Minha decisão, não sei por quê.

Quando se fica tanto tempo encalhado solteiro, se tem muito tempo pra analisar as coisas. E analisar o mundo é um dos meus passatempos favoritos. Gosto muito de ficar olhando pra onde as nuvens vem e vão, de reparar como cada dia do verão fica mais longo e como em fevereiro o sol começa a se pôr mais cedo. Gosto de analisar as formigas desmembrando outros insetos maiores. Gosto de ficar analisando as pessoas na rua, imaginando o porque são assim, como vieram parar aqui e imaginar que tipo de trauma na infância as fizeram ouvir funk sem fone de ouvido.

Mas uma das coisas que mais me prendi a observar desde a adolescência são os casais. Não por inveja, carência ou algo do tipo, mas porque sempre achei curioso como pessoas que nasceram em lugares diferentes, em anos diferentes (às vezes épocas diferentes) acabam se juntando e resolvendo viver juntas, às vezes pra sempre. E crescendo neste mundo onde a vida tenta imitar a arte o tempo todo, a gente acaba se deixando levar por tanta besteira que fica difícil separar o que é Conto de Fadas do que é Vida.

Meninos crescem aprendendo que devem ser charmosos príncipes, ou no mínimo lenhadores muito habilidosos para merecer a mão de meninas que crescem aprendendo a esperar nas torres de seus castelos imaginários pelo cara que vai matar um dragão que elas mesmas criaram pra se defender do medo de se envolver de verdade com alguém. A gente cresce ouvindo o Fábio Júnior cantando sobre “a metade da laranja, dois amantes, dois irmãos” (que isso, Fabião?!) e outras fábulas de coisas que são até bonitas, mas que logo a gente percebe que não são bem assim.

Eu mesmo, até alguns anos atrás achava que Deus, num dia sem muito o que fazer, resolveu que o Rapaz A era predestinado à Moça A, o Rapaz B pra Moça B e por aí vai. Aquela velha história da tampa e das panelas. E passei até a achar que eu era uma frigideira nessa história toda. Mas se um dia o Rapaz A resolveu se casar com a Moça B e o Rapaz B estava interessado no Rapaz L, o rolê todo já foi por água a baixo. O mundo da Disney (do qual eu só curtia mesmo O Rei Leão, é claro) parou de fazer sentido aí. A vida real começou a bater à porta.

Num dia desses, de ócio criativo e provavelmente debaixo do chuveiro gastando mais água do que deveria, eu me propus a entender o porque as pessoas escolhiam umas e não outras diante dessa realidade de que não existem almas gêmeas, e de que maneira isso seria quantificável, já que pra mim o Universo todo pode ser mensurado de alguma maneira.

Criei uma teoria mirabolante e que, de fato, faz muito sentido. Imaginei que existe um sistema de pontos onde você analisa fatores etários, ambientais, estéticos/físicos, geográficos, econômicos e de personalidade/interesses, dá pesos diferentes para cada um desses fatores segundo suas prioridades, encontra uma nota de 0 a 10 e a confronta com sua nota de corte para cada situação: talvez para dar uns beijos numa festa; talvez sexo casual; talvez para namoro sem compromisso real; ou até mesmo para ficar a vida inteira juntos.

É tudo muito frio, mas no fim das contas, dentro da gente talvez seja assim mesmo. Um cálculo, racional em todos os sentidos da palavra, uma decisão fria e pensada sobre fatores quantificáveis, escondida por trás de palavras bonitas ou xavecos baratos.

Eu tinha certeza de toda essa minha teoria até ser confrontado com a seguinte pergunta: “Você acha que gostar de alguém é 100% decisão?”.

Não tenho dúvidas de que pessoas que decidem usar outras pessoas, mesmo que de maneira consensual, se deixam levar apenas por aqueles seis fatores de que falei anteriormente, e o fazem muitas vezes por questão de honra, de status, interesses egoístas e mais uns cinco baldes de más intenções. Mas isso não é gostar de alguém, é gostar de si próprio e usar alguém. Tem que haver algo mais do que apenas a matemática literal e sua média ponderada nisso tudo. Aquela pergunta me fez repensar toda a minha teoria.

Tudo que escrevo daqui pra frente não é bem pensado. Estou chutando um monte de coisas e talvez esteja redondamente errado em tudo.

Acredito hoje que gostar de alguém é 99% decisão. E que 99% não é uma coisa, é quase uma coisa. Não duvido que aqueles fatores frios sejam estes 99% da coisa toda, e de que muita gente se contenta e se precipita em arredondar tudo para 100% e viver uma vida 99% feliz junto com outra pessoa.

Acredito que ao longo da vida somos apresentados a tantas pessoas que preenchem estes 99%, às vezes várias de uma só vez, e que ficamos frustrados porque percebemos que alguma coisa falta para preencher o todo. Às vezes insistimos e mentimos pra nós mesmos por um tempo, mas este 1% faz toda a diferença. E eu acredito que, por mais clichê que isso soe, o 1% que falta é o que chamamos de Coração. E eu não faço a mínima ideia de como explicar isso. Mas sei que você me entende, e se não, espero que me entenda um dia.

Não digo que esse 1% é pensado e não quero romantizar muito essa ideia já tão mal resolvida do Coração. O que sei é que, sem saber porque, o Coração sabe muito mais da gente do que nós mesmos.

É o Coração que se acelera quando pensamos na pessoa, ou quando a vemos de longe, chegando devagarzinho e nem nos notando. É o Coração que se acalma quando se está junto, ou quando a pessoa diz que vai ficar tudo bem quando você acha que alguma coisa já não tem volta. É o Coração que palpita estranho e se aperta quando a pessoa está longe, ou quando as coisas saem do seu controle e você não sabe como consertar algo que fez de errado pra essa pessoa. É o Coração que bate forte demais e não te deixa dormir quando você se deita e sente o perfume da pessoa ainda na sua mão (ou o cheiro da pipoca depois de uma noite de filme, o que é meio frustrante).

É o Coração que bate numa frequência descompassada quando se aproxima do outro Coração, mas que num abraço sincero as notas se encaixam e todo aquele aparente descompasso vira música.

Eu já aposentei minhas certezas e não sei bem o que pensar sobre essas coisas todas. Tudo que eu sei é que o Coração, não sei por quê, bate feliz. E que talvez seja melhor raciocinar menos e parar pra escutar a felicidade dele.

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