Quanto tempo até não ter mais tempo.

Estes dias atrás comecei a esboçar um texto para postar no blog. Estava chegando meu aniversário e achei que seria legal escrever algo sobre como o tempo passa e a gente não percebe. Semana passada fiz aniversário e aquele esboço também.

Sim, passou um ano e eu nem percebi! Aliás, faz mais de meio ano que não consigo terminar um texto. É muita correria de trabalho, de projetos, de igreja, de saúde, de compromissos, aniversários e velórios, e o tempo vai passando. Pra piorar minha situação, toda hora sai uma série nova e o canto das sereias que habitam meu sofá me faz naufragar ali na frente da TV todo finzinho de noite.

O tempo passa, o tempo voa e as novas gerações já nem sabem mais o que é a Poupança Bamenrindus. Quando perguntam minha idade eu tenho que fazer contas, e de repente chega uma carta em casa me dizendo que já é hora de renovar a carteira de motorista. Pela terceira vez!

Eu sinceramente não sei o que acontece: quando somos crianças parece que um ano demora, sei lá, um ano inteiro pra passar. Porém, mais pra frente na vida temos a impressão de que tem Copa do Mundo e eleições mês sim, mês não. Não sei se é o excesso de atividades e preocupação que nos faz perder a capacidade de ver o tempo passar, ou se talvez tem algum tipo de neurotransmissor da percepção temporal que evapora da cabeça um pouquinho a cada ano, mas só sei que nunca percebi antes como o Natal chega tão rápido depois do Carnaval.

Com essas coisas todas na cabeça, outro dia tive um sonho meio doido que tem a ver com isso tudo. Sonhei que estava apressado com alguma coisa qualquer e encontrei um amigo que tinha descoberto uma jeito de ir para uma dimensão paralela. Ele me explicou que tínhamos que ir num beco e fazer um exercício de meditação por alguns segundos e assim iríamos parar nesta outra realidade. Apesar de todo meu ceticismo, resolvi tentar: fui pro tal beco, me sentei tipo indiozinho (só que flutuando, tipo Dhalsim), meditei por alguns segundos e quando abri meus olhos não entendi nada: tava tudo igual, só que diferente.

Parecia que eu não tinha saído do lugar, mas naquela realidade não tinha mais ninguém apressado e nem correndo. As coisas eram as mesmas, só que maiores. As pessoas eram felizes e tranquilas, o clima era mais gostoso e alguém veio me explicar que ali a vida era assim porque as dimensões eram maiores: o metro era maior que um metro e a hora era mais longa que uma hora. Mano do céu: minha mente explodiu na piração nerd do continuum espaço-tempo e eu nem sabia o que pensar! Mas ao mesmo tempo em que desejava ficar ali de boas pra sempre, algo me inquietava e me fazia entender que não era hora de ficar ali ainda: eu precisava voltar pra minha realidade porque tinha algo de muito importante pra fazer no meio de toda correria e pressa da onde tinha acabado de sair. Eu só não sabia o quê.

Acordei tão frustrado quanto acordava na infância depois de sonhar que tinha ganhado fitas novas de Mega Drive. Eu queria voltar para aquela realidade, eu queria viver sem correria, eu tava muito puto com esse tal de tempo. O tempo era meu inimigo número 1.

O tempo nos afasta. Ele vem de mansinho e leva embora a intimidade que temos com nossos melhores amigos. Ele corta as horas que queríamos usar pra matar a saudade de alguém e corre pra nos tirar o prazer de ficar perto de quem a gente ama.

O tempo nos oprime. É o despertador tocando e você mal dormiu. É o microondas demorando e já se passou metade do horário de almoço. É a pressão do prazo do projeto. É o boleto que você acabou de pagar e que o carteiro já trouxe a parcela seguinte no mesmo dia.

O tempo nos arrasta. Os anos passam e você não consegue acompanhar. As memórias evaporam, você se atrasa, o mês vira e parece que a Terra tá girando numa velocidade incompatível com tudo que você entende por relógio.

Mas apesar de toda revolta contra o tempo, temos que admitir: o tempo é inocente. O problema verdadeiro está na nossa relação com uma coisa chamada “vida”.

A frustração que temos ao não conseguir acompanhar a dinâmica da vida depois da infância nos faz terceirizar a culpa a uma mera dimensão do Universo. O tempo não é culpado pela nossa falta de foco no que importa, nem com nossa incapacidade de dizer não quando necessário. O tempo não é culpado por nossa bagunça e nem por nosso orgulho. O tempo não é culpado por nossa rebeldia e muito menos pelo nosso egoísmo.

O tempo não é o monstro que pensamos. O tempo é apenas limitado. E aprender a contar como são poucos os nossos dias é fundamental pra percebermos que só se vence o tempo fora dele.

É preciso aprender a enxergar a vida além do tempo.

É preciso aprender a olhar para o dinheiro e saber que ele é passageiro, e que não se leva um tostão daqui. É preciso aprender a enxergar que o trabalho é passageiro, e que toda gota de suor não importa do lado de lá. É preciso aprender a ver que o prazer é passageiro, e que não faz sentido viver em função dele. Ao mesmo tempo é preciso aprender a olhar para a dor saber que ela também é passageira e um dia acaba. É preciso saber que os bens são passageiros, e também a cultura, e a arte e a política. Nem mesmo o Universo é pra sempre.

Diante disso é preciso aprender a tomar atitudes que sejam eternas. É preciso aprender a cuidar do que se leva para além do tempo. É preciso usar nosso tempo para despertar os outros de que há algo maior que nossa frágil realidade temporal.

É preciso saber que existe algo além do presente, mas que é afetado pelas atitudes que tomamos agora.

Não sei se dá pra flutuar num beco em posição de indiozinho e ir parar num universo paralelo, mas sei que experimentar um segundo de uma realidade eterna é mais que o suficiente para se convencer de que a paz que buscamos pra vida só pode ser encontrada fora do tempo.

Que nós aprendamos que, acima de tudo, o tempo é passageiro, mas a vida não precisa ser.

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[Áudio] Relacionamento, infidelidade e amor.

Olás!

Eu sei, tô sumido. E nem tenho uma desculpa boa dessa vez. Tenho uns 50 rascunhos de textos pela metade e não tô conseguindo parar para concluir eles…

Mas quero compartilhar algo meio diferente hoje (só pra falar que tô menos sumido): esses dias atrás, pela primeira vez, eu preguei (ou dei uma palestra, sermão, chame como lhe for menos estranho) na minha igreja. Daí tenho a gravação do áudio aqui para vocês ouvirem.

Aproveitei o Dia dos Namorados para falar um pouco sobre relacionamentos e essas coisas doidas todas.

Pra quem não me conhece, sim, eu falo rápido e embolado. À partir de agora você vai ler meus textos imaginando um locutor de rodeio com paçoca na boca.

Grande abraço!

(ps: eu tô apanhando desse plugin do MixCloud… Mas vai assim mesmo.)

Qual é a boa pra 2017?

Vai ano, vem ano e eu continuo com uma dúvida que me persegue desde a minha infância: que raios o Claudinho e Buchecha queriam dizer quando cantavam “controlo o calendário sem utilizar as mãos”? Sempre imaginei eles mexendo com o pé naquele calendário de parede horroroso que a gente ganha no açougue, ou talvez eles tivessem poderes de telecinese, ou talvez eles simplesmente conseguiram decorar qual mês tem 30 dias e qual tem 31 sem ter que contar nos ossinhos e vãos dos dedos. Vai saber! Quem sabe eles apenas escreveram isso em meio a um “delírio de jogar futebol”.

Mas outra coisa que me incomoda há um tempo é que chega nessa época e eu começo a ver pelas ruas os carros com um adesivo de uma igreja escrito “2017 será o melhor ano da sua vida”. Todo ano é o mesmo adesivo, mudando apenas a data. Mas poxa, será que quem colocou o adesivo nesse último ano realmente acredita nisso? 2016 não foi dos anos mais fáceis não.

Esse ano tivemos tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo que eu sinto muita pena dos jornalistas que trabalharam na retrospectiva. Eles irão precisar de uns 10 anos de terapia depois de relembrar toda a maluquice de crise financeira, brigas políticas, desastres, guerras e tudo mais que  nos tirou o sono e a paz nessa última volta ao redor do Sol. E não bastando os 365 dias de desgraça, esse ano ainda era bissexto!

O tempo todo fomos bombardeados por más notícias: toda manhã eu ligava a TV no jornal e não saía pro trabalho antes de completar meu bingo mental com as palavras “Crise”, “Petrobras”, “Cunha”, “Lula”, “Lava-Jato”, “Impeachment” e “Desemprego”; chegava na empresa e o assunto era o estupro coletivo da menina no Rio, avião da Chapecoense caindo na Colômbia e mais um ataque terrorista na Europa; voltava pra casa cansado de tanta notícia ruim e descobria que os grupos no Whatsapp haviam se tornado os obituários oficiais de gente famosa: todo dia era a notícia de mais um artista que partia dessa vida.

Quando foi mesmo que o mundo virou um grande especial do Cidade Alerta?

Sempre concordei com a frase que diz que “todo otimista é um pessimista mal informado”, mas acho que em algum momento de nossa busca por uma vida sem alienação acabamos por nos embrenhar no outro extremo da informação: nos alienamos do bem.

Desde que Adão e Eva fizeram o favor de contaminar tudo com a maldade o mundo está caído e descendo ladeira abaixo, e não é surpresa nenhuma que tanta coisa ruim tem acontecido por aqui: assistimos indignados a absurda guerra na Síria, mas vivemos brigando uns com os outros por motivos extremamente banais; lamentamos a separação de casais famosos, mas traímos e incentivamos todo tipo de safadeza em prol de uma liberdade que apenas escraviza; acusamos nossos políticos de corrupção, mas a honestidade não tem dado muito as caras por aqui ultimamente; denunciamos a hipocrisia nos púlpitos, mas causamos divisão até mesmo dentro de casa por não sabermos lidar com nosso orgulho.

É muito ódio, é muita safadeza, é muita irresponsabilidade, é muita ganância, é muito ciúmes, e o pior de tudo: é muito natural.

Nada disso deve nos surpreender porque sabemos bem que essa é a natureza humana, caída, perdida e devastada por ela mesma. Tudo que vemos, ouvimos e conversamos nos afeta e nos leva a desesperar ainda mais. Mas não precisa ser assim: saibamos enxergar os sinais do que nos traz esperança.

Neste ano comemoramos quando cientistas e inventores permitiram que daltônicos enxergassem toda a beleza de flores pela primeira vez e, além de vários outros avanços contra o câncer, diabetes e Mal de Alzheimer, vimos pessoas que sofrem com Mal de Parkinson conseguindo comer sozinhas usando fantásticas colheres adaptadas que não tremem. Vimos policiais abandonarem seus postos para socorrer cachorro que estava passando mal e ajudar idoso a atravessar a rua. Vibramos com nossos atletas superando toda dificuldade e ceticismo e trazendo medalhas, recordes e orgulho para nosso país tão sofrido. Nos emocionamos com médicos permitindo um cachorro visitar um paciente terminal, nos inspiramos com igrejas construindo casas para os membros mais pobres, nos alegramos com brasileiros concorrendo a Nobel, Oscar e até prêmio de melhor jogador de video game do mundo. E tem muito mais que não aparece nos jornais: teve gente fazendo as pazes depois de anos sem se falar; teve gente alimentando quem não tinha o que comer. Teve cachorro rolando na grama. Teve festa de aniversário surpresa. Teve mensagem de madrugada falando que vai ficar tudo bem. Teve criança nascendo. Teve risada. Teve música boa. Teve comida boa. Teve piada ruim. Teve amor onde nunca se imaginou.

Até mesmo em meio à desgraça e à dor, se soubermos procurar, enxergaremos coisas boas. Neste ano tivemos a trágica queda do avião vitimando a equipe da Chapecoense, além de jornalistas e tripulação, e em meio à lamentação pelas falhas humanas e pelos sonhos despedaçados, encontramos um povo que não tinha a mínima obrigação de se comover conosco, mas resolveu nos dar um abraço maior que a tragédia que nos acometeu.

Nós focamos tanto no que há de mau no mundo e perguntamos onde Deus está quando a realidade nos bate com os dois pés no peito, mas é porque somos orgulhosos demais para assumir que a culpa, enquanto humanidade, é sempre nossa. Basta ceder um pouco desse nosso pedestal para que possamos reconhecer que Deus está, desde sempre, trabalhando ativamente pra nos trazer esperança apesar das consequências que nossas más escolhas produzem. Basta abrir os olhos para enxergar o quanto há de bom no mundo apesar de nossa natureza caída. E melhor que isso: quão doce é a esperança ao saber que estes são apenas pequenos sinais da paz eterna que nos foi prometida.

Não sei se o próximo ano será o melhor da sua vida e duvido que usar um adesivo no carro dizendo isto vá facilitar alguma coisa, mas torço para que nos próximos 365 dias saibamos ser gratos: que a gratidão nos encha de esperança ao crescermos um pouco mais nas piores dificuldades, e que a mesma gratidão nos inunde pela graça de receber o que é bom sem que mereçamos.

Que a esperança de um ano melhor não se baseie nesta nossa humanidade caída, mas nos sinais de que há alguém trabalhando para redimir o que parecia não ter mais conserto.

Neymar, nem eu, nem você.

Milhares de pessoas em pé ao redor de um campo. Bilhões de pessoas ao redor do mundo sentadas na beiradinha do sofá e estrangulando a almofada. Dez companheiros ajoelhados. Onze rivais secando. Quarenta e quatro metros de caminhada. Ele pegou a bola, deu um beijo no seu primeiro grande amor e a repousou a onze metros do abismo entre o sucesso e a maldição. Um som de apito. Todo mundo quieto e eu afirmei “Eu não queria ser o Neymar hoje”.

Como 99% dos brasileirinhos, eu também sonhei ostentar a camisa 10 e a braçadeira de capitão da Seleção. Eu vi Raí, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká carregarem o peso desse número nas costas, eu vi Dunga e Cafu ensinarem que a liderança vai muito além de um pano azul enrolado no braço direito (e vi Thiago Silva mostrando que essa responsabilidade não é pra qualquer um). Eu vi o futebol brasileiro ser motivo de piada em vários Jogos Olímpicos. Eu vi o 7×1 dois anos atrás. E agora eu e todo mundo víamos em Neymar a esperança do único título que faltava em nossa prateleira futebolística.

Ele já tinha feito um golaço, já tinha dado vários passes geniais, já tinha quase feito outro gol, já tinha batido no peito e encorajado os outros jogadores antes dos pênaltis e ficou com a cobrança mais difícil de todas. Qualquer coisa menor que a perfeição e tudo que ele havia feito não valeria de nada. Nem o Neymar queria ser o Neymar naquela hora.

Mas ele respirou, correu, bateu e o Planeta Terra deu uma chacoalhada com tanta gente pulando ao mesmo tempo. Eu dei um pulo, gritei “AEEE BRASIL!”, e já aproveitei pra falar tchau e correr porque estava 15 minutos atrasado pra dar um estudo sobre soteriologia na igreja (parece chato, e é mesmo, mas a gente fez ficar legal lá).

Enquanto dirigia o carro, não conseguia tirar da cabeça a imagem do Neymar comemorando o ouro sem marra nenhuma, agradecendo a Deus ao mesmo tempo em que soluçava de tanto chorar com a cara enfiada na grama. Não via a hora de voltar pra casa e terminar de assistir a cerimônia de premiação com todos aqueles caras que deram um pouco de alegria pra um povo tão sofrido como o nosso. Cheguei em casa, abri o celular e vi uma bela foto do Neymar com uma faixa escrito “100% Jesus” na testa e a legenda “Neymar diz ‘Vocês vão ter que me engolir’, parte pra cima de torcedor e o manda tomar naquele lugar”. Eita, Neymar…

Ao invés dos melhores momentos com dribles, passes e aquela cobrança de falta que até Rogério Ceni aplaudiu de pé, tudo que vi era o tamanho da incoerência desse rapaz que carrega Jesus na testa mas manda o próximo ir tomar lá. Os piores momentos dele, curiosamente, transformaram tudo que ele fez em nada mais que a obrigação. Eu não queria ser o Neymar mesmo.

Imagino como deve ser pesado ter vigilância 24 horas sobre sua vida. Imagino como deve ser conversar com seus colegas de trabalho tampando a boca porque vão fazer sua leitura labial mais tarde no Fantásico. Imagino como deve ser animador não conseguir dar um passo pra fora de casa sem tomar flash na cara. Imagino ter amigos que se importam mais com o que tenho do que comigo. Imagino muita oferta de sexo e nenhuma de amor. Imagino o Galvão Bueno me ligando Domingo de manhã. Imagino ter dinheiro suficiente pra me esquecer de Deus.

Imagino todos os meus pecados em destaque na capa do UOL.

Não estou defendendo o que o Neymar fez de errado, mas é muito fácil falar do pecado alheio quando ninguém sabe do nosso. É muito fácil apontar os erros dos outros, mas é bem complicado abrir nosso armário e deixar todo mundo ver o tanto de esqueletos que temos guardado durante nossa vida. Eu gosto de imaginar que no Juízo Final vai ter um enorme telão onde vai passar, humano por humano e pra toda a humanidade, tudo o que nós fizemos de errado por aqui. Imagina só passando todas as mentiras que nós contamos; imagina só passando um close de todas as vezes que olhamos pra bunda de alguém; imagina só passando todos os pensamentos de ódio que guardamos pra nós; imagina os históricos de internet que deletamos; imagina as brigas que tivemos; imagina a desobediência aos pais; imagina a indiferença com quem precisava; imagina a propina; imagina a avareza; imagina a sonegação; imagina a preguiça; imagina as vezes em que pensamos “vocês vão ter que me engolir”; imagina as vezes em que falamos “Deus te abençoe”, mas nosso coração gritava “Vai tomar no meio do…”.

Imagina se todo mundo soubesse como todo mundo é ruim.

O mesmo Jesus que Neymar amarrou na testa disse uma vez que é importante tirar a trave do próprio olho antes de querer enfiar o dedo no olho alheio pra mostrar que tem um cisco lá. O meu erro não anula o erro do outro, mas perceber que também erro me move a agir com amor quando vejo o outro errando também.

Cada um à sua maneira e segundo as suas fraquezas é atraído pro mal. Mais cego é aquele que só vê o mal no outro. E eu demorei muito pra aprender isso.

Minha vida inteira fui rotulado como menino 100% Jesus e por muito tempo eu tentei sustentar essa imagem, mas não existe super crente e eu passo bem longe disso. Me dá medo saber que muita gente me enxerga assim porque de certa maneira eu viro um ídolo, e daí pra virar um Judas sendo malhado em praça pública custa apenas um erro descoberto. E eu finjo muito bem, gente.

Pior que os erros que cometemos, é o erro de interpretação de texto quando lemos a Bíblia. Há muito, muito tempo atrás um tal de João Ferreira de Almeida, português gente boa, traduziu a Bíblia pro Português, e ele escolheu uma palavra bonita pra explicar o que temos que fazer quando virmos alguém fazendo merda: exortar. O problema é que todo mundo acha que exortação é sinônimo de bronca, chamar atenção. Mas não, procure aí no seu dicionário. Exortar significa animar. Simples assim.

Pra cada “não faça isso” da Bíblia, existe um “mas faça desse jeito que é bem melhor”. Nossa função não é a de apontar o dedo e levantar pedras pra condenar o erro dando bronca na pessoa, mas sim a de chegar no outro e falar “Ei, mano, assim dá merda. Vamos tentar desse outro jeito na próxima?”. Não tem nada mais eficiente pra parar de errar do que tentar acertar.

Nossa decepção com o erro do outro vem na mesma proporção que nossa expectativa. Mas o erro maior está em esperar algo de bom de gente que tem uma natureza tão corrupta e enganosa quanto a nossa. Esperar de um humano qualquer coisa além da natureza humana é idolatria.

E isso conta não só pro Neymar ou pra mim, mas pra você, pro pastor da igreja, pro padre, pra freira, pro faxineiro, pra empregada, pra sua mãe, pro professor, pro presidente e até pro seu vizinho ateu. Não existe gente perfeita, mas também não existe caso perdido. Somos todos barro, constantemente sendo moldados, mas teimosos em continuar rachando.

Que no dia do Telão Final, depois de toda a humanidade assistir os nossos piores momentos, Jesus delete esse arquivo e diga: você fez muita merda, mas vem cá que você é 100% meu.

Apaixone-se por alguém que não te merece

Ah, como eu queria viver noutros tempos! Nesses dias de touchscreens, selfies e Tinder todo o romantismo nos foge por entre os dedos. Bons tempos eram aqueles em que ficávamos a ver as moças passearem pelos bosques, cavalgávamos no fim da tarde pelas campinas ao encontro da amada para declamar todo o nosso amor com o joelho direito no chão, os braços abertos e as folhas de outono como testemunhas. E então, depois um pé na bunda, voltávamos pro feudo tocando no alaúde aquela música fossa do Frejat.

Seja no feudo ou na cidade, seja à cavalo ou espremido num metrô, se apaixonar de verdade é quase sempre aquele ato irracional que muitas vezes vai nos custar horas de terapia e algum tempo pra recuperar a dignidade perdida. Mesmo assim, todo dia me deparo com vários textos do tipo “Apaixone-se por uma pessoa que te faça rir”, ou “Namore alguém que ande de bicicleta”, ou ainda “Case-se com alguém que saiba o nome dos 151 Pokemons da primeira temporada” (mentira, eu só estou tentando me ajudar nessa). Todo mundo quer dar um pitaco de como você deve proceder pra encontrar a pessoa ideal pra passar o resto da vida junto. Todo mundo pinta a vida como um conto de fadas, mas ninguém conta que o príncipe só sabe falar de academia e a princesa tem mais bafo que o dragão do castelo. Não é por acaso que essas dicas geralmente não dão certo.

Em todos os meus fracassos amorosos alguém (geralmente minha mãe) sempre chegava em mim dizendo que foi melhor assim, que quando não é pra ser não acontece, que Deus está preparando alguém melhor pra mim, que “quem sabe sua prometida ainda nem nasceu” (tem coisa mais desesperadora do que ouvir isso com mais de 25 anos?). São sempre essas e outras coisas do tipo advindas de contos de fadas, livros de auto-ajuda baratos e forçação de barra bíblica.

Por muito tempo acreditei que um dia Deus gastou tempo planejando a moça A para o moço A, a moça B para o moço B e todo esse alfabeto pareado e destinado a se encontrar um dia para viverem felizes para sempre. Acreditava que toda panela tinha sua tampa e comecei a pensar que talvez eu fosse uma frigideira ou, sei lá, um rodinho de pia nessa história toda. Mas um dia vi minha mãe tampando a panela do feijão com um prato e parei pra perceber que a moça A namorava o moço A e depois o traiu com o moço B, que por sua vez era afim da moça C e usou essa situação toda pra flertar com a moça E e gerar ciúmes, o que revoltou o moço J, que foi fofocar tudo pro moço L, que era secretamente afim do moço R, que virou padre depois que a moça N morreu num acidente trágico antes do casamento deles. A teoria do caos e toda aquela baboseira do bater da asa de uma borboleta podem explicar bem todo esse tornado nos planos do destino depois que a moça A resolveu dar uma escapadinha.

Já me cansei de ouvir aquele papo de que “existe uma pessoa prometida” pra mim, mas a verdade é que ninguém nunca me prometeu nada disso. E duvido que tenham prometido pra você também (a não ser que vossa senhoria ainda esteja a viver no Brasil Colônia e já pagaste adiantado o dote ao pai da donzela).

Não bastando a falta de lógica nessa história de que as pessoas estão destinadas umas às outras, o grande problema reside no fato de que não tem como existir uma pessoa certa pra outra se todo mundo no mundo é errado. De Dilma Roussef à Megan Fox não existe gente perfeita neste mundo.

Portanto, desencane de buscar a pessoa certa pra você e comece a buscar uma pessoa errada, porque é o único tipo de pessoa que se vai encontrar por aí. Aprender a se perceber como uma pessoa cheia de defeitos é essencial para finalmente se enxergar no mesmo patamar de gente ruim que, surpresa, todo mundo está. E à partir daí se pode derrubar os preconceitos e expectativas irreais baseados em ideais de perfeição que deixariam até Platão enjoado. Se precisar, assista aquele filme de terror chamado O Amor é Cego.

Mas calma. Não estou falando que se deva abdicar de todos os gostos pessoais e coisas que se acha importante encontrar na outra pessoa, mas sim de que você não vai encontrar todos esses gostos pessoais e coisas que acha importante numa pessoa. Não no mundo real. Aceite isso e aprenda a lidar com o inesperado sem descambar para a frustração. Boa parte do que chamamos de defeito são apenas características que o outro vai carregar pra sempre, e depende exclusivamente de você se esforçar para ajustar um pouco suas expectativas para fazer caber a pessoa que se gosta integralmente nos seus sonhos.

No fim das contas, é muito bonita a ideia de nascer destinado para amar e ser amado por outra pessoa, mas a realidade é sempre mais bonita que a fantasia simplesmente por ser real.

Na vida real não existem príncipes cavalgando cavalos brancos para salvar donzelas em perigo, mas existe pegar dois ônibus pra conseguir passar uma hora ao lado da pessoa (e mais dois ônibus pra voltar pra casa). Na vida real não existem dragões acorrentados em castelos, mas existe parar tudo que se está fazendo para ouvir a outra pessoa chorar do outro lado do telefone por alguma coisa que deu errado no dia dela. Na vida real não tem bruxa malvada, mas tem aquele chefe que te segura até às 19h e te faz perder a reserva do restaurante bem no aniversário de namoro. Na vida real não tem sapo enfeitiçado, mas tem vício em foto de perereca. Na vida não real não tem torre de castelo, mas tem 12 andares sem elevador. Na vida real não tem maçã envenenada, não tem fada madrinha, não tem sapato de cristal. Na vida real tem câncer, tem boleto, tem verruga na testa, tem suor na mão, tem erro de português, tem tênis molhado, tem um filho de 5 anos, tem calvície hereditária, tem parente morrendo, tem diarréia no primeiro encontro, tem alface no meio do dente.

Na vida real não tem muita ficção.

E concorde comigo: é muito mais bonito se apaixonar com tudo isso acontecendo do que simplesmente porque o destino apresentou a pessoa prometida para você.

Há um tempo atrás uma das minhas amigas que mais me conhece na vida veio me falar que esperava muito que eu encontrasse alguma garota especial que me merecesse de verdade. Recebi aquilo respondendo um “Eita, tomara que não!”. Eu, que me conheço melhor que minha amiga, sei o quão ruim sou e o quão péssimo consigo ser se parar de me esforçar só um pouquinho. Além disso, não sou rico nem galã, e o que deveria compensar sendo legal e engraçado geralmente não sai como esperado. Então me parece um baita de um castigo alguém merecer uma pessoa cheia de defeitos como eu.

Porém, sabendo que no fundo ninguém realmente merece algo de bom, espero encontrar um dia alguém que me aceite. E espero estar pronto para aceitá-la também.

Acredito que tudo que existe e acontece de bom sobre a Terra nos ajuda a entender um pouco mais de quem Deus é e o que ele tem feito por aí, e no caso de se apaixonar isso fica ainda mais evidente para mim. Nosso coração é podre demais para aceitar o quão podres realmente somos, e toda essa presunção só evidencia o quanto estamos distantes de alcançar qualquer coisa de bom por nossa própria conta. Somos culpados do mau que somos e do mal fazemos, e não merecemos nada além da justa punição de morrermos solitários e separados do que quer que buscamos pra vida. Mas apesar dos defeitos, apesar dos erros, apesar de quem nós somos, o Amor se encarrega de absorver isso tudo e anular toda e qualquer rebarba que o impeça de nos aceitar ao seu lado onde não existe “até que a morte os separe”.

Não existe merecimento nenhum em ser amado. O nome disso é graça.

Se for pra se apaixonar, que não seja por quem te mereça.

Tenha paciência e deixe que o Amor faça o trabalho dele e una perfeitamente todas as coisas.

Se apaixone por graça, simplesmente.

Poderes mais ou menos trazem responsabilidades mais ou menos.

Sei que parece idiota, mas durante boa parte da minha adolescência eu torci pra que uma aranha radioativa me picasse. Eu lia aquelas histórias em quadrinho do Homem Aranha e também queria ser o menino magrelo e míope que sofria bullying (isso eu já era, na verdade) se transformando num cara com super poderes, que podia saltar de um prédio pro outro e disparar teia para salvar as donzelas indefesas de criminosos encapuzados. Eu sei, picada de aranha geralmente causa necrose nos membros, e no interior de São Paulo não existe tanto prédio assim pra se pendurar, mas, tirando a parte de usar uma roupa coladinha dessas numa região tropical, deve ser louco demais ter grandes poderes assim, mesmo que eles venham com toda essa baboseira de grandes responsabilidades.

Essa besteira de querer ser super herói na verdade começou mais cedo. Me lembro que quando criança fiz uma máscara azul pra usar com um colete azul de gosto duvidoso que minha mãe tinha me dado. Meu codinome era Netuno, e eu deixava tudo isso guardado dentro do guarda-roupa, daí entrava nele e saía fantasiado pra combater o crime imaginário do meu quarto. (Pensando agora, eu meio que literalmente saía do armário com outro nome e uma máscara combinando com um colete. Ok, isso tudo soa muito estranho agora…)

Mas enfim, cresci aprendendo que na vida não existem super heróis, mas sim toda aquela história bonita de que “existem é pessoas que fazem atos heróicos todos os dias, como os bombeiros, policiais, médicos e aquele cobrador de ônibus que te vê correndo feito um queniano e pede pro motorista segurar o busão mais um pouquinho”. E é mesmo, todos os dias vemos heróis ordinários que nos salvam do fogo, do assalto, da virose e do atraso no trabalho. Todos os dias se descobre mais um herói que salvou alguma criança em apuros, todo fim de campeonato tem o herói que salvou o time do rebaixamento, toda ano eleitoral tem o herói que vai nos salvar da corrupção e todo ano seguinte tem um herói que vai julgar o herói anterior por desvio de verbas públicas.

Nós procuramos heróis que nos salvem do crime, da tristeza, do tédio, da carreira, do chefe, da doença, da rotina. Nós procuramos heróis que nos salvem do tempo, da existência, da humanidade. Nós procuramos heróis que nos salvem de nós mesmos. E na primeira ação heróica que vislumbramos, nosso herói ordinário se torna um símbolo, e daí não fica muito distante o caminho pra transformá-lo num ídolo. E menor ainda é a distância entre o ídolo e a idolatria.

Idolatramos políticos que nos salvariam do comunismo, idolatramos ideologias que nos salvariam do consumismo, idolatramos empresários que nos salvariam do desemprego e idolatramos empresas que nos deixam desempregados. Idolatramos pessoas que nos salvariam da solidão. Idolatramos o casamento que nos salvaria da perdição. Idolatramos teologias que nos salvariam do compromisso real que nos convoca.

E, mais cedo ou mais tarde, todos os ídolos se mostram imperfeitos e se tornam decepção.

Me lembro de uma cena de 300 de Esparta quando o Rei Leônidas do abdômen trincado assume o máximo de sua fraqueza, tira sua armadura, solta seu escudo e, sob flechas inimigas, joga sua lança contra o andrógeno Imperador Xerxes, o grande herói e líder persa que se dizia um deus e era idolatrado por meio mundo. A lança viaja pelo ar e rasga um lado do rosto de Xerxes, que tenta de todas as maneiras esconder o sangue que revelava sua mera humanidade. Leônidas morre, mas mostra que seu adversário não passa de um ídolo de carne, osso e sangue como todos nós.

Criamos expectativas demais no que não é pra ser, e a mesma afobação que transforma heróis em ídolos se vale da decepção pra transforma-los em vilões.

Na contramão desta história, um certo Jesus entrou na capital de seu país aos gritos de “Salva-nos”. A galera viu que ele fazia umas coisas inexplicavelmente doidas, arrastava multidões e falava como um rei poderoso. Era o herói que esperavam há tempos pra salvá-los do pesado domínio romano, era o rei que todos ansiavam pra por fim a uma era de abusos e sofrimento, era o messias prometido que traria estabilidade e grandeza à Israel. Idolatraram o próprio Jesus, exaltaram o que ele nunca clamou ser, e aos gritos de “Crucifica-o”, mataram a fraude de um herói que não salvou nem a si mesmo.

Mas orgulhoso de sua morte, ele não escondeu seu sangue e nem reagiu, pois sabia que a salvação pela qual ele veio não se conquista por heroísmo e espada, mas sim por entrega e amor.

Nosso desejo por salvação não encontra nada além de frustração quando procuramos por heróis que nos salvem. E pior: nosso desejo por salvação geralmente não sabe ao certo nem do que quer ser salvo. Estamos danados no sentido não baiano da palavra, condenados, irremediavelmente perdidos.

Estamos à deriva no meio do oceano da perdição humana e não faz sentido pensar que alguém de dentro do barco tenha capacidade pra nos salvar dali.

Não faz sentido procurar no meio dos imundos quem nos salve da sujeira. Não faz sentido procurar na humanidade quem nos salve de ser humanos.

Não faz sentido procurar um herói quando se precisa de um Salvador.

A Santa Ifigênia, o Waze e o Cosmos.

“Você pega reto aqui na avenida, passou um, dois, três faróis, vira à esquerda, mas não na esquerda mais fechada da bifurcação, na outra, depois segue reto, vai passar três Assembléias de Deus, na quarta você entra na rua do lado direito, pega a faixa da esquerda, sobe na terceira rua à esquerda, depois direita, faz o retorno no balão, passou a faixa de pedestres apagada você volta pelo viaduto na faixa do meio, pega no farol à esquerda, sobe a quinta rua à direita e quando vir uma casa com portão preto e um vira-lata de poodle com labrador caramelo você anda mais uns duzentos metros e pergunta num posto ali do outro lado da rua que eles te ajudam. Não tem como errar.”

Tem como errar sim.

Invejo as pessoas que tem senso de direção e entendem essas coordenadas que os frentistas dão quando a gente tá perdido e para pra pedir informação. Eu me perco tanto dirigindo em lugares desconhecidos (e em conhecidos também, não vou mentir) que costumo dividir minha história motorística em AW e DW: Antes do Waze e Depois do Waze. É tão reconfortante você não fazer a mínima ideia de como chegar num lugar e ouvir “Vire à direita em 50 metros. Depois: na rotatória, pegue a terceira saída.” (e espero que você também tenha lido essa parte dando as pausinhas na frase igual à moça do GPS).

Essa história de ser perdido não começou aos 18 anos com minha carteira de motorista. Eu era aquela criança lesada que se perdia da mãe no supermercado, que ia no banheiro do shopping e depois não sabia voltar, e que na praia passava 10 minutos no mar e meia hora procurando o guarda-sol da família toda vez que ia dar um mergulho. Geralmente nesses momentos de perdição eu acabava encontrando o caminho de volta sem grandes problemas, mas teve uma vez em especial que eu realmente entrei em desespero.

Estava em São Paulo, na região da Santa Ifigênia (maior centro de muamba eletrônica do Brasil) e meu pai, crente de que com uns 12 anos eu já tinha responsabilidade na vida, me mandou ir ao carro buscar alguma coisa pra ele: “Lembra onde está o carro, né? Segunda rua à direita, depois anda 3 quarteirões. Não tem como errar.”. Tinha como errar sim.

Não faço a mínima ideia de quantas ruas e quarteirões andei, mas eu, menino nerd do interior, estava tão vislumbrado com aquele tanto de lojas de computadores, e videogames, e bancas de CDs piratas, e controles de Playstation, e fita de Gameboy, e chaveiro de Pokebola e “… eita. Onde eu tô?”. Andei mais ou pouco procurando o carro, mas lá tinha um monte de carros. Voltei procurando a rua da loja onde meu pai estava, mas lá tinha um monte de ruas com um monte de lojas. E um monte de gente. E um monte de mendigos. E, por mais idiota que soe, eu realmente pensei que não ia mais encontrar meu pai, que minha mãe ia parar na Praça da Sé com uma foto minha e eu ia virar morador de rua porque nasci sem noção espacial.

Não sei por quanto tempo fiquei perdido procurando meu pai, mas mais tarde ele me encontrou no meio daquele monte de gente, me abraçou e eu chorei de alívio feito uma criança com metade da minha idade.

Se perder não é legal.

Pela longa estrada da vida onde o poeta nos diz que a gente vai correndo e realmente não pode parar, não é incomum se perder e se perceber muito longe da onde realmente deveria estar. Seja a paisagem nos distraindo, a preocupação com quem está no retrovisor ou apenas alguém apontando o caminho errado mesmo, sempre tendemos a passar reto naquele ponto em que a vida precisa de uma mudança de direção. Às vezes é a carreira profissional que faz se perder da família. Às vezes é a falsa alegria dos comerciais que faz se perder de uma alegria verdadeira e gratuita. Às vezes é o medo disfarçado de segurança que faz se perder de novas experiências. Às vezes é a internet que faz se perder do mundo real. Às vezes é a inveja, é a bagunça, é a vergonha, a procrastinação, o remorso, o passado, o trauma, o conformismo, indiferença, maldade, falta de fé.

São essas coisas e outras tantas que nos desviam para a larga estrada da zona de conforto e nos afastam cada vez mais do que realmente importa.

Nos perdemos na verdade porque nosso piloto automático está configurado para um grande e absurdo plano de fuga.

Num dia desses, depois de tentar fugir deliberadamente de coisas que realmente importam pra mim, estávamos montando uma fogueira num acampamento e procurando algum pontinho azul no céu que nos desse esperança de uma noite sem chuva. A previsão do tempo já havia alertado e olhar pra cima apenas confirmou: só se via 50 tons de cinza nublado quase chovendo. Exercitei minha falta de fé cobrindo a fogueira com uma lona, fomos jantar e quando voltamos pra acender a fogueira nos surpreendemos pois, sem cair um pingo, já não se via uma única nuvem no céu. Enquanto a fogueira queimava, parei pra olhar pro alto e realmente não me lembro de ter visto tantas estrelas assim na vida. Talvez eu nunca tivesse reparado o quão grande isso tudo é. Talvez eu nunca tivesse me achado tão pequeno assim. Como de costume, comecei a viajar.

O Universo é realmente algo enorme e se a gente acha que a Terra é grande é porque a gente é realmente muito minúsculo mesmo. Deste cantinho da nossa galáxia eu estava contemplando um pequeno pedaço de um todo tão grande, mas tão grande que me fez me sentir menor que o nada.

E como é fácil se perder na grandiosidade do Universo sendo tão insignificante e frívolo.

Naquela noite, reafirmei pra mim mesmo que sou pó, mas fui relembrado que eu, um nada perdido no espaço, sem capacidade alguma de voltar com minhas próprias pernas, estava de repente no exato lugar onde deveria estar, não porque acertei o caminho, mas porque fui encontrado e guiado até lá.

Do lado daquela fogueira, sob o vasto manto estelar que me cobria, eu, que sou um cisco cósmico senti o Pai me abraçando e me aquecendo, como quem diz “Ei, olha como o Cosmos é lindo. Ei, você é parte disso tudo que eu criei.”.

Eu, um pontinho insignificante do Universo, de repente sou importante para alguém que é maior que o próprio Universo.

A verdade é que todos nós iniciamos esta curta viagem terrena já na contramão e nossa natureza nos faz querer fugir cada vez pra mais longe, até o ponto em que já não fazemos a mínima ideia de onde fomos parar.

Mas a boa notícia é que tanto faz como ou quanto você se perdeu. Nada disso importa.

Basta reconhecer estar perdido para finalmente ser encontrado.

Agridoce

Já passava de uma da madrugada. O filme tinha acabado de terminar, o pessoal começou a se levantar pra ir embora e eu comecei a pensar em como matar minha fome noturna. Tinha sobrado brigadeiro de colher que as meninas fizeram pra comer durante o filme, mas minha mãe tinha feito peixe frito na janta. Me bateu o dilema: Brigadeiro ou peixe? Doce ou salgado? No meio do embate moral que se formou dentro de mim, ouvi uma voz vindo de dentro que me disse: “Come tudo junto, Thales”.

A voz era o sono, eu sei, mas eu decidi segui-la e peguei um pedacinho do filé de merluza empanado, cobri com um pouco de brigadeiro e comi com a exata cara de nojo que você está fazendo agora. E me assustei, porque ficou bom. Sério. Peguei um pedaço maior, tentei de novo pra ver se não era alucinação, mas não, realmente tinha ficado muito bom. E quando digo bom, não me refiro a comer batatinha com Sundae do Mc Donalds (isso as pessoas fazem só pra chamar atenção), mas talvez, debaixo do olhar de desaprovação de quase todos ali, eu tivesse acabado de descobrir o Santo Graal da improbabilidade de gostos misturados.

Segundo minha enciclopédia mental de cultura inútil, o que a gente geralmente chama de gosto é na verdade o cheiro da comida. Existem apenas cinco gostos que nossas línguas são capazes de discernir: o ácido, o doce, o salgado, o amargo e o umami. Sim, existe um treco chamado “umami” que ninguém sabe realmente como é, mas que todo mundo concorda que é gostoso. O resto todo é apenas o cheiro da comida, e essa é a razão pela qual a comida fica sem gosto quando estamos gripados, ou porque tampamos o nariz quando vamos tomar aquele remédio com delicioso gosto de chão de hospital.

Mas fora toda a complexidade do que é gosto e do que é cheiro, o divertido mesmo é misturar coisas inesperadas na cozinha. Já fiz algumas boas experiências, como o frango grelhado com morango, que fica ótimo em um sanduíche com queijo, por exemplo; ou o filé de abacaxi temperado e assado à manteiga, que vai muito bem com omelete e champingnon; e uma vez coloquei pedaços de chocolate refogados ao alho no molho de tomate para acompanhar macarrão, e ficou realmente bom. É claro que algumas vezes fracassei, e te digo pra evitar colocar limão em qualquer vitamina com leite, não tentar comer Sucrilhos com Sprite e jamais jogar uma colher de Nescau na Coca-Cola.

O interessante dessas misturas é que a gente descobre que o doce não é o contrário do salgado e nem o ácido o inimigo do amargo, mas ambos os gostos podem coexistir fazendo festa na boca. Eu posso colocar sal na manga e experimentar o doce e salgado ao mesmo tempo, assim como posso colocar limão na rúcula e sentir o ácido e amargo juntos. Ou posso colocar sal na manga, a manga na rúcula e mergulhar tudo em suco de limão pra tentar descobrir finalmente o que é o umami, e ainda não vou descobrir o que é. Mas além dos gostos que sentimos na língua, as sensações que sentimos na vida também são assim.

Certa vez compartilhei algumas dessas experiências culinárias com um Chef de Cozinha de verdade e, obviamente, ele me disse que sou retardado e tinha fumado maconha pra experimentar essas coisas. Mal sabia ele como era lá em casa…

Meu pai era o mestre da nojeira na cozinha. Eu imagino que ele tinha algum problema no paladar ou olfato porque sempre comia comida azeda ou estragada sem perceber, mas além disso não era estranho entrar na cozinha e o encontrar colocando chuchu em cima de bolacha Passatempo, misturando jiló com doce de figo e mel, ou comendo pão com abobrinha, manga e amendoim. Não posso negar que depois de um tempo o estranho era vê-lo comer alguma normal. E também não posso negar o quanto ainda acho anormal ter que falar dele apenas no passado.

Há pouco tempo atrás eu tomei o café da manhã mais estranho da vida. Me lembro que bebi um suco de laranja, comi um Polenghinho e uma barrinha de cereal, mas por ter encontrado meu pai tragicamente já sem vida há algumas horas, senti apenas um amargo intenso em tudo que experimentei naquele dia. De repente comer tomate com gelatina ou qualquer outra mistura absurda que ele fazia parecia ter mais sentido do que tudo ao redor. O amargo da tristeza que eu sentia era tão forte que me impedia de perceber qualquer outra coisa. Mas aos poucos comecei a sentir algo estranho e improvável.

“É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia a poesia do velho Vinicius, e aprendi assim minha vida inteira de que ou se sente alegria ou tristeza. Mas conforme o baque foi passando, eu percebia que, alheia à toda a tristeza que sentia naquele momento, havia ainda um sentimento destoante, uma estranha alegria latente dentro de mim. Apesar de todo o medo e insegurança que fazia os músculos do meu coração oscilar, meus músculos da face repuxavam estranhamente me colocando um sorriso improvável no rosto. Eu não entendia bem da onde vinha, mas não queria abrir mão daquela alegria estranha que vez ou outra se deixava sentir ali no meio de toda aquela bagunça.

Já ouvi gente dizer que a alegria é uma invenção moderna e que a busca por ela é uma jornada sem sentido. Por outro lado, não é incomum ouvirmos que precisamos fazer ou ter certas coisas para sentirmos alegria. Ligamos a alegria à realização profissional, aos relacionamentos amorosos, à saúde, ao dinheiro na conta do banco ou ao jogo do Corinthians (se perder, a gente fica alegre, é claro). Mas isso tudo não passa de distração, como uma sobremesa doce após o almoço. E não me entenda mal, distrações e sobremesas são sempre bem vindas. O problema é vincular sua alegria com coisas tão efêmeras e imperfeitas quanto dinheiro, romances ou o ataque do Timão. Se sua alegria é tão falha assim, que triste ela é!

A alegria verdadeira e de que precisamos geralmente passa despercebida o tempo todo. Alheia a todos os sabores amargos e doces que a vida nos oferece, separada de toda tristeza e distração que nos atinja, a alegria está ali escondida, insípida, inodora e incolor, dando liga a cada um dos sabores. A alegria que precisamos não dá cárie nos dentes, não faz subir nossa pressão arterial e não nos coloca uma careta engraçada no rosto. A alegria que precisamos não tem prazo de validade, não estraga fora da geladeira e não mancha roupa alguma.

A alegria que precisamos nos refresca a alma. A alegria que precisamos nos saceia a sede e nos permite experimentar o equilíbrio de tudo que a vida nos oferece. E mais que isso, a alegria que precisamos nos oferece vida.

O velho Vinicius de Morais uma vez disse também que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É realmente muito triste esse ponto de vista onde a tristeza não cumpre sua função de nos levar à reflexão e à uma consequente mudança de pensamento, mas ao contrário, nos escraviza e nos leva cada vez mais pra baixo, cada vez mais fundo.

Porém, é no fundo do poço que se encontra água limpa.

Não desejo isso a mais ninguém, mas chegar tão lá embaixo é uma das maneiras de se aprender esta verdade. Porém a boa notícia é que não é necessário ir tão fundo assim: a alegria verdadeira que precisamos nos é oferecida o tempo todo graciosamente e de graça. A alegria verdadeira não se vende em galões de 20 litros e não se acaba com má gestão da Sabesp. A alegria verdadeira não se seca com o calor e não se suja com nossa podridão. E o melhor de tudo: não importa o tamanho da nossa sede, beber dela uma vez já é o bastante pra saciar uma vida toda.

Os que tem sede, venham. Os que choram, bebam. É tudo de graça. É tudo graça.

Felizes os que choram, porque o choro acaba. Felizes os que choram, porque a alegria jorra pra eternidade.

O legal do Vô

(Este texto foi publicado originalmente num livro de homenagens e memórias do meu avô, João Sales Rios em Julho de 2015)

Geralmente é indelicado rir de doenças, mas existe uma síndrome chamada de Síndrome de Witzelsucht (juro que não inventei qualquer coisa escrevendo com o cotovelo), também conhecida como Doença do Trocadilho. É uma doença rara, causada por um algum dano ou tumor no lobo frontal direito do cérebro, e o sintoma mais comum dela é a pessoa ficar fazendo trocadilhos o tempo todo. Trocadilhos, sério. Eu seria um ótimo candidato a ser diagnosticado com esta síndrome se não fosse o fato da minha família inteira ser incrivelmente besta.

Dos meus sobrinhos de 1 ano ao meu avô com seus 80-e-todos anos de pura ruga e calvície, todos os Rios riem, brincam e fazem piadas com tudo o tempo todo. Seja em aniversário, almoço, fila do pão, velório, tudo é potencialmente engraçado e guardar a piada pra si é pecado. E algumas das cenas mais engraçadas e bacanas da minha infância me lembram de que esse jeito besta de ver tudo na vida não é algo genético, mas sim ensinado e lapidado desde pequeno por aqui. Meu Vô João sempre fez e continua fazendo isso com maestria.

Nunca joguei futebol de botão com meu avô, mas me lembro de quando ele nos visitava e ficava chorando de rir quando o pau começava a quebrar no Dragon Ball Z, vibrando e fazendo piada a cada soco e chute no desenho japonês como se fosse disputa de cinturão de boxe. Durante as refeições, pioneiro que é e não contente em fazer a piadinha do “Pavê ou Pacomê” (até porque ele é diabético, não dá pra brincar muito com doce), ele criou e sempre repete a piada de que aquilo na garrafa é uma “Limonada, mas de limão… nada”. Mas fora os trocadilhos, talvez a cena mais engraçada das que tivemos juntos foi uma vez em que ele pegou meus bonecos do Comandos em Ação, os colocou sentados em fileiras, e deixou dois na frente dos outros. Um destes ajoelhado e o outro com a mão na cabeça do primeiro.

— Que que é isso vô?

— Isso? Um culto pentecostal, Thales. Tão exorcizando esse rapaz aqui, ó que bacana! Sai demônio!

Gênio. (não fazia a mínima ideia do que era um culto pentecostal, ri de verdade disso só anos mais tarde.)

Não me lembro de tê-lo visto uma única vez mal humorado durante minha infância. E a alegria dele aumentava ainda mais quando estava trabalhando em alguma igreja. Foi evangelista durante anos, um trabalho simples e mal remunerado, mas o cumprimento da vocação estampava sempre um sorriso naquela cabeça careca.

Homem simples, nasceu na roça da Bahia, morou na periferia de São Paulo e se mudou pro anonimato do interior. Nunca foi famoso, nunca foi notícia de jornal, nunca realizou atos heróicos e nunca foi um fora da lei. Nunca foi rico, e imagino que nunca quis ser. João, baiano, morando em São Paulo: mais um pra estatística.

Fico imaginando que muitos Joãos deste mundo se preocupam com o que vão deixar para o mundo e suas famílias quando daqui partirem. Heranças, dívidas, legados. No quesito herança, meu vô já distribuiu a herança dele pra todos os filhos e netos homens: calvície. E acho que legado não é uma coisa que preocupa muito a cabeça lustrosa dele. Sempre apreciei a calma que ele tem, aquele tipo de calma que só aparece junto com uma fé genuína de quem sabe que realmente não temos controle de nada, mas cremos em alguém que controla tudo e cuida de nós. E essa calma aliada à fé não nos permite cair numa busca irrelevante e vaidosa por uma vida de relevância.

O legado do velho João, baiano e anônimo, não tem sido construído na direção de multinacionais, nem na política ou na artilharia de algum Campeonato Brasileiro do século passado. Não consigo imaginar, por exemplo, uma rua com seu nome daqui 50 anos. Mas entre erros e acertos ele passou a vida inteira contagiando o mundo ao seu redor com uma visão de servir e amar ao próximo que às vezes passa despercebida, mas que impactou e transformou muita gente. Pode parecer mais um João apenas, mas quem está por perto reconhece todas suas qualidades.

A coragem de largar tudo pra trás, embarcar num caminhão empoeirado e carregar a família inteira pra um novo mundo. A hospitalidade e a boa vontade de fazer caber mais de 30 pessoas num sobradinho pequeno. A seriedade para educar os filhos no caminho certo. O bom humor pra alegrar os netos quando os pais estão sérios demais. A força pra superar tragédias. A paciência pra recomeçar tudo de novo. A jovialidade que mostra que não há idade para amar outra vez. A alegria de servir a todos. A gratidão ao Criador o tempo todo.

Deus não deu a ele riqueza nem fama. Deu filhos. Um monte deles. E esses filhos tiveram outros filhos, e já vemos os filhos destes também. Porém, mais importante do que os filhos, netos e bisnetos, Deus um dia deu a ele uma vida nova, e essa mudança reflete diretamente em cada segundo das vidas de seus descendentes. E será assim por pelo menos mais umas 997 gerações.

É impossível contabilizar quantas vidas foram transformadas direta ou indiretamente pela vida deste simples baiano chamado João. Tal qual os patriarcas, um dia ele partirá para o Céu sem ver todos os frutos de seu trabalho.

Talvez daqui cem anos, o nome João Sales Rios seja esquecido. Talvez a casinha no alto do morro nem esteja mais lá e a horta, tão bem cuidada, já tenha virado um concreto qualquer. Talvez não sobre registro nenhum pra contar história e limão nenhum pra limonada. Mas ainda assim, o seu real legado continuará vivo em algum lugar. Legado esse que ele ganhou e que também quero deixar aos meus filhos, pois dinheiro, imóveis e fama, nada disso realmente importa. Não há legado melhor do que ele nos passou. Não há legado maior que a fé.

Siga bem, caminhoneiro!

Quando eu estava na oitava série não me preocupava muito com o futuro. Alguém se preocupa com o futuro na oitava série? Acho que não também. Mas me lembro que numa noite qualquer eu folheei um daqueles Guias do Estudante da Abril de um dos meus irmãos que estava na fase do vestibular e fiquei ali vendo o nome dos cursos, quantas estrelinhas cada um tinha e pensando no que eu queria ser quando crescesse. Eu sabia que era razoavelmente bom em desenhar e gostaria de encontrar alguma profissão em que pudesse usar essa praga esse dom.

Arquitetura? Nah, ficar desenhando casa e usando régua é chato. Artes Plásticas? Vixi, odeio tinta, melhor não. Então um irmão meu me disse sobre Desenho Industrial. Pensei o que todos pensam: “Ficar desenhando parafuso e peça de máquina? Tem algo mais entediante que isso?!”. Mesmo assim fui ler a respeito e quatro anos mais tarde lá estava eu de cabelo raspado indo para as aulas de Desenho Industrial (que não tem nada a ver com peças de máquinas ou parafusos, acredite em mim).

Mas conforme o curso foi passando eu não podia fingir não ouvir as conversas dos veteranos sobre o quanto era difícil arranjar trabalho e o quão mal se recebia nas empresas. Vi muita gente largando o curso, outros prestando concurso pra trabalhar de caixa em bancos e até descobri que um veterano trabalhava de drag queen em boates à noite (sério isso). Me bateu um desespero: eu não conseguiria passar num vestibular de novo, eu não suportaria trabalhar num banco e minhas pernas eram peludas demais pra virar drag (não que essa fosse uma possibilidade real, mas minhas pernas são realmente peludas).

Na época eu era estagiário em um estúdio que estava passando por uma fase de vacas bem magras, beirando a anorexia mesmo. Via meus chefes preocupados com os clientes que estavam sumindo, as contas que não paravam de chegar e os trabalhos cada vez mais escassos. Numa tarde dessas eu estava sozinho com um dos chefes na sala do estúdio e contei pra ele que estava preocupado com essa profissão que escolhi, que estava com medo de fracassar e não ter grana pra sustentar uma família ou algo assim. Me lembro que ele parou, olhou bem nos meus olhos (dava uma certa aflição, ele realmente não sabia conversar sem olhar pros seus olhos o tempo todo) e disse algo que fez todo o sentido e me acalmou de uma maneira tal que nenhuma crise posterior durante a faculdade me abalou mais.

Sei, vai soar patético da minha parte, mas eu não me lembro o que ele disse. Não mesmo, me desculpe.

Mas o importante naquele momento não foram as palavras que ele usou ou olhar constante e  constrangedor direto nos olhos, mas foi perceber que não era apenas ele dizendo ali naquele momento, que, de alguma forma absurda, Deus respondia minhas orações através daquele cara que, até onde eu sabia, nem cristão era. Por trás das palavras que eu ouvi e não me lembro o que eram, percebi Deus dizendo “Calma, Thales. Eu estou cuidando de tudo, confie um pouco mais em mim”.

E eu tenho tentado confiar. Mas tem hora que é foda.

Desculpe se seus olhos são sensíveis a palavrões, mas “difícil”, “tenso”, “ruim” ou outros sinônimos são apenas eufemismos quando a coisa realmente tá foda.

Você sabe do que eu estou falando: Quando a situação aperta, quando a pressão está insuportável, quando as dificuldades te cercam e parecem querer sugar sua alma, quando você está tão sufocado que quer colocar um maldito anel no dedo e ficar invisível a todos ao redor (mesmo que o Olho de Sauron te veja, o que não é muito bom). Quando nada faz sentido e tudo te sufoca até a sua fé começar a naufragar.

O que acontece é que nós somos seres imperfeitos e fingimos que sim, mas não vemos nada há um palmo de nossos narizes. Essa limitação nos cria uma ansiedade e nos faz querer tudo agora, tudo pronto e tudo certo. O imediatismo tenta nos convencer de que o que não está certo, pronto e disponível não serve e deve ser trocado por algo que nos faça feliz já. Nós pedimos a vida num fast-food, postamos uma foto no Instagram e devoramos tudo sem nem sentir o gosto do que passou por nossas bocas. Queremos tudo fácil, queremos tudo fútil, queremos tudo inútil.

A verdade é que nós temos medo da dor, da doença e da frustração. Não porque elas nos fazem mal, mas porque nós não queremos ser confrontados por elas, e porque esta confrontação nos mostra o quanto temos errado e o quanto ainda precisamos aprender com mais dores, doenças e frustrações. Pare pra pensar: ninguém tem medo de errar, ninguém tem medo de falhar ou estar completamente enganado. Nunca vi um jogador de futebol chegar no treino e não querer bater um pênalti com medo de errar, ou um pianista não tocar o piano sozinho em casa com vergonha de ouvir a si mesmo errar uma nota ou outra.

O medo não aparece nessas coisas. O medo aparece quando pode doer. O medo aparece quando pode matar. O medo aparece quando as frustrações podem te corroer, quando podem zombar de você ou pior, quando você mesmo pode achar que é um total fracasso.

Como poderemos aguentar tamanha dor? Como poderemos sobreviver? Como poderemos viver com tamanha vergonha? E tudo isso se soma ao não saber o que comeremos, o que beberemos, com o que nos vestiremos, o que dirigiremos, onde moraremos, com o que nos sustentaremos, com quem nos casaremos, no que trabalharemos e outras questões que jamais responderemos. Não agora. Não assim.

Nos últimos dias me perguntei isso tudo e um pouco mais. Tava foda. E continuo sem resposta nenhuma, na verdade. Continuo com os mesmos medos. Mas, assim como Deus um dia usou meu chefe pra falar comigo, hoje ele resolveu usar um parachoque de caminhão. Um caminhão mesmo, pequeno, velho, enferrujado, com pneu furado, estacionado torto e na contramão da esquina de casa. Já está largado ali há umas duas semanas.

Depois de alguns dias muito doente, confuso e frustrado eu saí do Netflix, fui lá pra fora e vi que, independente de tudo que eu li e conversei com diversas pessoas, Deus queria mesmo era usar o parachoque daquele caminhão pra falar comigo em quatro palavras tortas e mal pintadas “Deus cuida de nós”.

Eu sempre soube disso, mas eu precisava saber de novo.

Eu tenho medo de ficar de novo com tanta febre e dor como nesses dias, mas eu sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que meus planos todos vão por água a baixo, mas sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que coisas que me doem hoje talvez nunca realmente parem de doer, mas ei, Deus cuida de nós.

Ele cuida de nós mesmo que a gente esteja parado. Mesmo que a gente esteja enferrujado. Mesmo que a gente esteja torto, com o pneu furado e na contramão, ele continua cuidando de nós.

Toda a dúvida, todo o medo, toda dificuldade realmente não tem porque ter espaço por aqui quando me deparo à incrível verdade de que o ser que fez e comanda todo o Universo realmente se interessa por cada crise tonta que eu passo. E mais do que isso: ele resolve cuidar dela ainda.

O que eu desejo para nós é que a gente saiba aprender. As dificuldades doem, nos abalam e roubam nossa paz, mas cada dia trará sua própria dificuldade, e cada dificuldade será uma oportunidade de aprender algo novo e de reafirmar que, não importa como estamos, Deus cuida de nós.