O legal do Vô

(Este texto foi publicado originalmente num livro de homenagens e memórias do meu avô, João Sales Rios em Julho de 2015)

Geralmente é indelicado rir de doenças, mas existe uma síndrome chamada de Síndrome de Witzelsucht (juro que não inventei qualquer coisa escrevendo com o cotovelo), também conhecida como Doença do Trocadilho. É uma doença rara, causada por um algum dano ou tumor no lobo frontal direito do cérebro, e o sintoma mais comum dela é a pessoa ficar fazendo trocadilhos o tempo todo. Trocadilhos, sério. Eu seria um ótimo candidato a ser diagnosticado com esta síndrome se não fosse o fato da minha família inteira ser incrivelmente besta.

Dos meus sobrinhos de 1 ano ao meu avô com seus 80-e-todos anos de pura ruga e calvície, todos os Rios riem, brincam e fazem piadas com tudo o tempo todo. Seja em aniversário, almoço, fila do pão, velório, tudo é potencialmente engraçado e guardar a piada pra si é pecado. E algumas das cenas mais engraçadas e bacanas da minha infância me lembram de que esse jeito besta de ver tudo na vida não é algo genético, mas sim ensinado e lapidado desde pequeno por aqui. Meu Vô João sempre fez e continua fazendo isso com maestria.

Nunca joguei futebol de botão com meu avô, mas me lembro de quando ele nos visitava e ficava chorando de rir quando o pau começava a quebrar no Dragon Ball Z, vibrando e fazendo piada a cada soco e chute no desenho japonês como se fosse disputa de cinturão de boxe. Durante as refeições, pioneiro que é e não contente em fazer a piadinha do “Pavê ou Pacomê” (até porque ele é diabético, não dá pra brincar muito com doce), ele criou e sempre repete a piada de que aquilo na garrafa é uma “Limonada, mas de limão… nada”. Mas fora os trocadilhos, talvez a cena mais engraçada das que tivemos juntos foi uma vez em que ele pegou meus bonecos do Comandos em Ação, os colocou sentados em fileiras, e deixou dois na frente dos outros. Um destes ajoelhado e o outro com a mão na cabeça do primeiro.

— Que que é isso vô?

— Isso? Um culto pentecostal, Thales. Tão exorcizando esse rapaz aqui, ó que bacana! Sai demônio!

Gênio. (não fazia a mínima ideia do que era um culto pentecostal, ri de verdade disso só anos mais tarde.)

Não me lembro de tê-lo visto uma única vez mal humorado durante minha infância. E a alegria dele aumentava ainda mais quando estava trabalhando em alguma igreja. Foi evangelista durante anos, um trabalho simples e mal remunerado, mas o cumprimento da vocação estampava sempre um sorriso naquela cabeça careca.

Homem simples, nasceu na roça da Bahia, morou na periferia de São Paulo e se mudou pro anonimato do interior. Nunca foi famoso, nunca foi notícia de jornal, nunca realizou atos heróicos e nunca foi um fora da lei. Nunca foi rico, e imagino que nunca quis ser. João, baiano, morando em São Paulo: mais um pra estatística.

Fico imaginando que muitos Joãos deste mundo se preocupam com o que vão deixar para o mundo e suas famílias quando daqui partirem. Heranças, dívidas, legados. No quesito herança, meu vô já distribuiu a herança dele pra todos os filhos e netos homens: calvície. E acho que legado não é uma coisa que preocupa muito a cabeça lustrosa dele. Sempre apreciei a calma que ele tem, aquele tipo de calma que só aparece junto com uma fé genuína de quem sabe que realmente não temos controle de nada, mas cremos em alguém que controla tudo e cuida de nós. E essa calma aliada à fé não nos permite cair numa busca irrelevante e vaidosa por uma vida de relevância.

O legado do velho João, baiano e anônimo, não tem sido construído na direção de multinacionais, nem na política ou na artilharia de algum Campeonato Brasileiro do século passado. Não consigo imaginar, por exemplo, uma rua com seu nome daqui 50 anos. Mas entre erros e acertos ele passou a vida inteira contagiando o mundo ao seu redor com uma visão de servir e amar ao próximo que às vezes passa despercebida, mas que impactou e transformou muita gente. Pode parecer mais um João apenas, mas quem está por perto reconhece todas suas qualidades.

A coragem de largar tudo pra trás, embarcar num caminhão empoeirado e carregar a família inteira pra um novo mundo. A hospitalidade e a boa vontade de fazer caber mais de 30 pessoas num sobradinho pequeno. A seriedade para educar os filhos no caminho certo. O bom humor pra alegrar os netos quando os pais estão sérios demais. A força pra superar tragédias. A paciência pra recomeçar tudo de novo. A jovialidade que mostra que não há idade para amar outra vez. A alegria de servir a todos. A gratidão ao Criador o tempo todo.

Deus não deu a ele riqueza nem fama. Deu filhos. Um monte deles. E esses filhos tiveram outros filhos, e já vemos os filhos destes também. Porém, mais importante do que os filhos, netos e bisnetos, Deus um dia deu a ele uma vida nova, e essa mudança reflete diretamente em cada segundo das vidas de seus descendentes. E será assim por pelo menos mais umas 997 gerações.

É impossível contabilizar quantas vidas foram transformadas direta ou indiretamente pela vida deste simples baiano chamado João. Tal qual os patriarcas, um dia ele partirá para o Céu sem ver todos os frutos de seu trabalho.

Talvez daqui cem anos, o nome João Sales Rios seja esquecido. Talvez a casinha no alto do morro nem esteja mais lá e a horta, tão bem cuidada, já tenha virado um concreto qualquer. Talvez não sobre registro nenhum pra contar história e limão nenhum pra limonada. Mas ainda assim, o seu real legado continuará vivo em algum lugar. Legado esse que ele ganhou e que também quero deixar aos meus filhos, pois dinheiro, imóveis e fama, nada disso realmente importa. Não há legado melhor do que ele nos passou. Não há legado maior que a fé.

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