Minha Camisa Amarela na Gaveta.

Nunca fui o tipo de pessoa que fica ansiosa pelo aniversário, nem pelo Natal ou Ano Novo e ultimamente torço pra entrar em coma no Dia dos Namorados. Mas se tem uma coisa que sempre me fez contar os dias pra chegar foi a Copa do Mundo. E o pior: ela só vem a cada quatro longos anos! É verdade que no meio do caminho sempre temos as Olimpíadas, Copa América, Copa das Confederações, Libertadores da América e Mundial de Curling pra nos distrair, mas a palavra “Copa” pra mim só remete a uma coisa: Copa do Mundo de Futebol (isso porque em casa a cozinha é separada da sala de jantar, então por aqui #NãoTemCopa mesmo).

Isso tudo tem muitos motivos. Eu, assim como 90% dos homens brasileiros, cresci chutando bolas, comemorando gols e colecionando luxações nos ossos do ofício. Minhas diversões na infância eram jogar 3 Dentro – 3 Fora no quintal, jogar FIFA 95 no Mega Drive e desenhar o Ronaldinho, ainda magro, no caderno de desenho. Me lembro até que na 3ª Série escrevi um redação onde o Romário fazia 3 “gois” e fui corrigido em caneta vermelha pela professora: “gols”. S do plural depois do L? Isso não faz sentido, mas quanto mais gols, melhor!

Em 1990 eu tinha apenas um ano e nenhuma noção do mundo, mas me lembro de algumas coisas da Copa de 1994, como ter falado pra minha mãe que queria mudar meu nome pra Cafu ou Muller, porque Thales não era nome de jogador de futebol. Lembro do Leonardo tomando um vermelho depois de dar uma cotovelada na cara de um americano, do Romário fazendo muitos gols e do Bebeto balançando um bebê invisível (quem balança um bebê desse jeito, meu Deus?!). Lembro também da minha mãe passando roupa, do Galvão Bueno esguelando a palavra “Tetra” e eu, sem entender muita coisa, pulava e sentia uma alegria nova! “Joga as birimbinhas lá da sacada, Thales!”, alguém disse. Eu joguei TODAS de uma vez e meus irmãos me olharam com um cara de Roberto Baggio por uns instantes. Agora com 5 anos já não tinha muito o que fazer: eu já me tornara apaixonado por futebol.

Em 1998, com 9 anos depois do segundo gol da França eu resolvi descansar um pouco de futebol jogando futebol com um amigo no quintal de casa. Com 13 anos e entendendo um pouco mais de futebol em 2002, acordei de madrugada pra ver os jogos e comemorei conscientemente a vitória sobre a Alemanha com gritos de “Chupa!” e “É Penta!”. Em 2006 tinha 17 anos e já estava na faculdade. Assisti muitos jogos, fiquei puto com a falta de vontade dos jogadores e chorei de rir ao assistir ao vivo o Vanucci bêbado falando que a África do Sul era logo ali. E era mesmo! O tempo passou tão rápido como a faculdade, 2010 estava lá, e com 21 anos e assisti com meus amigos da saudosa República Vucu-Vucu os jogos da Seleção. Lá pro terceiro jogo finalmente aprendi a usar a vuvuzela, mas aí chegou a Holanda e nos deixou na vontade. Mais 4 anos de espera. Mas seria a melhor espera de todas, porque a Copa seria aqui no Brasil!

Comemorei como um gol aos 45 do segundo tempo a escolha do Brasil como sede da Copa. Nunca acreditei muito no Lula, mas ele foi muito convincente quando disse que nenhum centavo de dinheiro público iria para estádios: a Copa seria a grande motivadora pra virarmos um país de primeiro mundo, com trem bala, aeroportos bons no país todo, internet de qualidade, TV digital em todo o Brasil e ingressos acessíveis a todos e com preços justos. A economia melhoraria, os investimentos externos viriam de baldada e ainda teríamos a chance de nos redimir do fiasco de 1950. Lembro de ter falado pra alguns amigos que minha meta pra 2014 era assistir pelo menos um jogo do Brasil na Copa. Nunca deveria ter acreditado no Lula…

O que vimos por aqui foi só safadeza. Qualquer 0,01 centavo de Real gasto em estádios já era mais do que o prometido: e foram bilhões de Reais. A maior parte das obras de metrô, trens e aeroportos ficaram só na conversa. A FIFA entrou no país e nos fez engolir leis absurdas. A inflação e a dívida pública sobem, minha internet cai e minha TV continua a mesma coisa. Nos entregaram ainda a bala sem o trem, mas era de borracha.

Teve gente despejada de casa pra dar lugar a obras da Copa. Teve construtora com lucros absurdos; Teve gente que apanhou da polícia por achar isso errado. Teve gente que negociou trégua com facções criminosas; Teve gente que foi proibida de vender os produtos que não fossem de patrocinadores da Copa. Teve gente que deixou a obra atrasar pra não precisar de licitações pra comprar superfaturado; Teve mendigo empurrado pra baixo do tapete. Teve ricaço ganhando ingressos que só ele poderia pagar; Teve operário morrendo porque as obras estavam atrasadas. Teve gente falando que Copa não se faz com hospitais.

Lá se foi minha ansiedade pela Copa, lá se foi minha esperança de viajar de São Paulo ao Rio em 4 horas, lá se foi minha admiração pelo Ronaldo e pelo babaca do Pelé, que sugeriu pararmos de reclamar e aproveitarmos a Copa pra recuperar o dinheiro roubado nessa zona toda.

A Copa do Mundo no Brasil foi uma ótima ideia com uma execução péssima e imoral. Se não houvesse tanta corrupção, tanto dinheiro jogado oficialmente no bolso de políticos safados, tanta ineficiência e burocracia nos processos e tanta vista grossa para empresas gigantes que exploram brasileiros e não pagam os impostos que devem ao país, poderíamos sim fazer a Copa do Mundo nos moldes que nos prometeram. E nesse cenário ideal, não teríamos gente pobre, nem esgoto a céu aberto, não teríamos meninas de 10 anos vendendo o corpo por droga, teríamos hospitais bons em toda cidade e, quem sabe, “Crackolândia” seria o nome de uma escolinha de futebol. É imoral investir 1 centavo num estádio quando se tem gente passando fome há menos de 1km dali.

Mais imoral ainda é saber que o Hexa seria usado como uma enorme propaganda política, beneficiando toda essa gente boa que nos desgoverna hoje.

A minha decepção com isso tudo foi tanta que eu cheguei a falar que queria ver o Itaquerão explodindo na abertura da Copa. Queria ver o Neymar se contundindo (juro que não foi macumba minha, gente), queria ver o fiasco em cada detalhe dessa Copa. Com a cabeça mais no lugar depois, me contive a torcer contra a Seleção em todos os jogos – isso, se eu os assistisse. A Copa do Mundo estava estragada pra mim. Minha paixão ao selecionado brasileiro estava tão destruída que eu cogitava sair pela rua buzinando caso a Argentina faturasse o troféu.

É 2014, tenho 25 anos e a Copa do Mundo já chegou às semi-finais. Antes da Copa eu escrevi um texto no Facebook falando do meu desgosto com isso tudo e o porque eu torceria contra a Seleção, torcendo assim a favor do Brasil como país. Nunca escrevi algo com tanto desgosto e me senti triste como poucas vezes me senti na vida. Alguma conta dentro de mim não fechava e resolvi assistir alguns jogos da Copa, só porque não tinha muito o que fazer mesmo. As manifestações falharam foram dos estádios, mas #Não_ia_ter_Copa pra mim: aquilo não passava de um monte de jogos de futebol sem sentido.

Assisti o primeiro jogo em casa, sozinho na sala, longe da festa do povo alienado. Comemorei o gol contra do Marcelo e torci pela Croácia o jogo todo. Assisti mais alguns jogos da primeira fase e achei lindo como os sulamericanos lotaram os estádios pra apoiar suas seleções. E como tinha europeu, norte-americano, africanos nos estádios! E teve ainda os japoneses cruzando o mundo pra nos dar um exemplo maravilhoso de como cuidar dos espaços públicos e do meio ambiente. Nenhum desses estrangeiros tinha culpa de nada que aconteceu por aqui. Eles tinham todo o direito de aproveitar a festa.

No segundo jogo fui intimado à casa do meu irmão. Levei minha máscara de Lucha Libre made in Cancún pra torcer pelo México. Num dado momento, meu sobrinho de 5 anos me chamou pra brincar com ele longe da TV e me perguntou o que era aquela máscara. Falei que era uma máscara mexicana e falei alguma coisa sobre torcer contra a Seleção porque essa Copa do Mundo trouxe coisas muito ruins a muita gente. Ele pareceu entender que muita gente sofreu, mas não conseguiu muito bem ligar uma coisa à outra. A alienação é uma dádiva, pensei. Mas vê-lo ali, vestido de verde e amarelo, feliz, com os mesmos 5 anos que eu em 1994 me fez voltar no tempo. Me fez lembrar de como eu me apaixonei por isso tudo e de como o futebol, na sua essência, não tem nada de mau.

Refleti muito e percebi que além de todas as vítimas que o Governo, a FIFA e a CBF fizeram, existia uma que eu não tinha percebido ainda: o próprio futebol. O futebol não era um cúmplice, a Seleção não era parceira nesses esquemas todos e o Neymar nem deve ter percebido toda a responsabilidade eleitoral que colocaram em cima das costas dele (sem piadinhas). O futebol e a Seleção foram apenas laranjas, meios que um tanto de gente má usou pra encher os próprios bolsos.

Veja bem: Um dia alguém descobriu o fogo. Milênios depois, Hitler decidiu queimar judeus com ele. Um dia alguém descobriu a pólvora. Um imbecil, há alguns anos atrás, resolveu entrar numa escola e matar um monte de crianças. Há quase 2000 anos atrás um tal de Jesus nos ofereceu salvação gratuita, e desde então pessoas tentam capitalizar em cima disso. Um dia Charles Miller resolveu ensinar um esporte maluco de chutar bolas a um bando de brasileiros, hoje um bando de aproveitadores resolveu usar isso como meio de explorar, de roubar e de controlar as pessoas. Perceba que as coisas boas continuam sendo boas, apesar do mau uso de algumas pessoas más.

Pensando nessas coisas, resolvi tirar do fundo da gaveta minha camisa amarela comprada em 2002 (ainda com 4 estrelas, porque gosto das coisas mais vintages mesmo) e voltar a torcer pela vitória dos meus patrícios, tão brasileiros como eu. Não porque eu aceito as injustiças, mas porque é injusto culpar quem não é culpado.

Mas você vai me dizer que, seguindo assim, estou aceitando todo esse “Pão e Circo”. Meu amigo, o pão e o circo são necessários. Como diriam os Titãs, a gente quer comida, mas também quer diversão e arte, justamente porque essas coisas são necessárias ao homem! A gente precisa de comida, mas também de Copas do Mundo, de shows de rock, de baladas sertanejas, de desenho animado, de livros, de Revista Caras, de cinema, de teatro, de seriados, de novelas e do Programa do Ratinho (não, a gente não precisa de BBB, isso já é ir longe demais).

O circo é necessário pra dar cor à vida, mas nem só de circo viverá o homem. Não há vida decente sem saúde, sem segurança, sem comida, água potável, educação de qualidade e paz. Temos que curtir o circo sim, mas precisamos denunciar e combater as injustiças. Temos que curtir o circo sim, mas precisamos abrir os olhos das pessoas para elas verem o quanto custou o picadeiro e que, além disso, tem muita gente rindo de barriga vazia.

A alienação deve ser combatida dos dois lados: tanto dos que não percebem que são explorados, como dos que se alienam de toda forma de alegria. Temos que encher os estádios e temos que exigir que toda injustiça das obras seja desfeita. Temos que gritar “gol!” e gritar pra acordar nosso irmão explorado. Temos que discutir escalações e esquemas táticos na mesma proporção que discutimos política e cidadania. Temos que lotar as ruas pra comemorar as vitórias dentro de campo e para denunciar os abusos e exigir o que justo. Temos que torcer pela recuperação do Neymar Júnior e nos indignar pelas mortes de Hanna Cristina e Charlys do Nascimento, vítimas do descaso no viaduto superfaturado que caiu em BH. Temos que torcer (contra a Argentina e) pelo Hexa da mesma maneira que temos que torcer e lutar por um governo justo e bom para todos os brasileiros.

Temos que nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram. Metade disso não resolve nada.

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