizador de sistemas e o único poder deste mundo que não tem como cair em mãos erradas.

Todas essas visões são muito interessantes, mas não acho que nenhuma delas chegou perto de definir definitivamente o que é o amor. Uma vez li (numa legenda de um selfie de uma menina fútil qualquer pelo Facebook) que “quem se define, se limita”. Achei ela idiota, mas concordei. Há milênios a humanidade tenta definir o que é o amor, mas acaba por limita-lo, diminui-lo, sem nem chegar perto de entede-lo. E já que ninguém conseguiu a façanha de definir perfeitamente esse amor, eu vou fazer minha parte e limita-lo um pouco mais: pra mim, o amor é aquilo que limita.

“Mas o amor tudo pode, o amor nunca acaba, o amor é eterno”, esbravejarão alguns, e eu não vou discordar. Mas não vejo como amar qualquer coisa sem se limitar de alguma forma, sem colocar barreiras em si mesmo. O amor é o que te limita os olhos pra encontrar beleza apenas na mesma mulher todo dia, pro resto da vida. O amor é o que limita seu dinheiro do lanche na escola pra comprar um presente pra sua mãe. O amor é o que limita sua água e faz o outro também ter o que beber. O amor é o que te limita o sossego e te faz adotar uma criança. O amor é o que te limita o calor pra que outra pessoa não passe frio. O amor é o que te limita o senso crítico e te faz dizer que o desenho do seu filho está lindo, mesmo que seu filho se chame Romero Britto e você se torne responsável por todo esse caos brega que o mundo passa hoje.

O amor limita o espaço da sua casa. O amor limita seu cobertor. O amor limita o seu lucro. O amor limita seus planos. O amor limita sua alegria. O amor limita sua saúde. O amor limita sua gasolina, sua comida, sua roupa, seu tempo, seu físico, seu gosto por atum, seu lazer, sua energia, seu útero, seu Playstation, seu apetite, seu ombro, sua testosterona, seu cabelo. E se você diz “eu te amo” e não limitou nada da sua vida, você, no máximo, gosta muito, mas não ama. O amor, na sua infinidade de formas, te limita a liberdade e deixa o outro livre.

Nunca saberemos amar perfeitamente, afinal, seres imperfeitos tem essa limitação. Aliás, nunca saberemos aqui o que de fato é o amor. Qualquer definição de amor que façamos agora é um auto-retrato tendo como referência um espelho embaçado de vapor. Mas vai chegar o dia em que veremos o amor face a face, e vamos entender perfeitamente o grande mistério que é o próprio Amor, infinito, eterno e imortal, se limitar e morrer para que haja vida em gente morta e liberdade aos que não merecem.

Roberto Carlos que me perdoe, mas ele fica em segundo nesse negócio de ter o amor maior do mundo. Não existe amor maior que o Amor Ilimitado se limitar a morrer por quem ele ama.

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