Meus Reveiõns de roupa preta

Reveilon. Reveillion. Revelion. Revieon. Reveião.

Virada de Ano.

Nunca soube escrever o nome gourmet desse evento anual no qual comemos umas uvas passas escondidos enquanto olhamos, famintos, a comida esfriar. O chester lá, todo convidativo, e você abraçando todos os seus novecentos e trinta e dois parentes. Alguns deles ainda vão te dar aquele abraço de verdade, te balançando pra lá e pra cá por dois minutos, e talvez até te molhar o ombro com meia dúzia de lágrimas sinceras.

Todo mundo espera com ansiedade pelo novo ano, repleto de oportunidades e novos desafios a serem vencidos. Eu geralmente espero pela chance de comer logo o chester.

Quando era mais novo eu sempre fui o chato dessas festas. Não que eu tenha mudado muito, mas eu realmente não gostava do Reveião. Via alguns parentes fazendo aquelas promessas vazias e mentirosas, via gente brigada chamando “trégua de dois dias” de perdão, via gente comendo lentilha (credo, troço ruim). Mas o que mais me irritava era ver gente de branco. Nossa, como eu ficava incomodado com essa superstição da roupa branca.

Menino-rebelde-problema que eu era, comecei a usar preto nos Reveileões lá pros 11 anos de idade (quando Bug do Milênio ainda metia medo nas pessoas). Ficava com meu discurso anti-superstição apontado pra cada parente que viesse falar sobre o mau agouro que a cor da minha camiseta (e calça, e meia, e cueca) traria. Quase ninguém falava nada, até porque eu geralmente dormia de fome no sofá às 22h e acordava às 24h achando que estava num bombardeio em Bagdá.

Mas uma coisa que eu não entendia até pouco tempo atrás é que o Reveion é necessário. E escolher uma cor de roupa pra essa ocasião não é tão absurdo assim.

A vida humana é uma vida totalmente pautada por rituais e suas roupas específicas. Nossas mães escolheram uma roupa específica pra sairmos da maternidade no colo delas, e 365 dias depois nos colocaram em alguma roupa totalmente desconfortável para nosso primeiro aniversário. Nosso primeiro dia na escola teve o uniforme mais bem passado de nossas vidas. Já nosso trote da faculdade acaba com a roupa tão suja que é bom nem mostrar pras mães. Nossa formatura teve aquela roupa de padre e aquele chapéu do Professor Tibúrcio. Pra casar, as mulheres usam o vestido mais caro lindo que conseguiram achar. Os homens, curiosamente, usam o mesmo traje com o qual serão enterrados.

Cada um desses rituais tem a necessidade de sinalizar para nós mesmos e para os outros o fim de uma etapa e o começo de uma nova. E pra simbologia destes rituais funcionar bem, aliamos comidas, bebidas, lugares, frases e roupas específicas que remetem a coisas realmente importantes, algumas que talvez já se tenham perdido nas velhas tradições. É nessa simbologia aí que entram as cores das roupas. Ok, deve existir gente que realmente acha que a Hering tem poderes sobrenaturais e capacita cada roupa amarela dela a te trazer dinheiro pelos próximos 365 dias (ou que uma lingerie vermelha vai te trazer amor, coisa que já testei e continuo solteiro pra provar meu ponto de vista cético das coisas), mas o que acontece de verdade na maioria dos casos não é isso. O se vestir de branco é nada mais que reconhecer e dizer que espera a paz como uma prioridade no próximo ano. Usar amarelo não traz dinheiro, mas te lembra nesse ritual que você tem que correr atrás das coisas se quiser ter uma vida financeira diferente. O vermelho é porque tá com fogo no rabo mesmo, não tem uma explicação bonitinha.

E é pensando nessas coisas todas que eu decidi usar preto nesse próximo Reveilion. Não, não é uma recaída em minha rebeldia adolescente, é simplesmente um desejo de morte para o próximo ano.

Nos próximos 365 dias eu desejo que morra todo ódio que senti no último ano, e o amor tenha mais espaço no meu dia a dia. Desejo que cada consequência dos meus erros morram e interrompam a inércia da minha maldade. Desejo que meus novos traumas e medos morram, e novos rumos se tornem livres para eu seguir. Desejo que minha dificuldade em perdoar algumas pessoas morra, e a reconciliação seja uma grata surpresa para todos. Desejo que meus dogmas morram e me permitam ver o mundo sob novas óticas. Desejo que meus vícios morram e meus olhos se abram para o que não consigo enxergar ainda. Desejo que minha falta de fé morra e a gratidão pelas surpresas de Deus venha mais naturalmente.

Desejo morte à preguiça, à procrastinação, ao desperdício e ao desespero. Desejo o velho eu cada vez mais morto, pra que assim eu viva em novidade de vida.

Para o próximo ano eu desejo que a mentira que eu vivo morra, e a Verdade não tenha mais que dividir quarto aqui dentro de mim.

Já diria o falecido poeta, “Eu prefiro morrer do que perder a vida”. E eu desejo isso pros nossos próximos 365 minutos, dias e anos: que a gente entenda que o único jeito de não perder a vida de verdade, é morrendo para tudo que é de mentira.

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3 comentários sobre “Meus Reveiõns de roupa preta

  1. Gostei mt do texto, me fez refletir sobre esses famigerados reveiaos! Cheguei aqui com 4 dias de atraso e nem sei como, mas gostei de vdd. 🙂

    • Hey, Tayná!
      Tô respondendo com 4 dias de atraso também (de propósito, claro). Não sei como chegou aqui, mas chegue sempre. Não prometo uma frequência lá muito frequente de textos, mas passe por aqui de vez em quando pra conferir.
      Ou me caça no facebook aí que eu te aviso quando tiver coisa nova. Abraço. =)

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