A história de Tuxukim

Quando eu era criança eu era muito babaca. Tá, ainda sou babaca, mas eu era mais babaca ainda.

Tudo me irritava, tudo me tirava do sério. Meu irmão mais velho, Fausto, sabia explorar muito bem esse meu lado. Não sei se ele fez um Telecurso 2000 de irritação ou apenas nasceu com esse dom, mas ele conseguia me irritar dos jeitos mais variados possíveis. Tinha a irritação clássica de fazer musiquinhas com o nome da menina que eu gostava (e a melhor delas era uma paródia com Inaraí, do Katinguelê, vai vendo…). Tinha a irritação dos apelidos, que sempre funcionava, já que eu sempre reclamava. Tinha aquela técnica de dar um soco, daí você revida com outro soco e ele fala “Ah é?! Vai me dar soco? Vai tomar 10 socos agora!”. Numa época ele ficava olhando pra mim e dobrando o dedo indicador. Não faço a mínima ideia do porque, mas isso me irritava. Aí eu dava um soco nele e ele me dava mais dez de volta.

Mas, depois de muito treino, ele desenvolveu a técnica definitiva: ele me deu o apelido de Tuxukim, compôs a canção “Tuxukim não gospe ni mim” (sim, desse jeito mesmo) e me perseguia pela casa, repetindo a música. Numa hora eu me irritava, porque era babaca, e guspia nele. Aí ele falava “Ah é?! Vai guspir ni mim?!” E guspia de volta. Na cara. E me dava 10 socos.

E recomeçava a canção.

Conforme cresci, aprendi a ser menos babaca, mas ainda me irritava com algumas coisas. Até que entrei numa aula de desenho e conheci um professor que me fez voltar a ser muito babaca. Para a minha surpresa, o nome dele era Fausto também. Ele fazia piadinhas comigo o tempo todo, me zuava na frente dos outros alunos e sempre tinha uma resposta genial que me fazia parecer um imbecil toda vez que eu tentava retrucar.

Numa dessas quarta-feiras no estúdio de pintura ele avisou que ia sair da escola e se mudar pra outra cidade, e nesse dia, em meio a um cigarro e outro, ele me ensinou uma das coisas mais incríveis na vida: “Thales, eu só te encho o saco porque você fica irritado. Se você não ligasse, não teria graça e eu já teria parado antes.”.

Porra.

Um mundo novo se abriu naquele momento e eu nunca mais me irritei com os apelidos de Tuxukim, Vietnamita, Cabeçudo, Preguinho, Quatro Zóios, Motoca, Crente da Bunda Quente, Barata na Perna, Irmão do Boka, Virjão, Simba, Chinês, Cabeleira, entre outros. Anos de bullying explicados e sanados em quinze segundos de conversa.

Infelizmente, muita gente ainda precisa aprender essa verdade libertadora. Nos últimos meses conversei com pelo menos meia dúzia de pessoas que ainda não aprenderam a arte de não se irritar, e a maioria delas tem tido esse problema com coisas muito mais sérias que apelidos, musiquinhas e guspe. Algumas delas se irritam com atitudes de pessoas da família, outras com o ambiente de trabalho e algumas delas com coisas que aconteceram há décadas atrás.

Não tenho a pretensão de ajudar essas pessoas aqui, afinal, psicólogos estão aí pra isso, mas quero compartilhar o meu jeito de confrontar as irritações nossas de cada dia.

Dividi em 4 etapas, todas começando com a mesma sílaba que é pra parecer livro de auto-ajuda mesmo:

Respirar – Se você não respirar, você não é um ser vivo. Começa por aí. Mas fora essa piada desnecessária, é necessário respirar fundo às vezes. Bem fundo. Fundo a ponto de se afogar de tanto ar e não conseguir cometer o erro de falar algo de cabeça quente. Já vi muita gente tomando as decisões mais imbecis e insustentáveis da vida porque não deram uma boa respirada antes de abrir a boca.

Como diria um velho sábio japonês, entrar numa luta já é perder a luta. Então, antes de responder, retrucar ou guspir no irmão, respire. Apenas respire.

Relevar – Eu sei, eu sei. Ela esqueceu tudo que você fez no passado e disse que você é um bosta. Ele falou que a comida da mãe é melhor que a sua. Ela falou que você é um bosta, de novo. Ele chamou sua mãe de coxinha, seu pai de risole e disse que comeu os dois. Ela não sabe brigar, tá chorando e te chamou de bostão, dessa vez.

Relevar não é fácil, minha gente. Mas até as ofensas ou atitudes mais absurdas, você pode simplesmente deixar pra lá.

Dar a outra face, que aquele rapaz judeu insistia em doutrinar, é justamente isso, relevar as agressões quantas vezes for necessário.

Como dizem no futebol de roça, se não saiu sangue, não é falta. Segue o jogo!

Reduzir – A validação para relevar as coisas leva a esta etapa. Muitas vezes, no calor do momento a gente expande coisas pequenas e, na cegueira da raiva, conclui coisas cada vez mais absurdas. “Ah, ela virou a cara pra mim ontem, e eu sei que isso é porque quando passou o reprise do último episódio de Kubanacan em 2004, no terceiro intervalo, eu comi a última pipoca do pote do meio, que estava, PASMEM, bem na frente dela!”. Aí você descobre que ela virou a cara porque pisou num chiclete e parou pra olhar pro pé.

Reduzir é procurar as reais intenções de cada ato. A maioria das brigas nascem de ações mal pensadas ou mal interpretadas, e não de ações maldosas. Se você reduzir as coisas, vai encontrar motivos genuínos, como carência, ignorância ou simplesmente falta de noção.

Resetar – A parte mais difícil de todas é essa. E ela é totalmente independente das outras, porque pode ser acionada mesmo quando você falhou em todo o resto. Resetar não é apenas desligar e ligar de novo. Resetar é uma atitude drástica e que tem a ver apenas consigo mesmo. Resetar é pegar uma caneta, apertar aquele botão escondido no Tamagotchi e recomeçar do zero. É arrancar à força da memória aquilo que já foi feito e traçar uma linha nova, daqui pra frente.

Resetar é perdoar genuinamente, é aquele perdão que descarta o que aconteceu e não vomita todo o passado de volta na primeira oportunidade que tem. É o 70 vezes 7 e é pra valer.

No fim de tudo, não é simples. E nem é divertido. Mas é libertador e protege de desgastes desnecessários o que é realmente necessário: se relacionar em amor uns com os outros.

Já diria o Menino do 8, “tá bom, mas não se irrite!”. E eu complemento: Você só se irrita com aquilo que você deixa te irritar.

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3 comentários sobre “A história de Tuxukim

  1. Melhor que muito psicologo. Thales, porque você não escreve um livro? Tipo de auto ajuda, contando suas histórias do passado e como fez para supera-las, acho que daria certo. Mas ficou muito bom o texto, parabéns!

    • Hahaha valeu, Isaac! Daqui uns 80 anos talvez eu junte tudo num livro. Talvez não existam mais livros lá, mas aí a gente vê o que faz.
      E importante: textos e amigos não fazem o q psicólogos fazem!
      =)

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