Aquele abraço

Pode parecer fofo demais pra mim, mas uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi virar tio. É legal demais aguardar o nascimento de um sobrinho e depois acompanhar o desenvolvimento dele sem ter que ficar acordando de madrugada e sem ter que trocar fraldas, já que você não é o pai da criança. E quando menos se espera, você já está fazendo piada com pavê naturalmente e ensinando a criança a fazer coisa errada.

Me lembro que com meus três sobrinhos um dos momentos em que mais aproveitei foi quando eles aprenderam a abraçar. Isso também pode parecer fofo demais, mas não. Obviamente, eu amo abraçar essas crianças e não consigo vê-las sem sair correndo feito retardado exigindo um abração no tio, mas era extremamente divertido mesmo convencer elas a abraçarem tudo que vissem pela frente. Depois que ganhava meu abraço eu falava “Isso, agora dá um abraço na bicicleta também. Pronto, agora abraça a mesa. Que gostoso! Agora abraça a parede. Olha como ela ficou feliz! Mas o chão também quer um abraço, oras!” e assim passava um bom tempo me divertindo às custas de abraços desperdiçados em coisas inanimadas.

Mas quando criança eu também era meio tapado nisso de abraçar. Me lembro que uma vez saí correndo todo feliz e dei um baita abraço na minha mãe, daqueles abraços de criança que segura forte numa coxa e repousa a cabeça no quadril. Fiquei um tempo considerável ali até perceber que aquela mulher, que não era minha mãe, estava achando a situação bem estranha. Soltei dela sem graça e fui procurar minha mãe verdadeira bastante desconcertado. Duas décadas mais tarde, provando que continuo tapado, fui conhecer a família da minha namorada e, por centímetros, não abracei por trás a namorada do meu cunhado por engano bem na frente de todo mundo. Acho que ninguém percebeu, mas isso ajuda a explicar porque fiquei solteiro novamente.

Apesar da minha falta de atenção e das sacanagens com sobrinhos, a ciência tem descoberto nos últimos anos que o abraço é na verdade extremamente benéfico para o corpo humano. Estudos mostram que, além de ser muito gostoso, o abraço (e quando digo abraço, me refiro a abraço de verdade, não aquela ombrada social com três tapinhas nas costas que costumamos fazer) realmente alivia dor, estresse e ansiedade, auxilia em tratamentos de problemas psicológicos, reduz a pressão arterial e diminui o risco de pegar gripe (desde que você não abrace pessoas gripadas, é claro). Abraço faz bem pra saúde, veja só!

Sem saber disso tudo, num dia desses eu estava passando por Campinas e aproveitei pra ir no Hospital da Unicamp dar um abraço na minha vizinha. Ela foi transferida pra lá às pressas depois de sofrer vários infartos e como o marido dela não conseguia nenhuma notícia do hospital, prometi a ele que aproveitaria minha viagem pra voltar de lá com notícias. Perguntei dela na recepção e, pra minha felicidade, ela havia acabado de sair da UTI e já estava bem e no quarto. Elevadores acima, pedi licença pra entrar no quarto e ela ficou tão eufórica por ouvir uma voz conhecida que só não pulou da cama porque as pernas dela ainda estavam anestesiadas por conta do cateterismo. Conversamos um pouco, rimos bastante, oramos juntos, mandamos uma foto pra família e ligamos pro marido dela.

Quando estava pra sair, perguntei se ela queria que eu mandasse alguma mensagem pra eles e ela pediu “Manda um abraço pro Dê!”. Retruquei falando “Poxa, Glorinha, mas só um abraço pro Ademir?! Não quer que mande um beijo?”, e ela então fez uma cara de “Ué…”. Acatei o pedido dela rindo e voltei pra casa.

Alguns dias depois entreguei o abraço pro Ademir. Infelizmente, o fiz na porta do velório. Ela havia pegado uma infecção no hospital e acabou não resistindo por muito tempo. Eu já o tinha abraçado algumas outras vezes, mas quando contei essa história pra ele e entreguei este abraço enviado por ela, ele chorou e me apertou mais forte, como se ela estivesse ali nos braços dele. Como num último gesto dela, mesmo que inconsciente do futuro que a aguardava, aquele abraço levava um pouco da força e conforto de que ele precisava pra se curar naquele momento.

E a mim, por ter tido a honra de ser usado como intermediador deste gesto, ficou a lição de que não existe maior demonstração de amor do que um abraço.

Existem milhões de outras formas de se interagir com pessoas que se ama. Existem formas que demonstram o máximo de intimidade, como o sexo ou usar o banheiro de porta aberta. Existem formas que demonstram como a pessoa é valiosa, como torrar o salário comprando um anel de ouro ou até mesmo doando um órgão pra que a outra continue vivendo. Existem formas que demonstram carinho, como um beijo ou um “vai ficar tudo bem” sussurrado ao pé do ouvido. Mas nenhuma dessas consegue funcionar em todas as ocasiões como um abraço.

Ninguém dá presentes quando o outro chega em casa contando que foi demitido. Ninguém dá beijo de língua pra contar do falecimento de alguma pessoa próxima. Ninguém tira a roupa quando ouve um diagnóstico de câncer. Ninguém transa porque está desiludido com a vida. Não tem carinho, não carro zero, não tem rim, não tem cafuné, seio, homenagem, piada ou frase de auto ajuda que ajudem realmente quando o que se precisa é de um abraço.

Nenhum outro gesto persiste na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

E não existe outro gesto que doa mais quando a morte decide que é hora de separar.

O abraço é mais do que um emaranhado de braços em volta de torsos. O abraço é guarda baixa que permite agarrar a realidade do outro. É diluidor de tristeza. É multiplicador de alegria. É sinfonia de sentidos no silêncio.

O abraço é sincronia de corações.

Dentro deste espaço onde se tenta ignorar que dois corpos não o podem ocupar ao mesmo tempo, cabe muito mais do que se imagina.  No abraço cabe a paciência que dissolve a desesperança. No abraço cabe a compaixão que ignora a indiferença. No abraço cabe a alegria que carrega o consolo. No abraço cabe a paz que afasta o medo.

No abraço cabe o amor que não caberia em lugar nenhum.

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12 comentários sobre “Aquele abraço

  1. Conheci a Rebecca em Bauru, vc deve lembrar de mim. Ela compartilhou este conteúdo no Facebook. Fiquei emocionada com esse belíssimo texto, que traduziu o abraço com as melhores palavras possíveis. Obrigada e um grande abraço!

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