Qual é a boa pra 2017?

Vai ano, vem ano e eu continuo com uma dúvida que me persegue desde a minha infância: que raios o Claudinho e Buchecha queriam dizer quando cantavam “controlo o calendário sem utilizar as mãos”? Sempre imaginei eles mexendo com o pé naquele calendário de parede horroroso que a gente ganha no açougue, ou talvez eles tivessem poderes de telecinese, ou talvez eles simplesmente conseguiram decorar qual mês tem 30 dias e qual tem 31 sem ter que contar nos ossinhos e vãos dos dedos. Vai saber! Quem sabe eles apenas escreveram isso em meio a um “delírio de jogar futebol”.

Mas outra coisa que me incomoda há um tempo é que chega nessa época e eu começo a ver pelas ruas os carros com um adesivo de uma igreja escrito “2017 será o melhor ano da sua vida”. Todo ano é o mesmo adesivo, mudando apenas a data. Mas poxa, será que quem colocou o adesivo nesse último ano realmente acredita nisso? 2016 não foi dos anos mais fáceis não.

Esse ano tivemos tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo que eu sinto muita pena dos jornalistas que trabalharam na retrospectiva. Eles irão precisar de uns 10 anos de terapia depois de relembrar toda a maluquice de crise financeira, brigas políticas, desastres, guerras e tudo mais que  nos tirou o sono e a paz nessa última volta ao redor do Sol. E não bastando os 365 dias de desgraça, esse ano ainda era bissexto!

O tempo todo fomos bombardeados por más notícias: toda manhã eu ligava a TV no jornal e não saía pro trabalho antes de completar meu bingo mental com as palavras “Crise”, “Petrobras”, “Cunha”, “Lula”, “Lava-Jato”, “Impeachment” e “Desemprego”; chegava na empresa e o assunto era o estupro coletivo da menina no Rio, avião da Chapecoense caindo na Colômbia e mais um ataque terrorista na Europa; voltava pra casa cansado de tanta notícia ruim e descobria que os grupos no Whatsapp haviam se tornado os obituários oficiais de gente famosa: todo dia era a notícia de mais um artista que partia dessa vida.

Quando foi mesmo que o mundo virou um grande especial do Cidade Alerta?

Sempre concordei com a frase que diz que “todo otimista é um pessimista mal informado”, mas acho que em algum momento de nossa busca por uma vida sem alienação acabamos por nos embrenhar no outro extremo da informação: nos alienamos do bem.

Desde que Adão e Eva fizeram o favor de contaminar tudo com a maldade o mundo está caído e descendo ladeira abaixo, e não é surpresa nenhuma que tanta coisa ruim tem acontecido por aqui: assistimos indignados a absurda guerra na Síria, mas vivemos brigando uns com os outros por motivos extremamente banais; lamentamos a separação de casais famosos, mas traímos e incentivamos todo tipo de safadeza em prol de uma liberdade que apenas escraviza; acusamos nossos políticos de corrupção, mas a honestidade não tem dado muito as caras por aqui ultimamente; denunciamos a hipocrisia nos púlpitos, mas causamos divisão até mesmo dentro de casa por não sabermos lidar com nosso orgulho.

É muito ódio, é muita safadeza, é muita irresponsabilidade, é muita ganância, é muito ciúmes, e o pior de tudo: é muito natural.

Nada disso deve nos surpreender porque sabemos bem que essa é a natureza humana, caída, perdida e devastada por ela mesma. Tudo que vemos, ouvimos e conversamos nos afeta e nos leva a desesperar ainda mais. Mas não precisa ser assim: saibamos enxergar os sinais do que nos traz esperança.

Neste ano comemoramos quando cientistas e inventores permitiram que daltônicos enxergassem toda a beleza de flores pela primeira vez e, além de vários outros avanços contra o câncer, diabetes e Mal de Alzheimer, vimos pessoas que sofrem com Mal de Parkinson conseguindo comer sozinhas usando fantásticas colheres adaptadas que não tremem. Vimos policiais abandonarem seus postos para socorrer cachorro que estava passando mal e ajudar idoso a atravessar a rua. Vibramos com nossos atletas superando toda dificuldade e ceticismo e trazendo medalhas, recordes e orgulho para nosso país tão sofrido. Nos emocionamos com médicos permitindo um cachorro visitar um paciente terminal, nos inspiramos com igrejas construindo casas para os membros mais pobres, nos alegramos com brasileiros concorrendo a Nobel, Oscar e até prêmio de melhor jogador de video game do mundo. E tem muito mais que não aparece nos jornais: teve gente fazendo as pazes depois de anos sem se falar; teve gente alimentando quem não tinha o que comer. Teve cachorro rolando na grama. Teve festa de aniversário surpresa. Teve mensagem de madrugada falando que vai ficar tudo bem. Teve criança nascendo. Teve risada. Teve música boa. Teve comida boa. Teve piada ruim. Teve amor onde nunca se imaginou.

Até mesmo em meio à desgraça e à dor, se soubermos procurar, enxergaremos coisas boas. Neste ano tivemos a trágica queda do avião vitimando a equipe da Chapecoense, além de jornalistas e tripulação, e em meio à lamentação pelas falhas humanas e pelos sonhos despedaçados, encontramos um povo que não tinha a mínima obrigação de se comover conosco, mas resolveu nos dar um abraço maior que a tragédia que nos acometeu.

Nós focamos tanto no que há de mau no mundo e perguntamos onde Deus está quando a realidade nos bate com os dois pés no peito, mas é porque somos orgulhosos demais para assumir que a culpa, enquanto humanidade, é sempre nossa. Basta ceder um pouco desse nosso pedestal para que possamos reconhecer que Deus está, desde sempre, trabalhando ativamente pra nos trazer esperança apesar das consequências que nossas más escolhas produzem. Basta abrir os olhos para enxergar o quanto há de bom no mundo apesar de nossa natureza caída. E melhor que isso: quão doce é a esperança ao saber que estes são apenas pequenos sinais da paz eterna que nos foi prometida.

Não sei se o próximo ano será o melhor da sua vida e duvido que usar um adesivo no carro dizendo isto vá facilitar alguma coisa, mas torço para que nos próximos 365 dias saibamos ser gratos: que a gratidão nos encha de esperança ao crescermos um pouco mais nas piores dificuldades, e que a mesma gratidão nos inunde pela graça de receber o que é bom sem que mereçamos.

Que a esperança de um ano melhor não se baseie nesta nossa humanidade caída, mas nos sinais de que há alguém trabalhando para redimir o que parecia não ter mais conserto.

Um minuto de silêncio.

Quando estava na faculdade, provavelmente num dia sem muito o que fazer, resolvi que tinha que fazer meu testamento. Sim, com uns 20 anos de idade, vivendo num lugar tranquilo, sem nenhum problema de saúde que desse razão a isso, resolvi que precisava deixar por escrito o destino dos meus (poucos) pertences e as instruções pro meu funeral. Você deve estar achando que sou doido, e talvez essa seja a resposta mesmo. Eu tenho um pessimismo “Murphyano” secreto onde sempre acho que as coisas tem enormes chances de darem errado, e como quase todo mês eu pegava estrada pra voltar pra minha cidade dividindo pistas simples com caminhões carregados de cana, julgava ter grandes chances de sair feito garapa de alguma dessas viagens.

Meu testamento era uma coisa bem besta, como se pode imaginar. Eu descrevia detalhes de como queria meu funeral e pra quem deveriam ser doados minha câmera, meu computador, minha cama, meu quimono de Aikido, minha bateria e essas coisas. Eu também insistia que tivesse bexigas ao invés de flores e de que iria deixar umas piadas ruins anotadas, daí qualquer pessoa que quisesse ir lá na frente falar algo sobre mim, teria que contar uma dessas piadas antes. É besta? É. Mas ia ser legal, assuma.

No meio desse monte de bobagens eu ainda acho que algumas coisas devem ser levadas em conta, como não vestir meu corpo com a camisa do São Paulo e, se for permitido, pra me enrolar num lençol do Corinthians ao invés de usar caixão: já que é pra apodrecer, vamos fazer direito. Mas fora essas coisas com sentido, ao mesmo tempo me deparei com o quanto eu não respeitava a morte e a dor naquele momento. Queria que não tivesse choro e dizia que “luto é uma coisa besta”. Ninguém tão próximo de mim havia morrido, e o único velório que havia ido era o do meu avô, com 4 anos. Só lembro que queria ir embora porque tinha certeza de que ele iria se levantar do caixão e chupar o sangue de todo mundo ali presente. O tempo passou e eu ainda não havia entendido muita coisa sobre a morte.

Hoje entendo que acima de tudo nessas horas é preciso de um pouco de silêncio.

Quando a tragédia bateu na porta de casa levando meu pai, não faltou gente tentando me acalmar dizendo que estava lá por mim, de que tudo iria dar certo e de que a vida é uma bosta mas eu iria superar. Aceitei e agradeci a todos pelo apoio, mas diante da minha expressão catatônica todos remendavam dizendo o óbvio: “não tenho o que falar…”.

Aprendi que existem momentos em que não temos mesmo o que falar, e nesses momentos a melhor opção é nem comentar sobre isso. As pessoas que mais me consolaram naquele dia foram as que simplesmente chegaram e me abraçaram sem falar nada. Chorar com os que choram é o suficiente. Me lembro desses abraços e o silêncio deles fala comigo até hoje.

Hoje acordei cedo e, enrolando pra levantar olhei no celular e vi uma manchete dizendo que o avião que levava o surpreendente time da Chapecoense e uma ótima equipe de jornalistas pra final da Copa Sulamericana caíra na Colômbia matando quase todos os passageiros. Me levantei assustado pra tomar banho e ouvia na sala o pessoal de casa comentando enquanto o repórter da TV dava detalhes da tragédia. No trabalho, os colegas e clientes falavam sobre isso o dia todo. Na rua, todo mundo era expert em aviação. Na Internet, todas as linhas de todos os sites mostrando mostrando todos os ângulos do horror em tempo real. Quase se podia literalmente tocar no assunto, de tão denso e tenso que ele habitou o dia.

Talvez nós precisamos de um pouco de silêncio.

Precisamos de silêncio para digerir toda essa informação. Precisamos de silêncio pra aceitar toda essa nova realidade. Precisamos de silêncio para nos lembrar dos que se foram. Precisamos de silêncio para valorizar os que ficaram. Precisamos de silêncio para perceber que a tempestade já se foi, mas também para perceber que ninguém é imune às próximas que virão. Precisamos de silêncio para perceber que há esperança além da dor.

Precisamos de silêncio para aprender que é preciso viver a vida, mas que isso passa por aprender a respeitar a morte.

Portanto, façamos hoje um minuto de silêncio por cada atleta que morreu. Façamos um minuto de silêncio por cada funcionário do clube, por cada jornalista, por cada tripulante do avião. Mas não façamos apenas por estes.

Façamos um minuto de silêncio porque nenhum homem é uma ilha, e a morte de qualquer pessoa nos diminui por sermos parte da humanidade. O silêncio também é por nós.

Que no gramado da morte esse minuto de silêncio faça ecoar a esperança de uma vida sem dor e tristeza por toda a eternidade.

Apaixone-se por alguém que não te merece

Ah, como eu queria viver noutros tempos! Nesses dias de touchscreens, selfies e Tinder todo o romantismo nos foge por entre os dedos. Bons tempos eram aqueles em que ficávamos a ver as moças passearem pelos bosques, cavalgávamos no fim da tarde pelas campinas ao encontro da amada para declamar todo o nosso amor com o joelho direito no chão, os braços abertos e as folhas de outono como testemunhas. E então, depois um pé na bunda, voltávamos pro feudo tocando no alaúde aquela música fossa do Frejat.

Seja no feudo ou na cidade, seja à cavalo ou espremido num metrô, se apaixonar de verdade é quase sempre aquele ato irracional que muitas vezes vai nos custar horas de terapia e algum tempo pra recuperar a dignidade perdida. Mesmo assim, todo dia me deparo com vários textos do tipo “Apaixone-se por uma pessoa que te faça rir”, ou “Namore alguém que ande de bicicleta”, ou ainda “Case-se com alguém que saiba o nome dos 151 Pokemons da primeira temporada” (mentira, eu só estou tentando me ajudar nessa). Todo mundo quer dar um pitaco de como você deve proceder pra encontrar a pessoa ideal pra passar o resto da vida junto. Todo mundo pinta a vida como um conto de fadas, mas ninguém conta que o príncipe só sabe falar de academia e a princesa tem mais bafo que o dragão do castelo. Não é por acaso que essas dicas geralmente não dão certo.

Em todos os meus fracassos amorosos alguém (geralmente minha mãe) sempre chegava em mim dizendo que foi melhor assim, que quando não é pra ser não acontece, que Deus está preparando alguém melhor pra mim, que “quem sabe sua prometida ainda nem nasceu” (tem coisa mais desesperadora do que ouvir isso com mais de 25 anos?). São sempre essas e outras coisas do tipo advindas de contos de fadas, livros de auto-ajuda baratos e forçação de barra bíblica.

Por muito tempo acreditei que um dia Deus gastou tempo planejando a moça A para o moço A, a moça B para o moço B e todo esse alfabeto pareado e destinado a se encontrar um dia para viverem felizes para sempre. Acreditava que toda panela tinha sua tampa e comecei a pensar que talvez eu fosse uma frigideira ou, sei lá, um rodinho de pia nessa história toda. Mas um dia vi minha mãe tampando a panela do feijão com um prato e parei pra perceber que a moça A namorava o moço A e depois o traiu com o moço B, que por sua vez era afim da moça C e usou essa situação toda pra flertar com a moça E e gerar ciúmes, o que revoltou o moço J, que foi fofocar tudo pro moço L, que era secretamente afim do moço R, que virou padre depois que a moça N morreu num acidente trágico antes do casamento deles. A teoria do caos e toda aquela baboseira do bater da asa de uma borboleta podem explicar bem todo esse tornado nos planos do destino depois que a moça A resolveu dar uma escapadinha.

Já me cansei de ouvir aquele papo de que “existe uma pessoa prometida” pra mim, mas a verdade é que ninguém nunca me prometeu nada disso. E duvido que tenham prometido pra você também (a não ser que vossa senhoria ainda esteja a viver no Brasil Colônia e já pagaste adiantado o dote ao pai da donzela).

Não bastando a falta de lógica nessa história de que as pessoas estão destinadas umas às outras, o grande problema reside no fato de que não tem como existir uma pessoa certa pra outra se todo mundo no mundo é errado. De Dilma Roussef à Megan Fox não existe gente perfeita neste mundo.

Portanto, desencane de buscar a pessoa certa pra você e comece a buscar uma pessoa errada, porque é o único tipo de pessoa que se vai encontrar por aí. Aprender a se perceber como uma pessoa cheia de defeitos é essencial para finalmente se enxergar no mesmo patamar de gente ruim que, surpresa, todo mundo está. E à partir daí se pode derrubar os preconceitos e expectativas irreais baseados em ideais de perfeição que deixariam até Platão enjoado. Se precisar, assista aquele filme de terror chamado O Amor é Cego.

Mas calma. Não estou falando que se deva abdicar de todos os gostos pessoais e coisas que se acha importante encontrar na outra pessoa, mas sim de que você não vai encontrar todos esses gostos pessoais e coisas que acha importante numa pessoa. Não no mundo real. Aceite isso e aprenda a lidar com o inesperado sem descambar para a frustração. Boa parte do que chamamos de defeito são apenas características que o outro vai carregar pra sempre, e depende exclusivamente de você se esforçar para ajustar um pouco suas expectativas para fazer caber a pessoa que se gosta integralmente nos seus sonhos.

No fim das contas, é muito bonita a ideia de nascer destinado para amar e ser amado por outra pessoa, mas a realidade é sempre mais bonita que a fantasia simplesmente por ser real.

Na vida real não existem príncipes cavalgando cavalos brancos para salvar donzelas em perigo, mas existe pegar dois ônibus pra conseguir passar uma hora ao lado da pessoa (e mais dois ônibus pra voltar pra casa). Na vida real não existem dragões acorrentados em castelos, mas existe parar tudo que se está fazendo para ouvir a outra pessoa chorar do outro lado do telefone por alguma coisa que deu errado no dia dela. Na vida real não tem bruxa malvada, mas tem aquele chefe que te segura até às 19h e te faz perder a reserva do restaurante bem no aniversário de namoro. Na vida real não tem sapo enfeitiçado, mas tem vício em foto de perereca. Na vida não real não tem torre de castelo, mas tem 12 andares sem elevador. Na vida real não tem maçã envenenada, não tem fada madrinha, não tem sapato de cristal. Na vida real tem câncer, tem boleto, tem verruga na testa, tem suor na mão, tem erro de português, tem tênis molhado, tem um filho de 5 anos, tem calvície hereditária, tem parente morrendo, tem diarréia no primeiro encontro, tem alface no meio do dente.

Na vida real não tem muita ficção.

E concorde comigo: é muito mais bonito se apaixonar com tudo isso acontecendo do que simplesmente porque o destino apresentou a pessoa prometida para você.

Há um tempo atrás uma das minhas amigas que mais me conhece na vida veio me falar que esperava muito que eu encontrasse alguma garota especial que me merecesse de verdade. Recebi aquilo respondendo um “Eita, tomara que não!”. Eu, que me conheço melhor que minha amiga, sei o quão ruim sou e o quão péssimo consigo ser se parar de me esforçar só um pouquinho. Além disso, não sou rico nem galã, e o que deveria compensar sendo legal e engraçado geralmente não sai como esperado. Então me parece um baita de um castigo alguém merecer uma pessoa cheia de defeitos como eu.

Porém, sabendo que no fundo ninguém realmente merece algo de bom, espero encontrar um dia alguém que me aceite. E espero estar pronto para aceitá-la também.

Acredito que tudo que existe e acontece de bom sobre a Terra nos ajuda a entender um pouco mais de quem Deus é e o que ele tem feito por aí, e no caso de se apaixonar isso fica ainda mais evidente para mim. Nosso coração é podre demais para aceitar o quão podres realmente somos, e toda essa presunção só evidencia o quanto estamos distantes de alcançar qualquer coisa de bom por nossa própria conta. Somos culpados do mau que somos e do mal fazemos, e não merecemos nada além da justa punição de morrermos solitários e separados do que quer que buscamos pra vida. Mas apesar dos defeitos, apesar dos erros, apesar de quem nós somos, o Amor se encarrega de absorver isso tudo e anular toda e qualquer rebarba que o impeça de nos aceitar ao seu lado onde não existe “até que a morte os separe”.

Não existe merecimento nenhum em ser amado. O nome disso é graça.

Se for pra se apaixonar, que não seja por quem te mereça.

Tenha paciência e deixe que o Amor faça o trabalho dele e una perfeitamente todas as coisas.

Se apaixone por graça, simplesmente.

Aquele abraço

Pode parecer fofo demais pra mim, mas uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi virar tio. É legal demais aguardar o nascimento de um sobrinho e depois acompanhar o desenvolvimento dele sem ter que ficar acordando de madrugada e sem ter que trocar fraldas, já que você não é o pai da criança. E quando menos se espera, você já está fazendo piada com pavê naturalmente e ensinando a criança a fazer coisa errada.

Me lembro que com meus três sobrinhos um dos momentos em que mais aproveitei foi quando eles aprenderam a abraçar. Isso também pode parecer fofo demais, mas não. Obviamente, eu amo abraçar essas crianças e não consigo vê-las sem sair correndo feito retardado exigindo um abração no tio, mas era extremamente divertido mesmo convencer elas a abraçarem tudo que vissem pela frente. Depois que ganhava meu abraço eu falava “Isso, agora dá um abraço na bicicleta também. Pronto, agora abraça a mesa. Que gostoso! Agora abraça a parede. Olha como ela ficou feliz! Mas o chão também quer um abraço, oras!” e assim passava um bom tempo me divertindo às custas de abraços desperdiçados em coisas inanimadas.

Mas quando criança eu também era meio tapado nisso de abraçar. Me lembro que uma vez saí correndo todo feliz e dei um baita abraço na minha mãe, daqueles abraços de criança que segura forte numa coxa e repousa a cabeça no quadril. Fiquei um tempo considerável ali até perceber que aquela mulher, que não era minha mãe, estava achando a situação bem estranha. Soltei dela sem graça e fui procurar minha mãe verdadeira bastante desconcertado. Duas décadas mais tarde, provando que continuo tapado, fui conhecer a família da minha namorada e, por centímetros, não abracei por trás a namorada do meu cunhado por engano bem na frente de todo mundo. Acho que ninguém percebeu, mas isso ajuda a explicar porque fiquei solteiro novamente.

Apesar da minha falta de atenção e das sacanagens com sobrinhos, a ciência tem descoberto nos últimos anos que o abraço é na verdade extremamente benéfico para o corpo humano. Estudos mostram que, além de ser muito gostoso, o abraço (e quando digo abraço, me refiro a abraço de verdade, não aquela ombrada social com três tapinhas nas costas que costumamos fazer) realmente alivia dor, estresse e ansiedade, auxilia em tratamentos de problemas psicológicos, reduz a pressão arterial e diminui o risco de pegar gripe (desde que você não abrace pessoas gripadas, é claro). Abraço faz bem pra saúde, veja só!

Sem saber disso tudo, num dia desses eu estava passando por Campinas e aproveitei pra ir no Hospital da Unicamp dar um abraço na minha vizinha. Ela foi transferida pra lá às pressas depois de sofrer vários infartos e como o marido dela não conseguia nenhuma notícia do hospital, prometi a ele que aproveitaria minha viagem pra voltar de lá com notícias. Perguntei dela na recepção e, pra minha felicidade, ela havia acabado de sair da UTI e já estava bem e no quarto. Elevadores acima, pedi licença pra entrar no quarto e ela ficou tão eufórica por ouvir uma voz conhecida que só não pulou da cama porque as pernas dela ainda estavam anestesiadas por conta do cateterismo. Conversamos um pouco, rimos bastante, oramos juntos, mandamos uma foto pra família e ligamos pro marido dela.

Quando estava pra sair, perguntei se ela queria que eu mandasse alguma mensagem pra eles e ela pediu “Manda um abraço pro Dê!”. Retruquei falando “Poxa, Glorinha, mas só um abraço pro Ademir?! Não quer que mande um beijo?”, e ela então fez uma cara de “Ué…”. Acatei o pedido dela rindo e voltei pra casa.

Alguns dias depois entreguei o abraço pro Ademir. Infelizmente, o fiz na porta do velório. Ela havia pegado uma infecção no hospital e acabou não resistindo por muito tempo. Eu já o tinha abraçado algumas outras vezes, mas quando contei essa história pra ele e entreguei este abraço enviado por ela, ele chorou e me apertou mais forte, como se ela estivesse ali nos braços dele. Como num último gesto dela, mesmo que inconsciente do futuro que a aguardava, aquele abraço levava um pouco da força e conforto de que ele precisava pra se curar naquele momento.

E a mim, por ter tido a honra de ser usado como intermediador deste gesto, ficou a lição de que não existe maior demonstração de amor do que um abraço.

Existem milhões de outras formas de se interagir com pessoas que se ama. Existem formas que demonstram o máximo de intimidade, como o sexo ou usar o banheiro de porta aberta. Existem formas que demonstram como a pessoa é valiosa, como torrar o salário comprando um anel de ouro ou até mesmo doando um órgão pra que a outra continue vivendo. Existem formas que demonstram carinho, como um beijo ou um “vai ficar tudo bem” sussurrado ao pé do ouvido. Mas nenhuma dessas consegue funcionar em todas as ocasiões como um abraço.

Ninguém dá presentes quando o outro chega em casa contando que foi demitido. Ninguém dá beijo de língua pra contar do falecimento de alguma pessoa próxima. Ninguém tira a roupa quando ouve um diagnóstico de câncer. Ninguém transa porque está desiludido com a vida. Não tem carinho, não carro zero, não tem rim, não tem cafuné, seio, homenagem, piada ou frase de auto ajuda que ajudem realmente quando o que se precisa é de um abraço.

Nenhum outro gesto persiste na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

E não existe outro gesto que doa mais quando a morte decide que é hora de separar.

O abraço é mais do que um emaranhado de braços em volta de torsos. O abraço é guarda baixa que permite agarrar a realidade do outro. É diluidor de tristeza. É multiplicador de alegria. É sinfonia de sentidos no silêncio.

O abraço é sincronia de corações.

Dentro deste espaço onde se tenta ignorar que dois corpos não o podem ocupar ao mesmo tempo, cabe muito mais do que se imagina.  No abraço cabe a paciência que dissolve a desesperança. No abraço cabe a compaixão que ignora a indiferença. No abraço cabe a alegria que carrega o consolo. No abraço cabe a paz que afasta o medo.

No abraço cabe o amor que não caberia em lugar nenhum.

Quem é você dentro de você?

Num passado distante cientistas foram desafiados a criar um complexo sistema mundial de interligação de computadores para troca de informações à distância. As possibilidades eram enormes: poderiam enviar informações militares e científicas de um continente a outro, acessar dados bancários, conversar com pessoas do outro lado do mundo, comprar e vender sem sair de casa. Décadas mais tarde, cá estou eu, me dedicando a gastar tempo nesse tal complexo sistema mundial de interligação de computadores para fazer testes em que descubro qual seria meu Pokémon na vida real.

Por mais tonto que seja, é muito divertido responder 5 perguntas e descobrir que no universo de Friends eu seria o Ross (droga, sempre quis ser o Chandler), que no Star Wars eu seria o Jar Jar Binks (o que é indiscutível, infelizmente) e que dentre as princesas da Disney eu seria a Branca de Neve (sim, eu já fiz esse teste mesmo). Os resultados são meio deprimentes, mas é viciante demais pra parar com isso.

Fora estes testes bisonhos de “quem é você na fila do pão” e “quem é sua alma gêmea” (nunca funciona, acreditem em mim), tem outros realmente interessantes por aí, alguns que dá até pra botar certa fé e parecem ter algum embasamento de psicologia por trás. Meus favoritos são aqueles em que você tem que imaginar um cenário com vários elementos e depois descobre que aquele deserto é a representação da sua vida patética e sem sentido, o cavalo rebelde é sua pessoa amada que está pisando na única flor do jardim, que representava seu último amigo. (Baseado em fatos bizarramente reais de um amigo meu esse exemplo.)

Meu primeiro contato com testes assim foi na época em que a Internet ainda era tudo mato. Quando criança conheci uma velhinha muito simpática que parecia ter poderes sobrenaturais. Ela estava em casa conversando com minha mãe e do nada me pediu pra desenhar uma estrada, árvores e uma casa. Achei tonto da parte dela (e não disse isso porque eu era um menino muito educado), mas fiz lá o tal desenho pra velhinha. Ela pegou o papel na mão, abaixou os óculos de velha dela e começou a me descrever completamente se baseando no desenho: “Olha, menino, estas árvores inclinadas pra direita mostram que você gosta de imaginar muito as coisas antes de fazê-las; a cerca na estrada feita assim me diz que você tem muito medo de arriscar nas suas decisões; o caminho com curvas deste jeito mostra que você é muito desorganizado; e esta casa com telhado deste jeito e um cachorro na porta me indicam que você gosta muito de cachorro, porque eu nem pedi pra desenhar cachorro”. Caramba! Não lembro bem como foi que ela descreveu as coisas na verdade, mas ela parecia saber mais de mim do que eu mesmo! Em seguida pegou meu caderno da escola e descobriu pela minha letra que eu era impaciente, distraído e sentia ciúmes da menina que gostava (o que era verdade mas neguei, obviamente). Depois de desnudar meus sentimentos e personalidade ela deu um sorrisinho, fez alguma piadinha sobre poderes mágicos e me deixou anos pensando que ela era prima da Morgana ou algo do tipo.

Infelizmente anos mais tarde eu soube que ela havia estudado algo relacionado a psicologia, o que fez a magia desaparecer um pouco, mas de qualquer maneira isso me fez ficar fanático por estes testes de personalidade.

Há um tempo atrás eu vi em um site mais um destes testes em que se tem que imaginar um cenário, um animal, uma cabana e mais um monte de coisas. Entre estas coisas, devia imaginar uma caneca ou frasco que estava no fundo da tal cabana. Como ele é? Imaginei um frasco de vidro bem fino e fraco, todo embaçado e com água suja parada. O que você faz com ele? Contrariando o que eu realmente faria na vida real, me imaginei pegando o frasco, jogando a água suja fora e depois fui em uma torneira, o lavei, sequei e levei comigo tomando todo o cuidado do mundo. No fim do teste eles explicavam que o frasco representava a minha relação com a pessoa mais importante pra mim naquele momento. Mais tarde naquele dia liguei pra tal “pessoa mais importante pra mim naquele momento”, contei que fiz mais um daqueles testes tontos, falei que limpei o frasco porque não queria nenhum Aedes Aegypti por perto, rimos, nos desejamos boa noite e fomos dormir.

Um mês depois ela me largou e voltou com o ex-namorado.

Não sei se Freud explica isso também, mas aquele teste fez sentido até demais pra mim. Era realmente um relacionamento frágil, cheio de sujeira acumulada de passados mal resolvidos. Tentei limpar com cuidado, mas na vida real acabou tudo despedaçado.

Este pode parecer um texto sobre pé na bunda e seus pais falando “Pelo menos agora você sabe como faz pra pegar alguém, né?” (e não, ainda não sei), mas não. Este texto é apenas um devaneio sobre como carregamos tanta sujeira nesse nosso frasco chamado vida. Sobre como como nossas atitudes são comandadas por coisas que nem percebemos que nos dominam e ditam nossa vida.

O que somos e o que fazemos é, em sua maioria, resultado do que vivemos até então, e a nossa linha do tempo é o tempo todo agredida e entortada por pancadas que experimentamos todo santo dia. Cada pequena falha nossa ou do outro faz pingar mais uma gota no frasco, cada pecado cumpre sua função em aumentar a distância nos relacionamentos, cada trauma nos imputa medos que tornam opacas nossas decisões e, quando menos esperamos, nosso frasco está transbordando sujeira e nos encontramos envoltos em tanto lodo que já não dá mais pra ver do outro lado do vidro.

É preciso limpar o que está ali dentro.

Ignorar a sujeira que acumulamos conosco não a limpa, e nessa vida não se tem tapete suficiente pra varrer tudo pra debaixo dele. Cada trauma ignorado, cada falha arquivada, cada pecado engavetado vão cobrar sua atenção um dia. É preciso esvaziar nossos armários para que as traças não corroam o que realmente importa. É preciso tratar as velhas feridas, mesmo que seja pra aprender como tratar as que ainda estão por vir. É preciso enfrentar os velhos traumas para que eles não roubem sua liberdade de escolha na vida. É preciso enterrar seus mortos, mesmo sabendo que parte de você será enterrada junta. É preciso se livrar da sujeira que acusa e te impede de se relacionar consigo mesmo, pois só assim pode-se se tornar livre pra se relacionar com o outro outra vez.

Quantas amizades precisam ser desperdiçadas por medo de confiança? Quantos amores precisam ser evitados por medo do abandono? Quantos cachorros precisam ser negados por medo da separação? Quantos projetos precisam ser engavetados por medo do fracasso? Quantas festas, quantas comidas, quantas experiências, quantas viagens, quantas roupas, quantos sorvetes, quantos abraços, quantas danças, quantos prazeres?

Quanta vida é preciso deixar pra lá por coisas que já deveriam ter sido deixadas pra lá?

É preciso esvaziar o velho eu para poder ser preenchido de uma nova vida.

Não há frasco que não possa ser lavado. Não há passado que não possa ser deixado pra trás.

É preciso aprender perdoar – a si mesmo, inclusive.

Eu tinha vergonha do meu pai.

(Este texto foi publicado originalmente no Facebook dias após o falecimento do meu pai, João Rios Filho, em Julho de 2015)

 

Eu tinha vergonha do meu pai.

Pensei que talvez não fosse o melhor momento pra falar disso, mas é sim. E já havia dito isso pra ele algumas vezes, já que essa vergonha já passou há muito tempo.

Num mês de Agosto quando eu estava na sexta ou sétima série a minha escola mandou um recado avisando que teríamos uma homenagem aos pais lá. Aquelas coisas cafonas de sempre: jograis mal ensaiados, um aluno cantando mal uma música do Fábio Júnior e algum presente inútil que custasse menos que R$2,00. Fui pra casa com o bilhete e mostrei pro meu pai como sempre, já esperando a resposta padrão “Uh, filho, o pai vai viajar pra vender nesse dia, tudo bem?”. Eu sempre respondi “tudo bem” porque realmente estava tudo bem.

Ele sempre saiu pra trabalhar antes de acordarmos, geralmente passava mais da metade da semana fora trabalhando, passava muitos sábados e domingos se preparando para viajar e nunca foi aquele pai que sentava no sofá pra ver desenho com os filhos, até porque os desenhos passavam em horários em que ele geralmente não estava lá. Mas isso tudo nunca foi um problema porque nós sabíamos que ele estava fazendo isso pra cuidar da família e aproveitava cada folga que tinha pra nos levar ao clube, cachoeira, praia, pra nos ensinar a andar de bicicleta, ensinar matemática e todas essas coisas que jamais sairão da memória.

Mas depois daquele bilhetinho da homenagem do Dia dos Pais ele respondeu um surpreendente “Vou sim, filho”. Me assustei bastante, tentei argumentar que ele não precisava ir, que precisava trabalhar ou descansar ou qualquer coisa, mas ele realmente queria ir lá.

Pra quem não o conhecia muito bem, imagine um personagem da Praça é Nossa habitando a realidade fora da TV. A cada 10 coisas que dizia, 11 eram jargões. Se encontrasse 100 pessoas num dia, contava a mesma piada 100 vezes. Brincava com todo mundo, o tempo todo (inclusive em velórios). Agora imagine que você seja o menino não-popular da escola e seu pai chega lá aloprando com todo mundo, inclusive com as poucas pessoas que ainda te respeitam. E ele fez isso.

Chegou zuando todo mundo. Amigos, inimigos, professoras, todo mundo. Eu só abaixava a cabeça esperando ele não contar alguma coisa constrangedora minha pros meus colegas. Acabou a homenagem, ele me deu um beijo na testa e foi embora. Eis que então veio rindo a loirinha que já tinha seios (toda sala de sexta-série tinha uma loirinha que já tinha seios e você sabe disso, não me julgue). Pensei que ela ia falar que descobriu com meu pai que eu tinha medo de ratos ou que eu brincava com Comandos em Ação inventando nomes em inglês pra eles. Ela chegou e disse: “Cara! Seu pai é muito legal! Queria que o meu fosse assim também.”.

Oi?

Eu ali todo preocupado em passar algum vexame e na verdade meu pai era legal e eu não sabia. Dali em diante eu comecei a reparar e vi que mesmo ele ainda parecendo um personagem da Praça é Nossa (e eu assobiava o tema do programa pra ele o tempo todo), ele era tipo um daqueles personagens legais, tipo o Zoínho ou aquele que falava “Mestre, Uaaaalaaaa!”. Eu tinha orgulho de muitas coisas que meu pai fazia, mas só nesse dia eu aprendi a ter orgulho do meu pai.

Na semana passada o encontramos morto. E foi uma morte que realmente não inspira orgulho algum. Não vou mentir e dizer que não senti vontade de encher o corpo dele de socos por nos deixar de maneira súbita e inexplicável assim, ainda mais num momento em que fazíamos planos alegres com a família e projeções otimistas para os negócios. A morte dele merece tanto orgulho e compreensão quanto alguém que suja a cueca quando está com diarreia. Ninguém escolhe fazer isso, ainda mais quando realmente só se tem motivos para não fazer. Para a triste surpresa de todos, inclusive a dele, ele enfrentava uma doença que nem mesmo ele tinha conhecimento, e não se deve ter vergonha alguma disso. Não foi covardia, nem fuga ou desespero. Foi doença, e com doença não vem orgulho e nem vergonha, vem apenas compreensão.

Mas em meio à dor da perda e da tragédia, Deus escolheu apenas uma palavra para me consolar: Orgulho.

Nos ofereceram a maior sala de velório da cidade. Ela não foi grande o bastante (e nem chegou perto disso). Lá eu vi os meus tios, que ele sustentou e alimentou ainda adolescente. Vi também amigos antigos, que viajaram centenas de quilômetros, cada um com a sua história de como meu pai os animou, os ajudou, os consolou e até os salvou em diversas situações. Abracei pessoas que tiveram seu primeiro emprego graças a ele, outros que sustentaram suas famílias quando apenas meu pai acreditou na capacidade deles. Cantei hinos junto com pessoas que aprenderam a cantar sob a regência do “Malestro” João Rios, o maestro mais mala e exigente que já passou por esses lados. Ouvi os violinos de músicos profissionais que aprenderam a tocar e a amar música em um dos projetos gratuitos de musicalização que meu pai criou e se dedicou por anos. Sorri com pessoas que queriam morrer, mas desistiram depois de conhecer meu pai. Orei com pessoas que conheceram a Deus através de palavras do meu pai. Chorei de alegria e esperança com minha mãe e irmãos ao sentirmos a certeza de que meu pai está junto ao Pai.

Não saberei aqui na Terra o quanto mais posso sentir orgulho dele. A cada volta de viagem ele contava mil histórias de como Deus o usou na vida de outras pessoas, e nessa viagem final já ouvimos um tanto do quanto Deus o usou para chacoalhar os corações mais duros e acalmar os corações mais aflitos. Na Eternidade terei bastante tempo pra sentar com ele e Jesus pra ver os frutos da vida dele (e fazer piadas dessa história toda, é claro).

Infelizmente, em meio a todo esse orgulho cabe um pouco de vergonha também. Não por meu pai, mas pelas pessoas maldosas que criam e espalham os boatos mais absurdos. É normal numa situação inexplicável se buscar respostas, mas a maldade e o desrespeito das pessoas chega a incomodar um pouco. Desmentindo alguns dos boatos, nós não estamos quebrados financeiramente, o casamento dos meus pais continuava tão belo e exemplar como sempre foi, meu pai não cometeu crime algum e eu estou vivo (sério, até eu morri em alguns boatos por aí). E caso você tenha dúvidas sobre pra onde meu pai foi, te convido pra conversar um pouco sobre fé, graça e salvação.

Independente do que digam, não tem boato que vá tirar minha paz, não tem memória que vá diminuir meu orgulho pelo meu pai e nem mau conselho que me faça esquecer o que ele me ensinou. De herança ficou apenas a fé, e não há circunstância que a possa abalar.

Em nome da minha família agradeço as mensagens de apoio, as lágrimas, os abraços e as orações. É o momento mais difícil de nossas vidas mas, contrariando toda a lógica, nossos corações estão aquecidos e em paz. Agora entendemos a tal “paz que excede todo o entendimento” e sabemos, mais do que nunca, que Deus cuida de nós.

Quanto ao futuro, ficam agora a saudade e as boas memórias. E que ninguém queira fazer qualquer coisa pela memória ou honra do meu pai, pois ele mesmo nada fazia pra si próprio. Que a gente aprenda com o exemplo dele o que é viver uma vida de serviço ao próximo e de amor a Deus.

Até logo, pai.

Além de Silent Hill

Do Atari aos Playstations da vida eu sempre gastei muitas das minhas horas livres (e muitas das não livres também) imerso em algum jogo de videogame. Geralmente jogava alguma coisa de futebol ou atropelava alguma coisa no GTA, mas gostava basicamente de qualquer coisa. Porém um dos poucos gêneros do qual nunca fui muito fã era o de terror. Eu poderia dizer que, sei lá, nunca me pareceu muito legal esse negócio de monstros, fantasmas e zumbis, mas eu assumo: morria de medo de jogar essas coisas. Tomar susto não é uma coisa na qual eu sinto prazer na vida.

E tinha esse jogo medonho no Playstation 1 chamado Silent Hill. A história era a de um homem que viajava com sua filha e acaba capotando o carro na estrada de uma cidadezinha chamada Silent Hill ao tentar desviar de uma garotinha misteriosa parada no meio da pista. Quando ele recupera a consciência, sua filha havia desaparecido e ele passa a procurar por ela nessa cidade deserta tomada por criaturas estranhas, rituais de sacrifício ao capiroto e outros eventos macabros. A cada meio metro do jogo você trombava com alguma dessas criaturas saídas do inferno tentando te matar sem razão aparente. Na terceira esquina de Silent Hill eu desisti, entreguei o controle pro meu irmão e fiquei ali assistindo e torcendo por um final feliz (não é feliz o final, sinto muito).

Mas o que mais me causava pânico no jogo não eram os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e a morte chegando: era que você não via os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e quando menos você esperava, a morte já tinha chegado e você nem viu de onde. Tudo isso porque a cidade toda era tomada por uma neblina maldita que não te permitia ver da onde essas desgraças saíam. Veja bem, uma coisa é você lidar com monstros vindo na sua direção. Você corre pro canto, muda de arma e se prepara devidamente pra treta. Outra coisa é você andar meio metro e o bichão já chega te encoxando sem nem perguntar seu nome. Tá errado isso.

Mesmo tendo jogado menos de 5 minutos do jogo, no mundo real não consigo passar de carro por um trecho com neblina sem pensar que a qualquer momento uma menina vai aparecer parada no meio da estrada e eu vou acordar todo quebrado fugindo de monstros que cobiçam meu corpinho. E apesar de achar a neblina um dos fenômenos naturais mais loucos e bonitos, sei que ela é também um dos mais perigosos. Não por monstros ou coisas assim, mas ouço diversos casos de acidentes de trânsito causados pela falta de visibilidade, e eu mesmo já senti medo por dirigir em alguns trechos onde não fazia a mínima ideia do que vinha pela frente e sabia que não poderia parar porque quem viesse atrás não me enxergaria parado ali também. A sensação de impotência de não saber o que vem pela frente é uma das piores que podemos sentir dirigindo.

É também uma das piores que podemos sentir na vida.

Existem momentos em que sabemos perfeitamente pra onde estamos indo, conseguimos ver tudo o que vem se aproximando e temos tempo e calma pra tomar todas as boas decisões do mundo. Mas você anda mais 10 quilômetros pela longa estrada da vida e se depara com aquela coisa branca, fria e esfumaçada tomando toda a pista. Mais 500 metros adentro e já não se vê muito mais pra onde vai ou o que vem. Você tinha feito planos para a carreira daqui há 10 anos, você tinha feito planos de quantos filhos queria ter, você tinha feito planos de quais árvores iria plantar no quintal, onde iria passar o próximo Natal, que filme iria ver no fim de semana e o que iria almoçar amanhã. Mas agora você mal vê um palmo à frente e seu plano atual é simplesmente sobreviver.

Quando não se vê mais nada além de uma enorme indefinição fica difícil definir qualquer coisa para a vida.

Na minha infância, quando o dia amanhecia branco e gelado com aquela neblina cobrindo a rua eu já desanimava pensando no frio que faria no resto do dia. Eu era totalmente desfavorável ao frio, talvez porque quando estava frio eu não podia brincar no quintal. Mas depois de um tempo eu aprendi como a neblina funciona e percebi que ela não é tão má assim. Ao contrário das manhãs cinzas e de garoa fina que significam um resto de dia cinza, frio e de garoa fina, um dia que amanhece branco e tomado por neblina significa um resto de manhã e tarde ensolarados com céu azul. Sim, repare bem: quando amanhecer com neblina, o tempo vai abrir em poucas horas. (Não sei se isso se aplica a Londres e Gotham City.)

Passei então anos sabendo que a neblina era um prenúncio de um dia de sol, passei anos acordando sem conseguir ver o outro lado da rua e curtindo o céu com o azul mais bonito que existe horas depois, mas só me dei conta do quão verdade é isso depois de acampar há quase 2000 quilômetros de altitude. Estava na Pedra do Baú, um dos pontos mais altos do Estado de São Paulo e acordei de madrugada para poder apreciar o Sol nascendo lá de cima. Aos poucos o Sol foi aparecendo e o céu foi clareando lentamente, limpo, praticamente sem nuvens. Mas quando olhei pra baixo, a cidadezinha que ficava na beira do morro estava encoberta por uma densa neblina, como se alguém tivesse derramado um balde de gelo seco sobre a cidade.

Por um momento eu me esqueci do Sol nascendo e fiquei pensando o quão louco era olhar aquela neblina toda por cima. Fiquei pensando nas crianças acordando naquele feriado e se lamentando por acharem que não poderiam brincar no quintal. Fiquei pensando nos motoristas dirigindo a dez por hora com medo do que não viam. Fiquei pensando em como nos desesperamos facilmente quando não sabemos o que tem pela frente.

Eu sei o quão ruim é passar por momentos em que a gente não entende o que está acontecendo e que nada faz sentido. Todo mundo sabe como é. E mesmo com farol de neblina, farol de milha, farofa de milho, qualquer coisa, de dentro da neblina não se pode ver nada além daquilo que a própria neblina nos permite ver. Você não sabe bem pra onde está indo, mas sabe que ficar parado é ainda mais perigoso, então o medo da indefinição toma todo o seu foco. E é bom que o medo surja, porque você precisa dele para sobreviver e não quebrar a cara por excesso de confiança. Mas é um erro deixar o medo decidir por você.

As neblinas são passageiras, mas as consequências de nossas decisões nem sempre são. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ignorar que por fora de toda essa branquidão o Sol está brilhando, firme e forte. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ceder ao desespero e ignorar que além da névoa existe um céu azulado, e além do próprio céu azul existe Algo que comanda o Universo e que vê tudo que o rola dentro e fora da neblina, dentro e fora de nós, inclusive dentro e fora e de nossos medos.

E na verdade, o medo nunca escolhe. O medo priva. O medo exclui. O medo demole os sonhos e nos impede de experimentar muito do bom que a vida nos oferece.

Ah, se a gente soubesse que a neblina é sempre passageira… Ah, se a gente soubesse do céu azul que vem logo mais…

No fim das contas, Silent Hill não existe e nós somos atacados apenas pelos monstros criados pelo nosso próprio desespero. Se nos acalmarmos um pouco, perceberemos que enquanto passamos pela neblina da indefinição nos foi oferecido paz e cuidado o tempo todo.

O que importa é saber que depois de cada neblina existe um dia ensolarado nos esperando, e que se repararmos na voz que nos chama, a fé certamente nos conduzirá até lá.

O que os olhos não veem e o que as agulhas não mentem

“O que os olhos não veem o coração não sente”. Ok, talvez o coração não sinta, mas a dor aparece em qualquer outra parte do corpo você olhando ou não.

Aprendi quando era criança que o ferro de passar realmente é quente num dia em que não vi que estava com o braço encostado num ferro ligado. Só reparei que havia algo de errado quando fiquei confuso ao sentir cheiro de churrasco e uma dor absurda no braço ao mesmo tempo (o churrasco era meu braço, pra quem não entendeu). Repeti a mesma burrada depois com fornos e escapamentos de motos. Meus olhos não viram, mas minha pele sentiu, assim como minha cabeça sentiu quando meus olhos não viram que minha cabeça iria bater numa barra de ferro pontiaguda, ou como quando meus olhos não viram o estilete vindo na direção do meu dedo.

Boa parte das coisas que mais doem acontecem quando a gente não está vendo, justamente porque se a gente visse, desviaria pra não doer. Ninguém gosta de sentir dor (salvo essa galera curtidora do 50 Tons de Cinza lifestyle).

Dor não é legal. Dor geralmente dói.

Quando eu fiz 14 anos eu sofri por antecipação ao pensar que deveria tomar aquela vacina dos 15 anos. Antitetânica, doeu aos 5, doeu aos 10, vai doer aos quinze. As pessoas normais não gostam de tomar injeções, mas eu gosto tanto que enrolei um pouquinho e só fui tomar a dos 15 anos quando meu irmão me arrastou pro posto de saúde aos 17. Vale colocar aqui que o Bruno, o irmão em questão, foi a criança que mais chorava nas filas de vacinação. E como eu estava destreinado e vergonhosamente tremendo de medo quando a enfermeira começou a abrir a embalagem da agulha na minha frente, ele me deu a seguinte dica: “dá muita aflição ficar olhando, não olha pra agulha que é melhor”.

A moça veio, passou o algodão com álcool no meu braço e eu virei o rosto pro outro lado esperando a morte vir me buscar. Não morri, mas doeu de qualquer maneira. Será que doeria menos mesmo sem olhar?

Depois dessa vacina eu encarei muitas outras agulhas: vacina de gripe, anestésico, sedativo, o temido Benzetacil algumas vezes, tirei sangue, doei sangue e tomei inacabáveis 40 vacinas num tratamento de rinite alérgica. Não me lembro bem em qual dessas agulhadas eu resolvi ser macho e encarar a agulha perfurando minha pele, mas daí em diante eu aprendi que a dor não muda você vendo ou não.

Anos depois de ir ao postinho com meu irmão, eu o acompanhei até uma clínica veterinária para um dos piores momentos de nossas vidas. Ainda quero escrever direito sobre isso tudo, mas era um fim de tarde chuvoso e nossa cachorra de 15 anos, Sharon, estava ali para sua última tarde chuvosa. O veterinário conversou conosco, a examinou uma última vez apenas para se certificar, explicou todo o procedimento, nos deu um documento para assinar e a colocou deitada na maca. Era o momento de encarar as injeções, e meu irmão e eu estávamos ali encarando as seringas mais tensos e apreensivos do que nunca.

A primeira agulha foi uma intravenosa (e as veias dela não estavam colaborando, o veterinário teve que espetar a coitada mil vezes até conseguir achar uma que fluísse bem). Ela não esboçou muita reação e o sedativo que ele aplicou talvez foi só pra nós mesmo. Ele disse então que agora seriam as injeções com a coisa que faz parar o coração do cachorro.

Pegou a seringa na mão, o Bruno se debruçou na maca pra não olhar e eu resolvi que queria ver tudo. Conforme a agulha perfurava a mangueira da intravenosa, conforme o êmbolo ia deslizando lentamente e o líquido ia entrando nela, aquilo doía em mim e no meu irmão. Ainda foi preciso repetir esse processo com mais uma dose até a gente sentir o coração dela lentamente parando, mas enquanto isso os nossos estavam batendo todo tortos naquele momento. Não precisava ver para sentir, não precisava nem ser espetado para sentir. O que uns olhos viram, o que outros olhos não viram, o coração sentiu tudo.

Desviar os olhos da dor não diminui ela, assim como olhar também não diminui. A dor não é tímida e nem exibicionista assim. Ela simplesmente vem por uma razão e quer que a gente a entenda, centímetro por centímetro. Não quero entrar no mérito do que causa a dor, se é o pecado, se é provação, se é castigo ou falta de sorte, quem sabe. Seja qual for a causa, a dor quer causar algo em você. A dor causa aprendizado e é bom você não desperdiçar a chance de aprender algo com ela, porque ela pode querer voltar pra te ensinar de novo, e de maneira um pouco mais dolorosa, talvez.

Quem sabe você tenha que aprender a ficar longe do ferro de passar. Quem sabe você tenha que aprender a descer do lado certo da moto ou a não se apoiar no forno enquanto alguém assa um bolo. Quem sabe você tenha que aprender a olhar pra cima antes de levantar. Quem sabe você tenha que aprender a não tentar enganar as pessoas, quem sabe você tenha que aprender a martelar com mais calma, quem sabe você tenha que aprender a não se deixar iludir, quem sabe você tenha que aprender a valorizar as pessoas enquanto dá tempo, quem sabe você tenha que aprender a perder, quem sabe você tenha que ouvir o que Deus tem gritado dentro de você há muito tempo.

É preciso saber reconhecer a voz e o valor da dor e, mesmo em meio a lágrimas, sorrir de gratidão.

Cada dor é uma chance de aprender alguma coisa e cada cicatriz que ela deixa tem que ser encarada como um lembrete, não um trauma. Os traumas nos lembram apenas de como as coisas doem, mas as cicatrizes nos lembram de como sobrevivemos a mais uma dor.

O que é melhor, então: virar a cara ou olhar para a agulha? Tanto faz, a dor virá da mesma maneira, forte ou fraca, lenta ou rápida, da maneira que ela precisa vir, da maneira que você precisa sentir, ensinando o que você precisa aprender.

Não depende da nossa vontade, mas que o Pai afaste de nós estes cálices de vinho tinto de sangue tão quanto for possível. E que tenhamos fé e coragem para lembrar que a dor morre sempre antes de nós.

Minha decisão, não sei por quê.

Quando se fica tanto tempo encalhado solteiro, se tem muito tempo pra analisar as coisas. E analisar o mundo é um dos meus passatempos favoritos. Gosto muito de ficar olhando pra onde as nuvens vem e vão, de reparar como cada dia do verão fica mais longo e como em fevereiro o sol começa a se pôr mais cedo. Gosto de analisar as formigas desmembrando outros insetos maiores. Gosto de ficar analisando as pessoas na rua, imaginando o porque são assim, como vieram parar aqui e imaginar que tipo de trauma na infância as fizeram ouvir funk sem fone de ouvido.

Mas uma das coisas que mais me prendi a observar desde a adolescência são os casais. Não por inveja, carência ou algo do tipo, mas porque sempre achei curioso como pessoas que nasceram em lugares diferentes, em anos diferentes (às vezes épocas diferentes) acabam se juntando e resolvendo viver juntas, às vezes pra sempre. E crescendo neste mundo onde a vida tenta imitar a arte o tempo todo, a gente acaba se deixando levar por tanta besteira que fica difícil separar o que é Conto de Fadas do que é Vida.

Meninos crescem aprendendo que devem ser charmosos príncipes, ou no mínimo lenhadores muito habilidosos para merecer a mão de meninas que crescem aprendendo a esperar nas torres de seus castelos imaginários pelo cara que vai matar um dragão que elas mesmas criaram pra se defender do medo de se envolver de verdade com alguém. A gente cresce ouvindo o Fábio Júnior cantando sobre “a metade da laranja, dois amantes, dois irmãos” (que isso, Fabião?!) e outras fábulas de coisas que são até bonitas, mas que logo a gente percebe que não são bem assim.

Eu mesmo, até alguns anos atrás achava que Deus, num dia sem muito o que fazer, resolveu que o Rapaz A era predestinado à Moça A, o Rapaz B pra Moça B e por aí vai. Aquela velha história da tampa e das panelas. E passei até a achar que eu era uma frigideira nessa história toda. Mas se um dia o Rapaz A resolveu se casar com a Moça B e o Rapaz B estava interessado no Rapaz L, o rolê todo já foi por água a baixo. O mundo da Disney (do qual eu só curtia mesmo O Rei Leão, é claro) parou de fazer sentido aí. A vida real começou a bater à porta.

Num dia desses, de ócio criativo e provavelmente debaixo do chuveiro gastando mais água do que deveria, eu me propus a entender o porque as pessoas escolhiam umas e não outras diante dessa realidade de que não existem almas gêmeas, e de que maneira isso seria quantificável, já que pra mim o Universo todo pode ser mensurado de alguma maneira.

Criei uma teoria mirabolante e que, de fato, faz muito sentido. Imaginei que existe um sistema de pontos onde você analisa fatores etários, ambientais, estéticos/físicos, geográficos, econômicos e de personalidade/interesses, dá pesos diferentes para cada um desses fatores segundo suas prioridades, encontra uma nota de 0 a 10 e a confronta com sua nota de corte para cada situação: talvez para dar uns beijos numa festa; talvez sexo casual; talvez para namoro sem compromisso real; ou até mesmo para ficar a vida inteira juntos.

É tudo muito frio, mas no fim das contas, dentro da gente talvez seja assim mesmo. Um cálculo, racional em todos os sentidos da palavra, uma decisão fria e pensada sobre fatores quantificáveis, escondida por trás de palavras bonitas ou xavecos baratos.

Eu tinha certeza de toda essa minha teoria até ser confrontado com a seguinte pergunta: “Você acha que gostar de alguém é 100% decisão?”.

Não tenho dúvidas de que pessoas que decidem usar outras pessoas, mesmo que de maneira consensual, se deixam levar apenas por aqueles seis fatores de que falei anteriormente, e o fazem muitas vezes por questão de honra, de status, interesses egoístas e mais uns cinco baldes de más intenções. Mas isso não é gostar de alguém, é gostar de si próprio e usar alguém. Tem que haver algo mais do que apenas a matemática literal e sua média ponderada nisso tudo. Aquela pergunta me fez repensar toda a minha teoria.

Tudo que escrevo daqui pra frente não é bem pensado. Estou chutando um monte de coisas e talvez esteja redondamente errado em tudo.

Acredito hoje que gostar de alguém é 99% decisão. E que 99% não é uma coisa, é quase uma coisa. Não duvido que aqueles fatores frios sejam estes 99% da coisa toda, e de que muita gente se contenta e se precipita em arredondar tudo para 100% e viver uma vida 99% feliz junto com outra pessoa.

Acredito que ao longo da vida somos apresentados a tantas pessoas que preenchem estes 99%, às vezes várias de uma só vez, e que ficamos frustrados porque percebemos que alguma coisa falta para preencher o todo. Às vezes insistimos e mentimos pra nós mesmos por um tempo, mas este 1% faz toda a diferença. E eu acredito que, por mais clichê que isso soe, o 1% que falta é o que chamamos de Coração. E eu não faço a mínima ideia de como explicar isso. Mas sei que você me entende, e se não, espero que me entenda um dia.

Não digo que esse 1% é pensado e não quero romantizar muito essa ideia já tão mal resolvida do Coração. O que sei é que, sem saber porque, o Coração sabe muito mais da gente do que nós mesmos.

É o Coração que se acelera quando pensamos na pessoa, ou quando a vemos de longe, chegando devagarzinho e nem nos notando. É o Coração que se acalma quando se está junto, ou quando a pessoa diz que vai ficar tudo bem quando você acha que alguma coisa já não tem volta. É o Coração que palpita estranho e se aperta quando a pessoa está longe, ou quando as coisas saem do seu controle e você não sabe como consertar algo que fez de errado pra essa pessoa. É o Coração que bate forte demais e não te deixa dormir quando você se deita e sente o perfume da pessoa ainda na sua mão (ou o cheiro da pipoca depois de uma noite de filme, o que é meio frustrante).

É o Coração que bate numa frequência descompassada quando se aproxima do outro Coração, mas que num abraço sincero as notas se encaixam e todo aquele aparente descompasso vira música.

Eu já aposentei minhas certezas e não sei bem o que pensar sobre essas coisas todas. Tudo que eu sei é que o Coração, não sei por quê, bate feliz. E que talvez seja melhor raciocinar menos e parar pra escutar a felicidade dele.

Meus Reveiõns de roupa preta

Reveilon. Reveillion. Revelion. Revieon. Reveião.

Virada de Ano.

Nunca soube escrever o nome gourmet desse evento anual no qual comemos umas uvas passas escondidos enquanto olhamos, famintos, a comida esfriar. O chester lá, todo convidativo, e você abraçando todos os seus novecentos e trinta e dois parentes. Alguns deles ainda vão te dar aquele abraço de verdade, te balançando pra lá e pra cá por dois minutos, e talvez até te molhar o ombro com meia dúzia de lágrimas sinceras.

Todo mundo espera com ansiedade pelo novo ano, repleto de oportunidades e novos desafios a serem vencidos. Eu geralmente espero pela chance de comer logo o chester.

Quando era mais novo eu sempre fui o chato dessas festas. Não que eu tenha mudado muito, mas eu realmente não gostava do Reveião. Via alguns parentes fazendo aquelas promessas vazias e mentirosas, via gente brigada chamando “trégua de dois dias” de perdão, via gente comendo lentilha (credo, troço ruim). Mas o que mais me irritava era ver gente de branco. Nossa, como eu ficava incomodado com essa superstição da roupa branca.

Menino-rebelde-problema que eu era, comecei a usar preto nos Reveileões lá pros 11 anos de idade (quando Bug do Milênio ainda metia medo nas pessoas). Ficava com meu discurso anti-superstição apontado pra cada parente que viesse falar sobre o mau agouro que a cor da minha camiseta (e calça, e meia, e cueca) traria. Quase ninguém falava nada, até porque eu geralmente dormia de fome no sofá às 22h e acordava às 24h achando que estava num bombardeio em Bagdá.

Mas uma coisa que eu não entendia até pouco tempo atrás é que o Reveion é necessário. E escolher uma cor de roupa pra essa ocasião não é tão absurdo assim.

A vida humana é uma vida totalmente pautada por rituais e suas roupas específicas. Nossas mães escolheram uma roupa específica pra sairmos da maternidade no colo delas, e 365 dias depois nos colocaram em alguma roupa totalmente desconfortável para nosso primeiro aniversário. Nosso primeiro dia na escola teve o uniforme mais bem passado de nossas vidas. Já nosso trote da faculdade acaba com a roupa tão suja que é bom nem mostrar pras mães. Nossa formatura teve aquela roupa de padre e aquele chapéu do Professor Tibúrcio. Pra casar, as mulheres usam o vestido mais caro lindo que conseguiram achar. Os homens, curiosamente, usam o mesmo traje com o qual serão enterrados.

Cada um desses rituais tem a necessidade de sinalizar para nós mesmos e para os outros o fim de uma etapa e o começo de uma nova. E pra simbologia destes rituais funcionar bem, aliamos comidas, bebidas, lugares, frases e roupas específicas que remetem a coisas realmente importantes, algumas que talvez já se tenham perdido nas velhas tradições. É nessa simbologia aí que entram as cores das roupas. Ok, deve existir gente que realmente acha que a Hering tem poderes sobrenaturais e capacita cada roupa amarela dela a te trazer dinheiro pelos próximos 365 dias (ou que uma lingerie vermelha vai te trazer amor, coisa que já testei e continuo solteiro pra provar meu ponto de vista cético das coisas), mas o que acontece de verdade na maioria dos casos não é isso. O se vestir de branco é nada mais que reconhecer e dizer que espera a paz como uma prioridade no próximo ano. Usar amarelo não traz dinheiro, mas te lembra nesse ritual que você tem que correr atrás das coisas se quiser ter uma vida financeira diferente. O vermelho é porque tá com fogo no rabo mesmo, não tem uma explicação bonitinha.

E é pensando nessas coisas todas que eu decidi usar preto nesse próximo Reveilion. Não, não é uma recaída em minha rebeldia adolescente, é simplesmente um desejo de morte para o próximo ano.

Nos próximos 365 dias eu desejo que morra todo ódio que senti no último ano, e o amor tenha mais espaço no meu dia a dia. Desejo que cada consequência dos meus erros morram e interrompam a inércia da minha maldade. Desejo que meus novos traumas e medos morram, e novos rumos se tornem livres para eu seguir. Desejo que minha dificuldade em perdoar algumas pessoas morra, e a reconciliação seja uma grata surpresa para todos. Desejo que meus dogmas morram e me permitam ver o mundo sob novas óticas. Desejo que meus vícios morram e meus olhos se abram para o que não consigo enxergar ainda. Desejo que minha falta de fé morra e a gratidão pelas surpresas de Deus venha mais naturalmente.

Desejo morte à preguiça, à procrastinação, ao desperdício e ao desespero. Desejo o velho eu cada vez mais morto, pra que assim eu viva em novidade de vida.

Para o próximo ano eu desejo que a mentira que eu vivo morra, e a Verdade não tenha mais que dividir quarto aqui dentro de mim.

Já diria o falecido poeta, “Eu prefiro morrer do que perder a vida”. E eu desejo isso pros nossos próximos 365 minutos, dias e anos: que a gente entenda que o único jeito de não perder a vida de verdade, é morrendo para tudo que é de mentira.