O que os olhos não veem e o que as agulhas não mentem

“O que os olhos não veem o coração não sente”. Ok, talvez o coração não sinta, mas a dor aparece em qualquer outra parte do corpo você olhando ou não.

Aprendi quando era criança que o ferro de passar realmente é quente num dia em que não vi que estava com o braço encostado num ferro ligado. Só reparei que havia algo de errado quando fiquei confuso ao sentir cheiro de churrasco e uma dor absurda no braço ao mesmo tempo (o churrasco era meu braço, pra quem não entendeu). Repeti a mesma burrada depois com fornos e escapamentos de motos. Meus olhos não viram, mas minha pele sentiu, assim como minha cabeça sentiu quando meus olhos não viram que minha cabeça iria bater numa barra de ferro pontiaguda, ou como quando meus olhos não viram o estilete vindo na direção do meu dedo.

Boa parte das coisas que mais doem acontecem quando a gente não está vendo, justamente porque se a gente visse, desviaria pra não doer. Ninguém gosta de sentir dor (salvo essa galera curtidora do 50 Tons de Cinza lifestyle).

Dor não é legal. Dor geralmente dói.

Quando eu fiz 14 anos eu sofri por antecipação ao pensar que deveria tomar aquela vacina dos 15 anos. Antitetânica, doeu aos 5, doeu aos 10, vai doer aos quinze. As pessoas normais não gostam de tomar injeções, mas eu gosto tanto que enrolei um pouquinho e só fui tomar a dos 15 anos quando meu irmão me arrastou pro posto de saúde aos 17. Vale colocar aqui que o Bruno, o irmão em questão, foi a criança que mais chorava nas filas de vacinação. E como eu estava destreinado e vergonhosamente tremendo de medo quando a enfermeira começou a abrir a embalagem da agulha na minha frente, ele me deu a seguinte dica: “dá muita aflição ficar olhando, não olha pra agulha que é melhor”.

A moça veio, passou o algodão com álcool no meu braço e eu virei o rosto pro outro lado esperando a morte vir me buscar. Não morri, mas doeu de qualquer maneira. Será que doeria menos mesmo sem olhar?

Depois dessa vacina eu encarei muitas outras agulhas: vacina de gripe, anestésico, sedativo, o temido Benzetacil algumas vezes, tirei sangue, doei sangue e tomei inacabáveis 40 vacinas num tratamento de rinite alérgica. Não me lembro bem em qual dessas agulhadas eu resolvi ser macho e encarar a agulha perfurando minha pele, mas daí em diante eu aprendi que a dor não muda você vendo ou não.

Anos depois de ir ao postinho com meu irmão, eu o acompanhei até uma clínica veterinária para um dos piores momentos de nossas vidas. Ainda quero escrever direito sobre isso tudo, mas era um fim de tarde chuvoso e nossa cachorra de 15 anos, Sharon, estava ali para sua última tarde chuvosa. O veterinário conversou conosco, a examinou uma última vez apenas para se certificar, explicou todo o procedimento, nos deu um documento para assinar e a colocou deitada na maca. Era o momento de encarar as injeções, e meu irmão e eu estávamos ali encarando as seringas mais tensos e apreensivos do que nunca.

A primeira agulha foi uma intravenosa (e as veias dela não estavam colaborando, o veterinário teve que espetar a coitada mil vezes até conseguir achar uma que fluísse bem). Ela não esboçou muita reação e o sedativo que ele aplicou talvez foi só pra nós mesmo. Ele disse então que agora seriam as injeções com a coisa que faz parar o coração do cachorro.

Pegou a seringa na mão, o Bruno se debruçou na maca pra não olhar e eu resolvi que queria ver tudo. Conforme a agulha perfurava a mangueira da intravenosa, conforme o êmbolo ia deslizando lentamente e o líquido ia entrando nela, aquilo doía em mim e no meu irmão. Ainda foi preciso repetir esse processo com mais uma dose até a gente sentir o coração dela lentamente parando, mas enquanto isso os nossos estavam batendo todo tortos naquele momento. Não precisava ver para sentir, não precisava nem ser espetado para sentir. O que uns olhos viram, o que outros olhos não viram, o coração sentiu tudo.

Desviar os olhos da dor não diminui ela, assim como olhar também não diminui. A dor não é tímida e nem exibicionista assim. Ela simplesmente vem por uma razão e quer que a gente a entenda, centímetro por centímetro. Não quero entrar no mérito do que causa a dor, se é o pecado, se é provação, se é castigo ou falta de sorte, quem sabe. Seja qual for a causa, a dor quer causar algo em você. A dor causa aprendizado e é bom você não desperdiçar a chance de aprender algo com ela, porque ela pode querer voltar pra te ensinar de novo, e de maneira um pouco mais dolorosa, talvez.

Quem sabe você tenha que aprender a ficar longe do ferro de passar. Quem sabe você tenha que aprender a descer do lado certo da moto ou a não se apoiar no forno enquanto alguém assa um bolo. Quem sabe você tenha que aprender a olhar pra cima antes de levantar. Quem sabe você tenha que aprender a não tentar enganar as pessoas, quem sabe você tenha que aprender a martelar com mais calma, quem sabe você tenha que aprender a não se deixar iludir, quem sabe você tenha que aprender a valorizar as pessoas enquanto dá tempo, quem sabe você tenha que aprender a perder, quem sabe você tenha que ouvir o que Deus tem gritado dentro de você há muito tempo.

É preciso saber reconhecer a voz e o valor da dor e, mesmo em meio a lágrimas, sorrir de gratidão.

Cada dor é uma chance de aprender alguma coisa e cada cicatriz que ela deixa tem que ser encarada como um lembrete, não um trauma. Os traumas nos lembram apenas de como as coisas doem, mas as cicatrizes nos lembram de como sobrevivemos a mais uma dor.

O que é melhor, então: virar a cara ou olhar para a agulha? Tanto faz, a dor virá da mesma maneira, forte ou fraca, lenta ou rápida, da maneira que ela precisa vir, da maneira que você precisa sentir, ensinando o que você precisa aprender.

Não depende da nossa vontade, mas que o Pai afaste de nós estes cálices de vinho tinto de sangue tão quanto for possível. E que tenhamos fé e coragem para lembrar que a dor morre sempre antes de nós.

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Um comentário sobre “O que os olhos não veem e o que as agulhas não mentem

  1. Oque os olhos não ve mas o coração sente muito.Assim aconteceu neste dia de luto .Tema que escrevi ..Estamos em luto .Hoje nossa Sharon se despediu, um olhar triste se despedia enquanto eu lhe dava água na mamadeira, não tinhamos o que fazer, só aliviar seu sofrimento, que se estendia por dias .Então tomamos a mais difícil tarefa de deixá-lo ir, muito dolorosa,mas necessária.Tantas alegrias ela nos trouxe, porisso tínhamos, que retribuir à ela. Sofri mais ao ver meus filhos sofrendo calados a terrível decisão de deixá-lo ir.O que nos conforta é saber que ela não sofreria mais e assim nós também ficamos em paz, sabendo que foi melhor assim .Desabafo de uma mãe que ainda chora ao ver seus filhos tristes e sem saber se pode ajudá-los .te amo meu amor.e estarei aqui sempre que precisar.

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