Eu tinha vergonha do meu pai.

(Este texto foi publicado originalmente no Facebook dias após o falecimento do meu pai, João Rios Filho, em Julho de 2015)

 

Eu tinha vergonha do meu pai.

Pensei que talvez não fosse o melhor momento pra falar disso, mas é sim. E já havia dito isso pra ele algumas vezes, já que essa vergonha já passou há muito tempo.

Num mês de Agosto quando eu estava na sexta ou sétima série a minha escola mandou um recado avisando que teríamos uma homenagem aos pais lá. Aquelas coisas cafonas de sempre: jograis mal ensaiados, um aluno cantando mal uma música do Fábio Júnior e algum presente inútil que custasse menos que R$2,00. Fui pra casa com o bilhete e mostrei pro meu pai como sempre, já esperando a resposta padrão “Uh, filho, o pai vai viajar pra vender nesse dia, tudo bem?”. Eu sempre respondi “tudo bem” porque realmente estava tudo bem.

Ele sempre saiu pra trabalhar antes de acordarmos, geralmente passava mais da metade da semana fora trabalhando, passava muitos sábados e domingos se preparando para viajar e nunca foi aquele pai que sentava no sofá pra ver desenho com os filhos, até porque os desenhos passavam em horários em que ele geralmente não estava lá. Mas isso tudo nunca foi um problema porque nós sabíamos que ele estava fazendo isso pra cuidar da família e aproveitava cada folga que tinha pra nos levar ao clube, cachoeira, praia, pra nos ensinar a andar de bicicleta, ensinar matemática e todas essas coisas que jamais sairão da memória.

Mas depois daquele bilhetinho da homenagem do Dia dos Pais ele respondeu um surpreendente “Vou sim, filho”. Me assustei bastante, tentei argumentar que ele não precisava ir, que precisava trabalhar ou descansar ou qualquer coisa, mas ele realmente queria ir lá.

Pra quem não o conhecia muito bem, imagine um personagem da Praça é Nossa habitando a realidade fora da TV. A cada 10 coisas que dizia, 11 eram jargões. Se encontrasse 100 pessoas num dia, contava a mesma piada 100 vezes. Brincava com todo mundo, o tempo todo (inclusive em velórios). Agora imagine que você seja o menino não-popular da escola e seu pai chega lá aloprando com todo mundo, inclusive com as poucas pessoas que ainda te respeitam. E ele fez isso.

Chegou zuando todo mundo. Amigos, inimigos, professoras, todo mundo. Eu só abaixava a cabeça esperando ele não contar alguma coisa constrangedora minha pros meus colegas. Acabou a homenagem, ele me deu um beijo na testa e foi embora. Eis que então veio rindo a loirinha que já tinha seios (toda sala de sexta-série tinha uma loirinha que já tinha seios e você sabe disso, não me julgue). Pensei que ela ia falar que descobriu com meu pai que eu tinha medo de ratos ou que eu brincava com Comandos em Ação inventando nomes em inglês pra eles. Ela chegou e disse: “Cara! Seu pai é muito legal! Queria que o meu fosse assim também.”.

Oi?

Eu ali todo preocupado em passar algum vexame e na verdade meu pai era legal e eu não sabia. Dali em diante eu comecei a reparar e vi que mesmo ele ainda parecendo um personagem da Praça é Nossa (e eu assobiava o tema do programa pra ele o tempo todo), ele era tipo um daqueles personagens legais, tipo o Zoínho ou aquele que falava “Mestre, Uaaaalaaaa!”. Eu tinha orgulho de muitas coisas que meu pai fazia, mas só nesse dia eu aprendi a ter orgulho do meu pai.

Na semana passada o encontramos morto. E foi uma morte que realmente não inspira orgulho algum. Não vou mentir e dizer que não senti vontade de encher o corpo dele de socos por nos deixar de maneira súbita e inexplicável assim, ainda mais num momento em que fazíamos planos alegres com a família e projeções otimistas para os negócios. A morte dele merece tanto orgulho e compreensão quanto alguém que suja a cueca quando está com diarreia. Ninguém escolhe fazer isso, ainda mais quando realmente só se tem motivos para não fazer. Para a triste surpresa de todos, inclusive a dele, ele enfrentava uma doença que nem mesmo ele tinha conhecimento, e não se deve ter vergonha alguma disso. Não foi covardia, nem fuga ou desespero. Foi doença, e com doença não vem orgulho e nem vergonha, vem apenas compreensão.

Mas em meio à dor da perda e da tragédia, Deus escolheu apenas uma palavra para me consolar: Orgulho.

Nos ofereceram a maior sala de velório da cidade. Ela não foi grande o bastante (e nem chegou perto disso). Lá eu vi os meus tios, que ele sustentou e alimentou ainda adolescente. Vi também amigos antigos, que viajaram centenas de quilômetros, cada um com a sua história de como meu pai os animou, os ajudou, os consolou e até os salvou em diversas situações. Abracei pessoas que tiveram seu primeiro emprego graças a ele, outros que sustentaram suas famílias quando apenas meu pai acreditou na capacidade deles. Cantei hinos junto com pessoas que aprenderam a cantar sob a regência do “Malestro” João Rios, o maestro mais mala e exigente que já passou por esses lados. Ouvi os violinos de músicos profissionais que aprenderam a tocar e a amar música em um dos projetos gratuitos de musicalização que meu pai criou e se dedicou por anos. Sorri com pessoas que queriam morrer, mas desistiram depois de conhecer meu pai. Orei com pessoas que conheceram a Deus através de palavras do meu pai. Chorei de alegria e esperança com minha mãe e irmãos ao sentirmos a certeza de que meu pai está junto ao Pai.

Não saberei aqui na Terra o quanto mais posso sentir orgulho dele. A cada volta de viagem ele contava mil histórias de como Deus o usou na vida de outras pessoas, e nessa viagem final já ouvimos um tanto do quanto Deus o usou para chacoalhar os corações mais duros e acalmar os corações mais aflitos. Na Eternidade terei bastante tempo pra sentar com ele e Jesus pra ver os frutos da vida dele (e fazer piadas dessa história toda, é claro).

Infelizmente, em meio a todo esse orgulho cabe um pouco de vergonha também. Não por meu pai, mas pelas pessoas maldosas que criam e espalham os boatos mais absurdos. É normal numa situação inexplicável se buscar respostas, mas a maldade e o desrespeito das pessoas chega a incomodar um pouco. Desmentindo alguns dos boatos, nós não estamos quebrados financeiramente, o casamento dos meus pais continuava tão belo e exemplar como sempre foi, meu pai não cometeu crime algum e eu estou vivo (sério, até eu morri em alguns boatos por aí). E caso você tenha dúvidas sobre pra onde meu pai foi, te convido pra conversar um pouco sobre fé, graça e salvação.

Independente do que digam, não tem boato que vá tirar minha paz, não tem memória que vá diminuir meu orgulho pelo meu pai e nem mau conselho que me faça esquecer o que ele me ensinou. De herança ficou apenas a fé, e não há circunstância que a possa abalar.

Em nome da minha família agradeço as mensagens de apoio, as lágrimas, os abraços e as orações. É o momento mais difícil de nossas vidas mas, contrariando toda a lógica, nossos corações estão aquecidos e em paz. Agora entendemos a tal “paz que excede todo o entendimento” e sabemos, mais do que nunca, que Deus cuida de nós.

Quanto ao futuro, ficam agora a saudade e as boas memórias. E que ninguém queira fazer qualquer coisa pela memória ou honra do meu pai, pois ele mesmo nada fazia pra si próprio. Que a gente aprenda com o exemplo dele o que é viver uma vida de serviço ao próximo e de amor a Deus.

Até logo, pai.

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