Siga bem, caminhoneiro!

Quando eu estava na oitava série não me preocupava muito com o futuro. Alguém se preocupa com o futuro na oitava série? Acho que não também. Mas me lembro que numa noite qualquer eu folheei um daqueles Guias do Estudante da Abril de um dos meus irmãos que estava na fase do vestibular e fiquei ali vendo o nome dos cursos, quantas estrelinhas cada um tinha e pensando no que eu queria ser quando crescesse. Eu sabia que era razoavelmente bom em desenhar e gostaria de encontrar alguma profissão em que pudesse usar essa praga esse dom.

Arquitetura? Nah, ficar desenhando casa e usando régua é chato. Artes Plásticas? Vixi, odeio tinta, melhor não. Então um irmão meu me disse sobre Desenho Industrial. Pensei o que todos pensam: “Ficar desenhando parafuso e peça de máquina? Tem algo mais entediante que isso?!”. Mesmo assim fui ler a respeito e quatro anos mais tarde lá estava eu de cabelo raspado indo para as aulas de Desenho Industrial (que não tem nada a ver com peças de máquinas ou parafusos, acredite em mim).

Mas conforme o curso foi passando eu não podia fingir não ouvir as conversas dos veteranos sobre o quanto era difícil arranjar trabalho e o quão mal se recebia nas empresas. Vi muita gente largando o curso, outros prestando concurso pra trabalhar de caixa em bancos e até descobri que um veterano trabalhava de drag queen em boates à noite (sério isso). Me bateu um desespero: eu não conseguiria passar num vestibular de novo, eu não suportaria trabalhar num banco e minhas pernas eram peludas demais pra virar drag (não que essa fosse uma possibilidade real, mas minhas pernas são realmente peludas).

Na época eu era estagiário em um estúdio que estava passando por uma fase de vacas bem magras, beirando a anorexia mesmo. Via meus chefes preocupados com os clientes que estavam sumindo, as contas que não paravam de chegar e os trabalhos cada vez mais escassos. Numa tarde dessas eu estava sozinho com um dos chefes na sala do estúdio e contei pra ele que estava preocupado com essa profissão que escolhi, que estava com medo de fracassar e não ter grana pra sustentar uma família ou algo assim. Me lembro que ele parou, olhou bem nos meus olhos (dava uma certa aflição, ele realmente não sabia conversar sem olhar pros seus olhos o tempo todo) e disse algo que fez todo o sentido e me acalmou de uma maneira tal que nenhuma crise posterior durante a faculdade me abalou mais.

Sei, vai soar patético da minha parte, mas eu não me lembro o que ele disse. Não mesmo, me desculpe.

Mas o importante naquele momento não foram as palavras que ele usou ou olhar constante e  constrangedor direto nos olhos, mas foi perceber que não era apenas ele dizendo ali naquele momento, que, de alguma forma absurda, Deus respondia minhas orações através daquele cara que, até onde eu sabia, nem cristão era. Por trás das palavras que eu ouvi e não me lembro o que eram, percebi Deus dizendo “Calma, Thales. Eu estou cuidando de tudo, confie um pouco mais em mim”.

E eu tenho tentado confiar. Mas tem hora que é foda.

Desculpe se seus olhos são sensíveis a palavrões, mas “difícil”, “tenso”, “ruim” ou outros sinônimos são apenas eufemismos quando a coisa realmente tá foda.

Você sabe do que eu estou falando: Quando a situação aperta, quando a pressão está insuportável, quando as dificuldades te cercam e parecem querer sugar sua alma, quando você está tão sufocado que quer colocar um maldito anel no dedo e ficar invisível a todos ao redor (mesmo que o Olho de Sauron te veja, o que não é muito bom). Quando nada faz sentido e tudo te sufoca até a sua fé começar a naufragar.

O que acontece é que nós somos seres imperfeitos e fingimos que sim, mas não vemos nada há um palmo de nossos narizes. Essa limitação nos cria uma ansiedade e nos faz querer tudo agora, tudo pronto e tudo certo. O imediatismo tenta nos convencer de que o que não está certo, pronto e disponível não serve e deve ser trocado por algo que nos faça feliz já. Nós pedimos a vida num fast-food, postamos uma foto no Instagram e devoramos tudo sem nem sentir o gosto do que passou por nossas bocas. Queremos tudo fácil, queremos tudo fútil, queremos tudo inútil.

A verdade é que nós temos medo da dor, da doença e da frustração. Não porque elas nos fazem mal, mas porque nós não queremos ser confrontados por elas, e porque esta confrontação nos mostra o quanto temos errado e o quanto ainda precisamos aprender com mais dores, doenças e frustrações. Pare pra pensar: ninguém tem medo de errar, ninguém tem medo de falhar ou estar completamente enganado. Nunca vi um jogador de futebol chegar no treino e não querer bater um pênalti com medo de errar, ou um pianista não tocar o piano sozinho em casa com vergonha de ouvir a si mesmo errar uma nota ou outra.

O medo não aparece nessas coisas. O medo aparece quando pode doer. O medo aparece quando pode matar. O medo aparece quando as frustrações podem te corroer, quando podem zombar de você ou pior, quando você mesmo pode achar que é um total fracasso.

Como poderemos aguentar tamanha dor? Como poderemos sobreviver? Como poderemos viver com tamanha vergonha? E tudo isso se soma ao não saber o que comeremos, o que beberemos, com o que nos vestiremos, o que dirigiremos, onde moraremos, com o que nos sustentaremos, com quem nos casaremos, no que trabalharemos e outras questões que jamais responderemos. Não agora. Não assim.

Nos últimos dias me perguntei isso tudo e um pouco mais. Tava foda. E continuo sem resposta nenhuma, na verdade. Continuo com os mesmos medos. Mas, assim como Deus um dia usou meu chefe pra falar comigo, hoje ele resolveu usar um parachoque de caminhão. Um caminhão mesmo, pequeno, velho, enferrujado, com pneu furado, estacionado torto e na contramão da esquina de casa. Já está largado ali há umas duas semanas.

Depois de alguns dias muito doente, confuso e frustrado eu saí do Netflix, fui lá pra fora e vi que, independente de tudo que eu li e conversei com diversas pessoas, Deus queria mesmo era usar o parachoque daquele caminhão pra falar comigo em quatro palavras tortas e mal pintadas “Deus cuida de nós”.

Eu sempre soube disso, mas eu precisava saber de novo.

Eu tenho medo de ficar de novo com tanta febre e dor como nesses dias, mas eu sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que meus planos todos vão por água a baixo, mas sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que coisas que me doem hoje talvez nunca realmente parem de doer, mas ei, Deus cuida de nós.

Ele cuida de nós mesmo que a gente esteja parado. Mesmo que a gente esteja enferrujado. Mesmo que a gente esteja torto, com o pneu furado e na contramão, ele continua cuidando de nós.

Toda a dúvida, todo o medo, toda dificuldade realmente não tem porque ter espaço por aqui quando me deparo à incrível verdade de que o ser que fez e comanda todo o Universo realmente se interessa por cada crise tonta que eu passo. E mais do que isso: ele resolve cuidar dela ainda.

O que eu desejo para nós é que a gente saiba aprender. As dificuldades doem, nos abalam e roubam nossa paz, mas cada dia trará sua própria dificuldade, e cada dificuldade será uma oportunidade de aprender algo novo e de reafirmar que, não importa como estamos, Deus cuida de nós.

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2 comentários sobre “Siga bem, caminhoneiro!

  1. Nossa, como me identifiquei. A parte do “Mesmo que a gente esteja enferrujado. Mesmo que a gente esteja torto, com o pneu furado e na contramão, ele continua cuidando de nós” me descreveu. Continue escrevendo. Percebi que faz um tempo que não posta nada. Deixa Deus continuar te usando. Deus o abençoe

    • Olá, Marcia!
      Se identificar com isso é um bom sinal: os que não o fazem geralmente tão mentindo! 😉
      E sim, faz um tempinho que não posto nada. O tempo tá voando e não tô conseguindo acompanhar como queria haha.
      Mas prometo que vou tentar voltar a escrever mais.
      Grande abraço!

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