Na seca

Que atire a primeira pedra quem nunca colocou água no frasco de xampu porque se esqueceu de comprar outro. Mente quem diz que nunca esganou o tubo de pasta de dente quando estava no finzinho, ou quem nunca teve que se virar com resto do resto do desodorante por um ou dois dias. Assumo que já tive que colocar um par de meias usadas pra sair porque todas os outros estavam no cesto de roupa suja. Assumo também que quando o tanque do carro está cheio, dirijo sem medo de ser feliz, mas quando aquela luz do combustível acende eu oro por um mundo só com descidas.

As coisas acabam uma hora ou outra. E não pense que este é mais um daqueles textos em que eu vou metaforizar alguma coisa e falar de algo abstrato que também acaba uma hora ou outra (como a zoeira, que nunca acaba). Eu quero falar das coisas mesmo, mais especificamente quero falar da água.

Sempre assisti na TV com aquela surrealidade que só a distância nos permite aquelas imagens do sofrido povo africano, se arrastando atrás de lagoas sujas, procurando qualquer coisa que pingue pra matar a sede. Via também o sertão nordestino, com a terra rachada por falta de chuva e os bois morrendo de sede. Metade da minha família vem da Bahia e os mais velhos contam de como era andar longas pernadas com um jarro de água na cabeça. Talvez por isso eu sempre tive um certo respeito por este líquido vital. Mas toda essa história de dificuldade de se encontrar água era diluída quando ouvia a professora de geografia falar que o Brasil é o país com mais água do doce do mundo. Poxa, se Deus é brasileiro, eu tenho lá minhas dúvidas, mas deve ser aqui que ele coloca o canudinho quando está com sede.

Talvez por viver na famosa “terra em que se plantando, tudo dá”, eu tenha crescido mal acostumado. Confesso que fui daquelas crianças que davam descarga só pra ver a água girando, e que em boa parte da minha vida eu tive que abrir a torneira pra ouvir um barulho de água e conseguir fazer xixi. Confesso também que metade das vezes que lavei louça na vida, o fiz com a torneira aberta quase o tempo todo. E pior: confesso que boa parte dos textos deste blog foram pensados em momentos de reflexão sob o chuveiro.

Mas há um ano atrás eu entendi pela primeira vez a importância de se economizar água. E não foi por perceber os níveis dos reservatórios caindo. Foi porque eu esqueci a garrafa no carro mesmo. Estava numa viagem aventuresca com um amigo, íamos percorrer uma longa trilha e depois subir uma pedra de quase 2000 metros de altitude pra acampar lá em cima. Me lembro da gente montando as malas e separando um belo galão de água, mas no meio da trilha bateu uma sede e a gente percebeu que ele não estava mais entre nós. Não havia nenhuma fonte de água por perto e tivemos que nos virar com menos de 1 litro de água cada um. Se dava sede, a gente só molhava a garganta. Se precisava lavar as mãos, o fazíamos com gotas. Se machucar estava proibido.

Na manhã seguinte descemos lá do alto exaustos e um tanto desidratados. Bebemos toda a água necessária pra repor tudo que perdemos, mas percebi que alguma coisa eu tinha ganhado: consciência. Nos dias seguintes, já em casa, eu passei a olhar a água de outra maneira. Fechava o chuveiro pra me ensaboar, tomava banhos mais curtos, evitava lavar a louça (deixava pros outros lavar, assim EU não gastava água). Mesmo que timidamente, a experiência de privação de algo importante me fez entender o valor real que isso tem. É a velha história de que só damos valor para aquilo que perdemos.

Não deveria ser assim, mas não tem jeito melhor de aprender a valorizar algo do que ficar sem essa coisa. Há cerca de 10 anos atrás o nível da água desceu até bater na bunda de todo paulista quando uma forte estiagem secou de maneira inédita nossos reservatórios. Rolou um pouco de medo, um pouco de dança da chuva, mas a seca passou e respiramos aliviados enquanto lavávamos nossas calçadas. Mas dessa vez nem tem mais água pra bater na bunda. O Governo, desgovernado e desleixado que é, tenta invocar Moisés e tirar água da pedra. A população se vira com o que tem. Os motoristas de caminhão pipa andam escoltados. Os canais de TV reprisam Water World. Os cientistas dizem “Nós avisamos”. Os religiosos ansiosos dizem que é o fim dos tempos. (Os presbiterianos estão tranquilos em seus batismos, eita igreja sustentável, minha gente!)

A grande verdade é que todo mundo está ocupado demais em ficar desesperado e em apontar o dedo pro vizinho que ainda insiste em lavar o carro, que ninguém percebeu a enorme oportunidade que temos. Nós, povo mais aguado da face da Terra, temos a grande oportunidade de aprender a viver com menos. Nós recebemos a maior oportunidade de aprender a economizar, a reutilizar, a repensar nosso consumo. Temos a oportunidade de criarmos consciência sobre a necessidade de preservação do Meio Ambiente, das florestas, de jogarmos o lixo no lugar certo, de fazer xixi no banho e de fechar a torneira enquanto escovamos o dente. Podemos aprender a tomar banhos mais rápidos, a lavar o carro com balde, a varrer a calçada. E podemos pressionar nossos governantes a limparem nossos rios, a cortarem os desperdícios com vazamentos e a pararem de enxergar lucro na qualidade de vida da população.

Mais do que tudo isso, a gente tem em mãos uma enorme possibilidade de aprender a amar ao próximo. O desperdício e o descaso de uma pessoa afeta diretamente seu vizinho. Porém, pior do que isso, o desperdício e o descaso de nossa geração pode gerar escassez, doenças e guerras para as gerações seguintes.

Eu me entristeço com a dificuldade que estamos passando, mas sou grato, e muito, por cada gota de chuva que não caiu para nos fazer aprender a amar o próximo com cada gota de água ainda que temos.

(vale a pena assistir este clipe, tem tudo a ver com o assunto)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s