Além de Silent Hill

Do Atari aos Playstations da vida eu sempre gastei muitas das minhas horas livres (e muitas das não livres também) imerso em algum jogo de videogame. Geralmente jogava alguma coisa de futebol ou atropelava alguma coisa no GTA, mas gostava basicamente de qualquer coisa. Porém um dos poucos gêneros do qual nunca fui muito fã era o de terror. Eu poderia dizer que, sei lá, nunca me pareceu muito legal esse negócio de monstros, fantasmas e zumbis, mas eu assumo: morria de medo de jogar essas coisas. Tomar susto não é uma coisa na qual eu sinto prazer na vida.

E tinha esse jogo medonho no Playstation 1 chamado Silent Hill. A história era a de um homem que viajava com sua filha e acaba capotando o carro na estrada de uma cidadezinha chamada Silent Hill ao tentar desviar de uma garotinha misteriosa parada no meio da pista. Quando ele recupera a consciência, sua filha havia desaparecido e ele passa a procurar por ela nessa cidade deserta tomada por criaturas estranhas, rituais de sacrifício ao capiroto e outros eventos macabros. A cada meio metro do jogo você trombava com alguma dessas criaturas saídas do inferno tentando te matar sem razão aparente. Na terceira esquina de Silent Hill eu desisti, entreguei o controle pro meu irmão e fiquei ali assistindo e torcendo por um final feliz (não é feliz o final, sinto muito).

Mas o que mais me causava pânico no jogo não eram os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e a morte chegando: era que você não via os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e quando menos você esperava, a morte já tinha chegado e você nem viu de onde. Tudo isso porque a cidade toda era tomada por uma neblina maldita que não te permitia ver da onde essas desgraças saíam. Veja bem, uma coisa é você lidar com monstros vindo na sua direção. Você corre pro canto, muda de arma e se prepara devidamente pra treta. Outra coisa é você andar meio metro e o bichão já chega te encoxando sem nem perguntar seu nome. Tá errado isso.

Mesmo tendo jogado menos de 5 minutos do jogo, no mundo real não consigo passar de carro por um trecho com neblina sem pensar que a qualquer momento uma menina vai aparecer parada no meio da estrada e eu vou acordar todo quebrado fugindo de monstros que cobiçam meu corpinho. E apesar de achar a neblina um dos fenômenos naturais mais loucos e bonitos, sei que ela é também um dos mais perigosos. Não por monstros ou coisas assim, mas ouço diversos casos de acidentes de trânsito causados pela falta de visibilidade, e eu mesmo já senti medo por dirigir em alguns trechos onde não fazia a mínima ideia do que vinha pela frente e sabia que não poderia parar porque quem viesse atrás não me enxergaria parado ali também. A sensação de impotência de não saber o que vem pela frente é uma das piores que podemos sentir dirigindo.

É também uma das piores que podemos sentir na vida.

Existem momentos em que sabemos perfeitamente pra onde estamos indo, conseguimos ver tudo o que vem se aproximando e temos tempo e calma pra tomar todas as boas decisões do mundo. Mas você anda mais 10 quilômetros pela longa estrada da vida e se depara com aquela coisa branca, fria e esfumaçada tomando toda a pista. Mais 500 metros adentro e já não se vê muito mais pra onde vai ou o que vem. Você tinha feito planos para a carreira daqui há 10 anos, você tinha feito planos de quantos filhos queria ter, você tinha feito planos de quais árvores iria plantar no quintal, onde iria passar o próximo Natal, que filme iria ver no fim de semana e o que iria almoçar amanhã. Mas agora você mal vê um palmo à frente e seu plano atual é simplesmente sobreviver.

Quando não se vê mais nada além de uma enorme indefinição fica difícil definir qualquer coisa para a vida.

Na minha infância, quando o dia amanhecia branco e gelado com aquela neblina cobrindo a rua eu já desanimava pensando no frio que faria no resto do dia. Eu era totalmente desfavorável ao frio, talvez porque quando estava frio eu não podia brincar no quintal. Mas depois de um tempo eu aprendi como a neblina funciona e percebi que ela não é tão má assim. Ao contrário das manhãs cinzas e de garoa fina que significam um resto de dia cinza, frio e de garoa fina, um dia que amanhece branco e tomado por neblina significa um resto de manhã e tarde ensolarados com céu azul. Sim, repare bem: quando amanhecer com neblina, o tempo vai abrir em poucas horas. (Não sei se isso se aplica a Londres e Gotham City.)

Passei então anos sabendo que a neblina era um prenúncio de um dia de sol, passei anos acordando sem conseguir ver o outro lado da rua e curtindo o céu com o azul mais bonito que existe horas depois, mas só me dei conta do quão verdade é isso depois de acampar há quase 2000 quilômetros de altitude. Estava na Pedra do Baú, um dos pontos mais altos do Estado de São Paulo e acordei de madrugada para poder apreciar o Sol nascendo lá de cima. Aos poucos o Sol foi aparecendo e o céu foi clareando lentamente, limpo, praticamente sem nuvens. Mas quando olhei pra baixo, a cidadezinha que ficava na beira do morro estava encoberta por uma densa neblina, como se alguém tivesse derramado um balde de gelo seco sobre a cidade.

Por um momento eu me esqueci do Sol nascendo e fiquei pensando o quão louco era olhar aquela neblina toda por cima. Fiquei pensando nas crianças acordando naquele feriado e se lamentando por acharem que não poderiam brincar no quintal. Fiquei pensando nos motoristas dirigindo a dez por hora com medo do que não viam. Fiquei pensando em como nos desesperamos facilmente quando não sabemos o que tem pela frente.

Eu sei o quão ruim é passar por momentos em que a gente não entende o que está acontecendo e que nada faz sentido. Todo mundo sabe como é. E mesmo com farol de neblina, farol de milha, farofa de milho, qualquer coisa, de dentro da neblina não se pode ver nada além daquilo que a própria neblina nos permite ver. Você não sabe bem pra onde está indo, mas sabe que ficar parado é ainda mais perigoso, então o medo da indefinição toma todo o seu foco. E é bom que o medo surja, porque você precisa dele para sobreviver e não quebrar a cara por excesso de confiança. Mas é um erro deixar o medo decidir por você.

As neblinas são passageiras, mas as consequências de nossas decisões nem sempre são. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ignorar que por fora de toda essa branquidão o Sol está brilhando, firme e forte. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ceder ao desespero e ignorar que além da névoa existe um céu azulado, e além do próprio céu azul existe Algo que comanda o Universo e que vê tudo que o rola dentro e fora da neblina, dentro e fora de nós, inclusive dentro e fora e de nossos medos.

E na verdade, o medo nunca escolhe. O medo priva. O medo exclui. O medo demole os sonhos e nos impede de experimentar muito do bom que a vida nos oferece.

Ah, se a gente soubesse que a neblina é sempre passageira… Ah, se a gente soubesse do céu azul que vem logo mais…

No fim das contas, Silent Hill não existe e nós somos atacados apenas pelos monstros criados pelo nosso próprio desespero. Se nos acalmarmos um pouco, perceberemos que enquanto passamos pela neblina da indefinição nos foi oferecido paz e cuidado o tempo todo.

O que importa é saber que depois de cada neblina existe um dia ensolarado nos esperando, e que se repararmos na voz que nos chama, a fé certamente nos conduzirá até lá.

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Um comentário sobre “Além de Silent Hill

  1. A gente descobre que a neblina encobre a visão para as verdades e coloca diante de nós só o que não queremos ver. Descobrimos também que ela nos ensurdece para a única voz que é capaz de nos guiar, por enxerga por fora dela, por fora dos medos… por fora de nós mesmos.
    É como o velho Thales falando ao novo.
    É como Deus cuidando e preparando para o que viria.
    É como a voz de Deus que sempre falou aos nossos corações a maior verdade da terra, e que desde Adão nós insistimos em não escutar: “Eu cuido de vocês”.

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