Agridoce

Já passava de uma da madrugada. O filme tinha acabado de terminar, o pessoal começou a se levantar pra ir embora e eu comecei a pensar em como matar minha fome noturna. Tinha sobrado brigadeiro de colher que as meninas fizeram pra comer durante o filme, mas minha mãe tinha feito peixe frito na janta. Me bateu o dilema: Brigadeiro ou peixe? Doce ou salgado? No meio do embate moral que se formou dentro de mim, ouvi uma voz vindo de dentro que me disse: “Come tudo junto, Thales”.

A voz era o sono, eu sei, mas eu decidi segui-la e peguei um pedacinho do filé de merluza empanado, cobri com um pouco de brigadeiro e comi com a exata cara de nojo que você está fazendo agora. E me assustei, porque ficou bom. Sério. Peguei um pedaço maior, tentei de novo pra ver se não era alucinação, mas não, realmente tinha ficado muito bom. E quando digo bom, não me refiro a comer batatinha com Sundae do Mc Donalds (isso as pessoas fazem só pra chamar atenção), mas talvez, debaixo do olhar de desaprovação de quase todos ali, eu tivesse acabado de descobrir o Santo Graal da improbabilidade de gostos misturados.

Segundo minha enciclopédia mental de cultura inútil, o que a gente geralmente chama de gosto é na verdade o cheiro da comida. Existem apenas cinco gostos que nossas línguas são capazes de discernir: o ácido, o doce, o salgado, o amargo e o umami. Sim, existe um treco chamado “umami” que ninguém sabe realmente como é, mas que todo mundo concorda que é gostoso. O resto todo é apenas o cheiro da comida, e essa é a razão pela qual a comida fica sem gosto quando estamos gripados, ou porque tampamos o nariz quando vamos tomar aquele remédio com delicioso gosto de chão de hospital.

Mas fora toda a complexidade do que é gosto e do que é cheiro, o divertido mesmo é misturar coisas inesperadas na cozinha. Já fiz algumas boas experiências, como o frango grelhado com morango, que fica ótimo em um sanduíche com queijo, por exemplo; ou o filé de abacaxi temperado e assado à manteiga, que vai muito bem com omelete e champingnon; e uma vez coloquei pedaços de chocolate refogados ao alho no molho de tomate para acompanhar macarrão, e ficou realmente bom. É claro que algumas vezes fracassei, e te digo pra evitar colocar limão em qualquer vitamina com leite, não tentar comer Sucrilhos com Sprite e jamais jogar uma colher de Nescau na Coca-Cola.

O interessante dessas misturas é que a gente descobre que o doce não é o contrário do salgado e nem o ácido o inimigo do amargo, mas ambos os gostos podem coexistir fazendo festa na boca. Eu posso colocar sal na manga e experimentar o doce e salgado ao mesmo tempo, assim como posso colocar limão na rúcula e sentir o ácido e amargo juntos. Ou posso colocar sal na manga, a manga na rúcula e mergulhar tudo em suco de limão pra tentar descobrir finalmente o que é o umami, e ainda não vou descobrir o que é. Mas além dos gostos que sentimos na língua, as sensações que sentimos na vida também são assim.

Certa vez compartilhei algumas dessas experiências culinárias com um Chef de Cozinha de verdade e, obviamente, ele me disse que sou retardado e tinha fumado maconha pra experimentar essas coisas. Mal sabia ele como era lá em casa…

Meu pai era o mestre da nojeira na cozinha. Eu imagino que ele tinha algum problema no paladar ou olfato porque sempre comia comida azeda ou estragada sem perceber, mas além disso não era estranho entrar na cozinha e o encontrar colocando chuchu em cima de bolacha Passatempo, misturando jiló com doce de figo e mel, ou comendo pão com abobrinha, manga e amendoim. Não posso negar que depois de um tempo o estranho era vê-lo comer alguma normal. E também não posso negar o quanto ainda acho anormal ter que falar dele apenas no passado.

Há pouco tempo atrás eu tomei o café da manhã mais estranho da vida. Me lembro que bebi um suco de laranja, comi um Polenghinho e uma barrinha de cereal, mas por ter encontrado meu pai tragicamente já sem vida há algumas horas, senti apenas um amargo intenso em tudo que experimentei naquele dia. De repente comer tomate com gelatina ou qualquer outra mistura absurda que ele fazia parecia ter mais sentido do que tudo ao redor. O amargo da tristeza que eu sentia era tão forte que me impedia de perceber qualquer outra coisa. Mas aos poucos comecei a sentir algo estranho e improvável.

“É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia a poesia do velho Vinicius, e aprendi assim minha vida inteira de que ou se sente alegria ou tristeza. Mas conforme o baque foi passando, eu percebia que, alheia à toda a tristeza que sentia naquele momento, havia ainda um sentimento destoante, uma estranha alegria latente dentro de mim. Apesar de todo o medo e insegurança que fazia os músculos do meu coração oscilar, meus músculos da face repuxavam estranhamente me colocando um sorriso improvável no rosto. Eu não entendia bem da onde vinha, mas não queria abrir mão daquela alegria estranha que vez ou outra se deixava sentir ali no meio de toda aquela bagunça.

Já ouvi gente dizer que a alegria é uma invenção moderna e que a busca por ela é uma jornada sem sentido. Por outro lado, não é incomum ouvirmos que precisamos fazer ou ter certas coisas para sentirmos alegria. Ligamos a alegria à realização profissional, aos relacionamentos amorosos, à saúde, ao dinheiro na conta do banco ou ao jogo do Corinthians (se perder, a gente fica alegre, é claro). Mas isso tudo não passa de distração, como uma sobremesa doce após o almoço. E não me entenda mal, distrações e sobremesas são sempre bem vindas. O problema é vincular sua alegria com coisas tão efêmeras e imperfeitas quanto dinheiro, romances ou o ataque do Timão. Se sua alegria é tão falha assim, que triste ela é!

A alegria verdadeira e de que precisamos geralmente passa despercebida o tempo todo. Alheia a todos os sabores amargos e doces que a vida nos oferece, separada de toda tristeza e distração que nos atinja, a alegria está ali escondida, insípida, inodora e incolor, dando liga a cada um dos sabores. A alegria que precisamos não dá cárie nos dentes, não faz subir nossa pressão arterial e não nos coloca uma careta engraçada no rosto. A alegria que precisamos não tem prazo de validade, não estraga fora da geladeira e não mancha roupa alguma.

A alegria que precisamos nos refresca a alma. A alegria que precisamos nos saceia a sede e nos permite experimentar o equilíbrio de tudo que a vida nos oferece. E mais que isso, a alegria que precisamos nos oferece vida.

O velho Vinicius de Morais uma vez disse também que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É realmente muito triste esse ponto de vista onde a tristeza não cumpre sua função de nos levar à reflexão e à uma consequente mudança de pensamento, mas ao contrário, nos escraviza e nos leva cada vez mais pra baixo, cada vez mais fundo.

Porém, é no fundo do poço que se encontra água limpa.

Não desejo isso a mais ninguém, mas chegar tão lá embaixo é uma das maneiras de se aprender esta verdade. Porém a boa notícia é que não é necessário ir tão fundo assim: a alegria verdadeira que precisamos nos é oferecida o tempo todo graciosamente e de graça. A alegria verdadeira não se vende em galões de 20 litros e não se acaba com má gestão da Sabesp. A alegria verdadeira não se seca com o calor e não se suja com nossa podridão. E o melhor de tudo: não importa o tamanho da nossa sede, beber dela uma vez já é o bastante pra saciar uma vida toda.

Os que tem sede, venham. Os que choram, bebam. É tudo de graça. É tudo graça.

Felizes os que choram, porque o choro acaba. Felizes os que choram, porque a alegria jorra pra eternidade.

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Eu tinha vergonha do meu pai.

(Este texto foi publicado originalmente no Facebook dias após o falecimento do meu pai, João Rios Filho, em Julho de 2015)

 

Eu tinha vergonha do meu pai.

Pensei que talvez não fosse o melhor momento pra falar disso, mas é sim. E já havia dito isso pra ele algumas vezes, já que essa vergonha já passou há muito tempo.

Num mês de Agosto quando eu estava na sexta ou sétima série a minha escola mandou um recado avisando que teríamos uma homenagem aos pais lá. Aquelas coisas cafonas de sempre: jograis mal ensaiados, um aluno cantando mal uma música do Fábio Júnior e algum presente inútil que custasse menos que R$2,00. Fui pra casa com o bilhete e mostrei pro meu pai como sempre, já esperando a resposta padrão “Uh, filho, o pai vai viajar pra vender nesse dia, tudo bem?”. Eu sempre respondi “tudo bem” porque realmente estava tudo bem.

Ele sempre saiu pra trabalhar antes de acordarmos, geralmente passava mais da metade da semana fora trabalhando, passava muitos sábados e domingos se preparando para viajar e nunca foi aquele pai que sentava no sofá pra ver desenho com os filhos, até porque os desenhos passavam em horários em que ele geralmente não estava lá. Mas isso tudo nunca foi um problema porque nós sabíamos que ele estava fazendo isso pra cuidar da família e aproveitava cada folga que tinha pra nos levar ao clube, cachoeira, praia, pra nos ensinar a andar de bicicleta, ensinar matemática e todas essas coisas que jamais sairão da memória.

Mas depois daquele bilhetinho da homenagem do Dia dos Pais ele respondeu um surpreendente “Vou sim, filho”. Me assustei bastante, tentei argumentar que ele não precisava ir, que precisava trabalhar ou descansar ou qualquer coisa, mas ele realmente queria ir lá.

Pra quem não o conhecia muito bem, imagine um personagem da Praça é Nossa habitando a realidade fora da TV. A cada 10 coisas que dizia, 11 eram jargões. Se encontrasse 100 pessoas num dia, contava a mesma piada 100 vezes. Brincava com todo mundo, o tempo todo (inclusive em velórios). Agora imagine que você seja o menino não-popular da escola e seu pai chega lá aloprando com todo mundo, inclusive com as poucas pessoas que ainda te respeitam. E ele fez isso.

Chegou zuando todo mundo. Amigos, inimigos, professoras, todo mundo. Eu só abaixava a cabeça esperando ele não contar alguma coisa constrangedora minha pros meus colegas. Acabou a homenagem, ele me deu um beijo na testa e foi embora. Eis que então veio rindo a loirinha que já tinha seios (toda sala de sexta-série tinha uma loirinha que já tinha seios e você sabe disso, não me julgue). Pensei que ela ia falar que descobriu com meu pai que eu tinha medo de ratos ou que eu brincava com Comandos em Ação inventando nomes em inglês pra eles. Ela chegou e disse: “Cara! Seu pai é muito legal! Queria que o meu fosse assim também.”.

Oi?

Eu ali todo preocupado em passar algum vexame e na verdade meu pai era legal e eu não sabia. Dali em diante eu comecei a reparar e vi que mesmo ele ainda parecendo um personagem da Praça é Nossa (e eu assobiava o tema do programa pra ele o tempo todo), ele era tipo um daqueles personagens legais, tipo o Zoínho ou aquele que falava “Mestre, Uaaaalaaaa!”. Eu tinha orgulho de muitas coisas que meu pai fazia, mas só nesse dia eu aprendi a ter orgulho do meu pai.

Na semana passada o encontramos morto. E foi uma morte que realmente não inspira orgulho algum. Não vou mentir e dizer que não senti vontade de encher o corpo dele de socos por nos deixar de maneira súbita e inexplicável assim, ainda mais num momento em que fazíamos planos alegres com a família e projeções otimistas para os negócios. A morte dele merece tanto orgulho e compreensão quanto alguém que suja a cueca quando está com diarreia. Ninguém escolhe fazer isso, ainda mais quando realmente só se tem motivos para não fazer. Para a triste surpresa de todos, inclusive a dele, ele enfrentava uma doença que nem mesmo ele tinha conhecimento, e não se deve ter vergonha alguma disso. Não foi covardia, nem fuga ou desespero. Foi doença, e com doença não vem orgulho e nem vergonha, vem apenas compreensão.

Mas em meio à dor da perda e da tragédia, Deus escolheu apenas uma palavra para me consolar: Orgulho.

Nos ofereceram a maior sala de velório da cidade. Ela não foi grande o bastante (e nem chegou perto disso). Lá eu vi os meus tios, que ele sustentou e alimentou ainda adolescente. Vi também amigos antigos, que viajaram centenas de quilômetros, cada um com a sua história de como meu pai os animou, os ajudou, os consolou e até os salvou em diversas situações. Abracei pessoas que tiveram seu primeiro emprego graças a ele, outros que sustentaram suas famílias quando apenas meu pai acreditou na capacidade deles. Cantei hinos junto com pessoas que aprenderam a cantar sob a regência do “Malestro” João Rios, o maestro mais mala e exigente que já passou por esses lados. Ouvi os violinos de músicos profissionais que aprenderam a tocar e a amar música em um dos projetos gratuitos de musicalização que meu pai criou e se dedicou por anos. Sorri com pessoas que queriam morrer, mas desistiram depois de conhecer meu pai. Orei com pessoas que conheceram a Deus através de palavras do meu pai. Chorei de alegria e esperança com minha mãe e irmãos ao sentirmos a certeza de que meu pai está junto ao Pai.

Não saberei aqui na Terra o quanto mais posso sentir orgulho dele. A cada volta de viagem ele contava mil histórias de como Deus o usou na vida de outras pessoas, e nessa viagem final já ouvimos um tanto do quanto Deus o usou para chacoalhar os corações mais duros e acalmar os corações mais aflitos. Na Eternidade terei bastante tempo pra sentar com ele e Jesus pra ver os frutos da vida dele (e fazer piadas dessa história toda, é claro).

Infelizmente, em meio a todo esse orgulho cabe um pouco de vergonha também. Não por meu pai, mas pelas pessoas maldosas que criam e espalham os boatos mais absurdos. É normal numa situação inexplicável se buscar respostas, mas a maldade e o desrespeito das pessoas chega a incomodar um pouco. Desmentindo alguns dos boatos, nós não estamos quebrados financeiramente, o casamento dos meus pais continuava tão belo e exemplar como sempre foi, meu pai não cometeu crime algum e eu estou vivo (sério, até eu morri em alguns boatos por aí). E caso você tenha dúvidas sobre pra onde meu pai foi, te convido pra conversar um pouco sobre fé, graça e salvação.

Independente do que digam, não tem boato que vá tirar minha paz, não tem memória que vá diminuir meu orgulho pelo meu pai e nem mau conselho que me faça esquecer o que ele me ensinou. De herança ficou apenas a fé, e não há circunstância que a possa abalar.

Em nome da minha família agradeço as mensagens de apoio, as lágrimas, os abraços e as orações. É o momento mais difícil de nossas vidas mas, contrariando toda a lógica, nossos corações estão aquecidos e em paz. Agora entendemos a tal “paz que excede todo o entendimento” e sabemos, mais do que nunca, que Deus cuida de nós.

Quanto ao futuro, ficam agora a saudade e as boas memórias. E que ninguém queira fazer qualquer coisa pela memória ou honra do meu pai, pois ele mesmo nada fazia pra si próprio. Que a gente aprenda com o exemplo dele o que é viver uma vida de serviço ao próximo e de amor a Deus.

Até logo, pai.

O legal do Vô

(Este texto foi publicado originalmente num livro de homenagens e memórias do meu avô, João Sales Rios em Julho de 2015)

Geralmente é indelicado rir de doenças, mas existe uma síndrome chamada de Síndrome de Witzelsucht (juro que não inventei qualquer coisa escrevendo com o cotovelo), também conhecida como Doença do Trocadilho. É uma doença rara, causada por um algum dano ou tumor no lobo frontal direito do cérebro, e o sintoma mais comum dela é a pessoa ficar fazendo trocadilhos o tempo todo. Trocadilhos, sério. Eu seria um ótimo candidato a ser diagnosticado com esta síndrome se não fosse o fato da minha família inteira ser incrivelmente besta.

Dos meus sobrinhos de 1 ano ao meu avô com seus 80-e-todos anos de pura ruga e calvície, todos os Rios riem, brincam e fazem piadas com tudo o tempo todo. Seja em aniversário, almoço, fila do pão, velório, tudo é potencialmente engraçado e guardar a piada pra si é pecado. E algumas das cenas mais engraçadas e bacanas da minha infância me lembram de que esse jeito besta de ver tudo na vida não é algo genético, mas sim ensinado e lapidado desde pequeno por aqui. Meu Vô João sempre fez e continua fazendo isso com maestria.

Nunca joguei futebol de botão com meu avô, mas me lembro de quando ele nos visitava e ficava chorando de rir quando o pau começava a quebrar no Dragon Ball Z, vibrando e fazendo piada a cada soco e chute no desenho japonês como se fosse disputa de cinturão de boxe. Durante as refeições, pioneiro que é e não contente em fazer a piadinha do “Pavê ou Pacomê” (até porque ele é diabético, não dá pra brincar muito com doce), ele criou e sempre repete a piada de que aquilo na garrafa é uma “Limonada, mas de limão… nada”. Mas fora os trocadilhos, talvez a cena mais engraçada das que tivemos juntos foi uma vez em que ele pegou meus bonecos do Comandos em Ação, os colocou sentados em fileiras, e deixou dois na frente dos outros. Um destes ajoelhado e o outro com a mão na cabeça do primeiro.

— Que que é isso vô?

— Isso? Um culto pentecostal, Thales. Tão exorcizando esse rapaz aqui, ó que bacana! Sai demônio!

Gênio. (não fazia a mínima ideia do que era um culto pentecostal, ri de verdade disso só anos mais tarde.)

Não me lembro de tê-lo visto uma única vez mal humorado durante minha infância. E a alegria dele aumentava ainda mais quando estava trabalhando em alguma igreja. Foi evangelista durante anos, um trabalho simples e mal remunerado, mas o cumprimento da vocação estampava sempre um sorriso naquela cabeça careca.

Homem simples, nasceu na roça da Bahia, morou na periferia de São Paulo e se mudou pro anonimato do interior. Nunca foi famoso, nunca foi notícia de jornal, nunca realizou atos heróicos e nunca foi um fora da lei. Nunca foi rico, e imagino que nunca quis ser. João, baiano, morando em São Paulo: mais um pra estatística.

Fico imaginando que muitos Joãos deste mundo se preocupam com o que vão deixar para o mundo e suas famílias quando daqui partirem. Heranças, dívidas, legados. No quesito herança, meu vô já distribuiu a herança dele pra todos os filhos e netos homens: calvície. E acho que legado não é uma coisa que preocupa muito a cabeça lustrosa dele. Sempre apreciei a calma que ele tem, aquele tipo de calma que só aparece junto com uma fé genuína de quem sabe que realmente não temos controle de nada, mas cremos em alguém que controla tudo e cuida de nós. E essa calma aliada à fé não nos permite cair numa busca irrelevante e vaidosa por uma vida de relevância.

O legado do velho João, baiano e anônimo, não tem sido construído na direção de multinacionais, nem na política ou na artilharia de algum Campeonato Brasileiro do século passado. Não consigo imaginar, por exemplo, uma rua com seu nome daqui 50 anos. Mas entre erros e acertos ele passou a vida inteira contagiando o mundo ao seu redor com uma visão de servir e amar ao próximo que às vezes passa despercebida, mas que impactou e transformou muita gente. Pode parecer mais um João apenas, mas quem está por perto reconhece todas suas qualidades.

A coragem de largar tudo pra trás, embarcar num caminhão empoeirado e carregar a família inteira pra um novo mundo. A hospitalidade e a boa vontade de fazer caber mais de 30 pessoas num sobradinho pequeno. A seriedade para educar os filhos no caminho certo. O bom humor pra alegrar os netos quando os pais estão sérios demais. A força pra superar tragédias. A paciência pra recomeçar tudo de novo. A jovialidade que mostra que não há idade para amar outra vez. A alegria de servir a todos. A gratidão ao Criador o tempo todo.

Deus não deu a ele riqueza nem fama. Deu filhos. Um monte deles. E esses filhos tiveram outros filhos, e já vemos os filhos destes também. Porém, mais importante do que os filhos, netos e bisnetos, Deus um dia deu a ele uma vida nova, e essa mudança reflete diretamente em cada segundo das vidas de seus descendentes. E será assim por pelo menos mais umas 997 gerações.

É impossível contabilizar quantas vidas foram transformadas direta ou indiretamente pela vida deste simples baiano chamado João. Tal qual os patriarcas, um dia ele partirá para o Céu sem ver todos os frutos de seu trabalho.

Talvez daqui cem anos, o nome João Sales Rios seja esquecido. Talvez a casinha no alto do morro nem esteja mais lá e a horta, tão bem cuidada, já tenha virado um concreto qualquer. Talvez não sobre registro nenhum pra contar história e limão nenhum pra limonada. Mas ainda assim, o seu real legado continuará vivo em algum lugar. Legado esse que ele ganhou e que também quero deixar aos meus filhos, pois dinheiro, imóveis e fama, nada disso realmente importa. Não há legado melhor do que ele nos passou. Não há legado maior que a fé.

Além de Silent Hill

Do Atari aos Playstations da vida eu sempre gastei muitas das minhas horas livres (e muitas das não livres também) imerso em algum jogo de videogame. Geralmente jogava alguma coisa de futebol ou atropelava alguma coisa no GTA, mas gostava basicamente de qualquer coisa. Porém um dos poucos gêneros do qual nunca fui muito fã era o de terror. Eu poderia dizer que, sei lá, nunca me pareceu muito legal esse negócio de monstros, fantasmas e zumbis, mas eu assumo: morria de medo de jogar essas coisas. Tomar susto não é uma coisa na qual eu sinto prazer na vida.

E tinha esse jogo medonho no Playstation 1 chamado Silent Hill. A história era a de um homem que viajava com sua filha e acaba capotando o carro na estrada de uma cidadezinha chamada Silent Hill ao tentar desviar de uma garotinha misteriosa parada no meio da pista. Quando ele recupera a consciência, sua filha havia desaparecido e ele passa a procurar por ela nessa cidade deserta tomada por criaturas estranhas, rituais de sacrifício ao capiroto e outros eventos macabros. A cada meio metro do jogo você trombava com alguma dessas criaturas saídas do inferno tentando te matar sem razão aparente. Na terceira esquina de Silent Hill eu desisti, entreguei o controle pro meu irmão e fiquei ali assistindo e torcendo por um final feliz (não é feliz o final, sinto muito).

Mas o que mais me causava pânico no jogo não eram os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e a morte chegando: era que você não via os monstros vindo te morder, os bichos rastejando e quando menos você esperava, a morte já tinha chegado e você nem viu de onde. Tudo isso porque a cidade toda era tomada por uma neblina maldita que não te permitia ver da onde essas desgraças saíam. Veja bem, uma coisa é você lidar com monstros vindo na sua direção. Você corre pro canto, muda de arma e se prepara devidamente pra treta. Outra coisa é você andar meio metro e o bichão já chega te encoxando sem nem perguntar seu nome. Tá errado isso.

Mesmo tendo jogado menos de 5 minutos do jogo, no mundo real não consigo passar de carro por um trecho com neblina sem pensar que a qualquer momento uma menina vai aparecer parada no meio da estrada e eu vou acordar todo quebrado fugindo de monstros que cobiçam meu corpinho. E apesar de achar a neblina um dos fenômenos naturais mais loucos e bonitos, sei que ela é também um dos mais perigosos. Não por monstros ou coisas assim, mas ouço diversos casos de acidentes de trânsito causados pela falta de visibilidade, e eu mesmo já senti medo por dirigir em alguns trechos onde não fazia a mínima ideia do que vinha pela frente e sabia que não poderia parar porque quem viesse atrás não me enxergaria parado ali também. A sensação de impotência de não saber o que vem pela frente é uma das piores que podemos sentir dirigindo.

É também uma das piores que podemos sentir na vida.

Existem momentos em que sabemos perfeitamente pra onde estamos indo, conseguimos ver tudo o que vem se aproximando e temos tempo e calma pra tomar todas as boas decisões do mundo. Mas você anda mais 10 quilômetros pela longa estrada da vida e se depara com aquela coisa branca, fria e esfumaçada tomando toda a pista. Mais 500 metros adentro e já não se vê muito mais pra onde vai ou o que vem. Você tinha feito planos para a carreira daqui há 10 anos, você tinha feito planos de quantos filhos queria ter, você tinha feito planos de quais árvores iria plantar no quintal, onde iria passar o próximo Natal, que filme iria ver no fim de semana e o que iria almoçar amanhã. Mas agora você mal vê um palmo à frente e seu plano atual é simplesmente sobreviver.

Quando não se vê mais nada além de uma enorme indefinição fica difícil definir qualquer coisa para a vida.

Na minha infância, quando o dia amanhecia branco e gelado com aquela neblina cobrindo a rua eu já desanimava pensando no frio que faria no resto do dia. Eu era totalmente desfavorável ao frio, talvez porque quando estava frio eu não podia brincar no quintal. Mas depois de um tempo eu aprendi como a neblina funciona e percebi que ela não é tão má assim. Ao contrário das manhãs cinzas e de garoa fina que significam um resto de dia cinza, frio e de garoa fina, um dia que amanhece branco e tomado por neblina significa um resto de manhã e tarde ensolarados com céu azul. Sim, repare bem: quando amanhecer com neblina, o tempo vai abrir em poucas horas. (Não sei se isso se aplica a Londres e Gotham City.)

Passei então anos sabendo que a neblina era um prenúncio de um dia de sol, passei anos acordando sem conseguir ver o outro lado da rua e curtindo o céu com o azul mais bonito que existe horas depois, mas só me dei conta do quão verdade é isso depois de acampar há quase 2000 quilômetros de altitude. Estava na Pedra do Baú, um dos pontos mais altos do Estado de São Paulo e acordei de madrugada para poder apreciar o Sol nascendo lá de cima. Aos poucos o Sol foi aparecendo e o céu foi clareando lentamente, limpo, praticamente sem nuvens. Mas quando olhei pra baixo, a cidadezinha que ficava na beira do morro estava encoberta por uma densa neblina, como se alguém tivesse derramado um balde de gelo seco sobre a cidade.

Por um momento eu me esqueci do Sol nascendo e fiquei pensando o quão louco era olhar aquela neblina toda por cima. Fiquei pensando nas crianças acordando naquele feriado e se lamentando por acharem que não poderiam brincar no quintal. Fiquei pensando nos motoristas dirigindo a dez por hora com medo do que não viam. Fiquei pensando em como nos desesperamos facilmente quando não sabemos o que tem pela frente.

Eu sei o quão ruim é passar por momentos em que a gente não entende o que está acontecendo e que nada faz sentido. Todo mundo sabe como é. E mesmo com farol de neblina, farol de milha, farofa de milho, qualquer coisa, de dentro da neblina não se pode ver nada além daquilo que a própria neblina nos permite ver. Você não sabe bem pra onde está indo, mas sabe que ficar parado é ainda mais perigoso, então o medo da indefinição toma todo o seu foco. E é bom que o medo surja, porque você precisa dele para sobreviver e não quebrar a cara por excesso de confiança. Mas é um erro deixar o medo decidir por você.

As neblinas são passageiras, mas as consequências de nossas decisões nem sempre são. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ignorar que por fora de toda essa branquidão o Sol está brilhando, firme e forte. Tomar decisões baseadas apenas no medo da indefinição é ceder ao desespero e ignorar que além da névoa existe um céu azulado, e além do próprio céu azul existe Algo que comanda o Universo e que vê tudo que o rola dentro e fora da neblina, dentro e fora de nós, inclusive dentro e fora e de nossos medos.

E na verdade, o medo nunca escolhe. O medo priva. O medo exclui. O medo demole os sonhos e nos impede de experimentar muito do bom que a vida nos oferece.

Ah, se a gente soubesse que a neblina é sempre passageira… Ah, se a gente soubesse do céu azul que vem logo mais…

No fim das contas, Silent Hill não existe e nós somos atacados apenas pelos monstros criados pelo nosso próprio desespero. Se nos acalmarmos um pouco, perceberemos que enquanto passamos pela neblina da indefinição nos foi oferecido paz e cuidado o tempo todo.

O que importa é saber que depois de cada neblina existe um dia ensolarado nos esperando, e que se repararmos na voz que nos chama, a fé certamente nos conduzirá até lá.

O que os olhos não veem e o que as agulhas não mentem

“O que os olhos não veem o coração não sente”. Ok, talvez o coração não sinta, mas a dor aparece em qualquer outra parte do corpo você olhando ou não.

Aprendi quando era criança que o ferro de passar realmente é quente num dia em que não vi que estava com o braço encostado num ferro ligado. Só reparei que havia algo de errado quando fiquei confuso ao sentir cheiro de churrasco e uma dor absurda no braço ao mesmo tempo (o churrasco era meu braço, pra quem não entendeu). Repeti a mesma burrada depois com fornos e escapamentos de motos. Meus olhos não viram, mas minha pele sentiu, assim como minha cabeça sentiu quando meus olhos não viram que minha cabeça iria bater numa barra de ferro pontiaguda, ou como quando meus olhos não viram o estilete vindo na direção do meu dedo.

Boa parte das coisas que mais doem acontecem quando a gente não está vendo, justamente porque se a gente visse, desviaria pra não doer. Ninguém gosta de sentir dor (salvo essa galera curtidora do 50 Tons de Cinza lifestyle).

Dor não é legal. Dor geralmente dói.

Quando eu fiz 14 anos eu sofri por antecipação ao pensar que deveria tomar aquela vacina dos 15 anos. Antitetânica, doeu aos 5, doeu aos 10, vai doer aos quinze. As pessoas normais não gostam de tomar injeções, mas eu gosto tanto que enrolei um pouquinho e só fui tomar a dos 15 anos quando meu irmão me arrastou pro posto de saúde aos 17. Vale colocar aqui que o Bruno, o irmão em questão, foi a criança que mais chorava nas filas de vacinação. E como eu estava destreinado e vergonhosamente tremendo de medo quando a enfermeira começou a abrir a embalagem da agulha na minha frente, ele me deu a seguinte dica: “dá muita aflição ficar olhando, não olha pra agulha que é melhor”.

A moça veio, passou o algodão com álcool no meu braço e eu virei o rosto pro outro lado esperando a morte vir me buscar. Não morri, mas doeu de qualquer maneira. Será que doeria menos mesmo sem olhar?

Depois dessa vacina eu encarei muitas outras agulhas: vacina de gripe, anestésico, sedativo, o temido Benzetacil algumas vezes, tirei sangue, doei sangue e tomei inacabáveis 40 vacinas num tratamento de rinite alérgica. Não me lembro bem em qual dessas agulhadas eu resolvi ser macho e encarar a agulha perfurando minha pele, mas daí em diante eu aprendi que a dor não muda você vendo ou não.

Anos depois de ir ao postinho com meu irmão, eu o acompanhei até uma clínica veterinária para um dos piores momentos de nossas vidas. Ainda quero escrever direito sobre isso tudo, mas era um fim de tarde chuvoso e nossa cachorra de 15 anos, Sharon, estava ali para sua última tarde chuvosa. O veterinário conversou conosco, a examinou uma última vez apenas para se certificar, explicou todo o procedimento, nos deu um documento para assinar e a colocou deitada na maca. Era o momento de encarar as injeções, e meu irmão e eu estávamos ali encarando as seringas mais tensos e apreensivos do que nunca.

A primeira agulha foi uma intravenosa (e as veias dela não estavam colaborando, o veterinário teve que espetar a coitada mil vezes até conseguir achar uma que fluísse bem). Ela não esboçou muita reação e o sedativo que ele aplicou talvez foi só pra nós mesmo. Ele disse então que agora seriam as injeções com a coisa que faz parar o coração do cachorro.

Pegou a seringa na mão, o Bruno se debruçou na maca pra não olhar e eu resolvi que queria ver tudo. Conforme a agulha perfurava a mangueira da intravenosa, conforme o êmbolo ia deslizando lentamente e o líquido ia entrando nela, aquilo doía em mim e no meu irmão. Ainda foi preciso repetir esse processo com mais uma dose até a gente sentir o coração dela lentamente parando, mas enquanto isso os nossos estavam batendo todo tortos naquele momento. Não precisava ver para sentir, não precisava nem ser espetado para sentir. O que uns olhos viram, o que outros olhos não viram, o coração sentiu tudo.

Desviar os olhos da dor não diminui ela, assim como olhar também não diminui. A dor não é tímida e nem exibicionista assim. Ela simplesmente vem por uma razão e quer que a gente a entenda, centímetro por centímetro. Não quero entrar no mérito do que causa a dor, se é o pecado, se é provação, se é castigo ou falta de sorte, quem sabe. Seja qual for a causa, a dor quer causar algo em você. A dor causa aprendizado e é bom você não desperdiçar a chance de aprender algo com ela, porque ela pode querer voltar pra te ensinar de novo, e de maneira um pouco mais dolorosa, talvez.

Quem sabe você tenha que aprender a ficar longe do ferro de passar. Quem sabe você tenha que aprender a descer do lado certo da moto ou a não se apoiar no forno enquanto alguém assa um bolo. Quem sabe você tenha que aprender a olhar pra cima antes de levantar. Quem sabe você tenha que aprender a não tentar enganar as pessoas, quem sabe você tenha que aprender a martelar com mais calma, quem sabe você tenha que aprender a não se deixar iludir, quem sabe você tenha que aprender a valorizar as pessoas enquanto dá tempo, quem sabe você tenha que aprender a perder, quem sabe você tenha que ouvir o que Deus tem gritado dentro de você há muito tempo.

É preciso saber reconhecer a voz e o valor da dor e, mesmo em meio a lágrimas, sorrir de gratidão.

Cada dor é uma chance de aprender alguma coisa e cada cicatriz que ela deixa tem que ser encarada como um lembrete, não um trauma. Os traumas nos lembram apenas de como as coisas doem, mas as cicatrizes nos lembram de como sobrevivemos a mais uma dor.

O que é melhor, então: virar a cara ou olhar para a agulha? Tanto faz, a dor virá da mesma maneira, forte ou fraca, lenta ou rápida, da maneira que ela precisa vir, da maneira que você precisa sentir, ensinando o que você precisa aprender.

Não depende da nossa vontade, mas que o Pai afaste de nós estes cálices de vinho tinto de sangue tão quanto for possível. E que tenhamos fé e coragem para lembrar que a dor morre sempre antes de nós.

Siga bem, caminhoneiro!

Quando eu estava na oitava série não me preocupava muito com o futuro. Alguém se preocupa com o futuro na oitava série? Acho que não também. Mas me lembro que numa noite qualquer eu folheei um daqueles Guias do Estudante da Abril de um dos meus irmãos que estava na fase do vestibular e fiquei ali vendo o nome dos cursos, quantas estrelinhas cada um tinha e pensando no que eu queria ser quando crescesse. Eu sabia que era razoavelmente bom em desenhar e gostaria de encontrar alguma profissão em que pudesse usar essa praga esse dom.

Arquitetura? Nah, ficar desenhando casa e usando régua é chato. Artes Plásticas? Vixi, odeio tinta, melhor não. Então um irmão meu me disse sobre Desenho Industrial. Pensei o que todos pensam: “Ficar desenhando parafuso e peça de máquina? Tem algo mais entediante que isso?!”. Mesmo assim fui ler a respeito e quatro anos mais tarde lá estava eu de cabelo raspado indo para as aulas de Desenho Industrial (que não tem nada a ver com peças de máquinas ou parafusos, acredite em mim).

Mas conforme o curso foi passando eu não podia fingir não ouvir as conversas dos veteranos sobre o quanto era difícil arranjar trabalho e o quão mal se recebia nas empresas. Vi muita gente largando o curso, outros prestando concurso pra trabalhar de caixa em bancos e até descobri que um veterano trabalhava de drag queen em boates à noite (sério isso). Me bateu um desespero: eu não conseguiria passar num vestibular de novo, eu não suportaria trabalhar num banco e minhas pernas eram peludas demais pra virar drag (não que essa fosse uma possibilidade real, mas minhas pernas são realmente peludas).

Na época eu era estagiário em um estúdio que estava passando por uma fase de vacas bem magras, beirando a anorexia mesmo. Via meus chefes preocupados com os clientes que estavam sumindo, as contas que não paravam de chegar e os trabalhos cada vez mais escassos. Numa tarde dessas eu estava sozinho com um dos chefes na sala do estúdio e contei pra ele que estava preocupado com essa profissão que escolhi, que estava com medo de fracassar e não ter grana pra sustentar uma família ou algo assim. Me lembro que ele parou, olhou bem nos meus olhos (dava uma certa aflição, ele realmente não sabia conversar sem olhar pros seus olhos o tempo todo) e disse algo que fez todo o sentido e me acalmou de uma maneira tal que nenhuma crise posterior durante a faculdade me abalou mais.

Sei, vai soar patético da minha parte, mas eu não me lembro o que ele disse. Não mesmo, me desculpe.

Mas o importante naquele momento não foram as palavras que ele usou ou olhar constante e  constrangedor direto nos olhos, mas foi perceber que não era apenas ele dizendo ali naquele momento, que, de alguma forma absurda, Deus respondia minhas orações através daquele cara que, até onde eu sabia, nem cristão era. Por trás das palavras que eu ouvi e não me lembro o que eram, percebi Deus dizendo “Calma, Thales. Eu estou cuidando de tudo, confie um pouco mais em mim”.

E eu tenho tentado confiar. Mas tem hora que é foda.

Desculpe se seus olhos são sensíveis a palavrões, mas “difícil”, “tenso”, “ruim” ou outros sinônimos são apenas eufemismos quando a coisa realmente tá foda.

Você sabe do que eu estou falando: Quando a situação aperta, quando a pressão está insuportável, quando as dificuldades te cercam e parecem querer sugar sua alma, quando você está tão sufocado que quer colocar um maldito anel no dedo e ficar invisível a todos ao redor (mesmo que o Olho de Sauron te veja, o que não é muito bom). Quando nada faz sentido e tudo te sufoca até a sua fé começar a naufragar.

O que acontece é que nós somos seres imperfeitos e fingimos que sim, mas não vemos nada há um palmo de nossos narizes. Essa limitação nos cria uma ansiedade e nos faz querer tudo agora, tudo pronto e tudo certo. O imediatismo tenta nos convencer de que o que não está certo, pronto e disponível não serve e deve ser trocado por algo que nos faça feliz já. Nós pedimos a vida num fast-food, postamos uma foto no Instagram e devoramos tudo sem nem sentir o gosto do que passou por nossas bocas. Queremos tudo fácil, queremos tudo fútil, queremos tudo inútil.

A verdade é que nós temos medo da dor, da doença e da frustração. Não porque elas nos fazem mal, mas porque nós não queremos ser confrontados por elas, e porque esta confrontação nos mostra o quanto temos errado e o quanto ainda precisamos aprender com mais dores, doenças e frustrações. Pare pra pensar: ninguém tem medo de errar, ninguém tem medo de falhar ou estar completamente enganado. Nunca vi um jogador de futebol chegar no treino e não querer bater um pênalti com medo de errar, ou um pianista não tocar o piano sozinho em casa com vergonha de ouvir a si mesmo errar uma nota ou outra.

O medo não aparece nessas coisas. O medo aparece quando pode doer. O medo aparece quando pode matar. O medo aparece quando as frustrações podem te corroer, quando podem zombar de você ou pior, quando você mesmo pode achar que é um total fracasso.

Como poderemos aguentar tamanha dor? Como poderemos sobreviver? Como poderemos viver com tamanha vergonha? E tudo isso se soma ao não saber o que comeremos, o que beberemos, com o que nos vestiremos, o que dirigiremos, onde moraremos, com o que nos sustentaremos, com quem nos casaremos, no que trabalharemos e outras questões que jamais responderemos. Não agora. Não assim.

Nos últimos dias me perguntei isso tudo e um pouco mais. Tava foda. E continuo sem resposta nenhuma, na verdade. Continuo com os mesmos medos. Mas, assim como Deus um dia usou meu chefe pra falar comigo, hoje ele resolveu usar um parachoque de caminhão. Um caminhão mesmo, pequeno, velho, enferrujado, com pneu furado, estacionado torto e na contramão da esquina de casa. Já está largado ali há umas duas semanas.

Depois de alguns dias muito doente, confuso e frustrado eu saí do Netflix, fui lá pra fora e vi que, independente de tudo que eu li e conversei com diversas pessoas, Deus queria mesmo era usar o parachoque daquele caminhão pra falar comigo em quatro palavras tortas e mal pintadas “Deus cuida de nós”.

Eu sempre soube disso, mas eu precisava saber de novo.

Eu tenho medo de ficar de novo com tanta febre e dor como nesses dias, mas eu sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que meus planos todos vão por água a baixo, mas sei que Deus cuida de nós. Eu tenho medo de que coisas que me doem hoje talvez nunca realmente parem de doer, mas ei, Deus cuida de nós.

Ele cuida de nós mesmo que a gente esteja parado. Mesmo que a gente esteja enferrujado. Mesmo que a gente esteja torto, com o pneu furado e na contramão, ele continua cuidando de nós.

Toda a dúvida, todo o medo, toda dificuldade realmente não tem porque ter espaço por aqui quando me deparo à incrível verdade de que o ser que fez e comanda todo o Universo realmente se interessa por cada crise tonta que eu passo. E mais do que isso: ele resolve cuidar dela ainda.

O que eu desejo para nós é que a gente saiba aprender. As dificuldades doem, nos abalam e roubam nossa paz, mas cada dia trará sua própria dificuldade, e cada dificuldade será uma oportunidade de aprender algo novo e de reafirmar que, não importa como estamos, Deus cuida de nós.

Minha decisão, não sei por quê.

Quando se fica tanto tempo encalhado solteiro, se tem muito tempo pra analisar as coisas. E analisar o mundo é um dos meus passatempos favoritos. Gosto muito de ficar olhando pra onde as nuvens vem e vão, de reparar como cada dia do verão fica mais longo e como em fevereiro o sol começa a se pôr mais cedo. Gosto de analisar as formigas desmembrando outros insetos maiores. Gosto de ficar analisando as pessoas na rua, imaginando o porque são assim, como vieram parar aqui e imaginar que tipo de trauma na infância as fizeram ouvir funk sem fone de ouvido.

Mas uma das coisas que mais me prendi a observar desde a adolescência são os casais. Não por inveja, carência ou algo do tipo, mas porque sempre achei curioso como pessoas que nasceram em lugares diferentes, em anos diferentes (às vezes épocas diferentes) acabam se juntando e resolvendo viver juntas, às vezes pra sempre. E crescendo neste mundo onde a vida tenta imitar a arte o tempo todo, a gente acaba se deixando levar por tanta besteira que fica difícil separar o que é Conto de Fadas do que é Vida.

Meninos crescem aprendendo que devem ser charmosos príncipes, ou no mínimo lenhadores muito habilidosos para merecer a mão de meninas que crescem aprendendo a esperar nas torres de seus castelos imaginários pelo cara que vai matar um dragão que elas mesmas criaram pra se defender do medo de se envolver de verdade com alguém. A gente cresce ouvindo o Fábio Júnior cantando sobre “a metade da laranja, dois amantes, dois irmãos” (que isso, Fabião?!) e outras fábulas de coisas que são até bonitas, mas que logo a gente percebe que não são bem assim.

Eu mesmo, até alguns anos atrás achava que Deus, num dia sem muito o que fazer, resolveu que o Rapaz A era predestinado à Moça A, o Rapaz B pra Moça B e por aí vai. Aquela velha história da tampa e das panelas. E passei até a achar que eu era uma frigideira nessa história toda. Mas se um dia o Rapaz A resolveu se casar com a Moça B e o Rapaz B estava interessado no Rapaz L, o rolê todo já foi por água a baixo. O mundo da Disney (do qual eu só curtia mesmo O Rei Leão, é claro) parou de fazer sentido aí. A vida real começou a bater à porta.

Num dia desses, de ócio criativo e provavelmente debaixo do chuveiro gastando mais água do que deveria, eu me propus a entender o porque as pessoas escolhiam umas e não outras diante dessa realidade de que não existem almas gêmeas, e de que maneira isso seria quantificável, já que pra mim o Universo todo pode ser mensurado de alguma maneira.

Criei uma teoria mirabolante e que, de fato, faz muito sentido. Imaginei que existe um sistema de pontos onde você analisa fatores etários, ambientais, estéticos/físicos, geográficos, econômicos e de personalidade/interesses, dá pesos diferentes para cada um desses fatores segundo suas prioridades, encontra uma nota de 0 a 10 e a confronta com sua nota de corte para cada situação: talvez para dar uns beijos numa festa; talvez sexo casual; talvez para namoro sem compromisso real; ou até mesmo para ficar a vida inteira juntos.

É tudo muito frio, mas no fim das contas, dentro da gente talvez seja assim mesmo. Um cálculo, racional em todos os sentidos da palavra, uma decisão fria e pensada sobre fatores quantificáveis, escondida por trás de palavras bonitas ou xavecos baratos.

Eu tinha certeza de toda essa minha teoria até ser confrontado com a seguinte pergunta: “Você acha que gostar de alguém é 100% decisão?”.

Não tenho dúvidas de que pessoas que decidem usar outras pessoas, mesmo que de maneira consensual, se deixam levar apenas por aqueles seis fatores de que falei anteriormente, e o fazem muitas vezes por questão de honra, de status, interesses egoístas e mais uns cinco baldes de más intenções. Mas isso não é gostar de alguém, é gostar de si próprio e usar alguém. Tem que haver algo mais do que apenas a matemática literal e sua média ponderada nisso tudo. Aquela pergunta me fez repensar toda a minha teoria.

Tudo que escrevo daqui pra frente não é bem pensado. Estou chutando um monte de coisas e talvez esteja redondamente errado em tudo.

Acredito hoje que gostar de alguém é 99% decisão. E que 99% não é uma coisa, é quase uma coisa. Não duvido que aqueles fatores frios sejam estes 99% da coisa toda, e de que muita gente se contenta e se precipita em arredondar tudo para 100% e viver uma vida 99% feliz junto com outra pessoa.

Acredito que ao longo da vida somos apresentados a tantas pessoas que preenchem estes 99%, às vezes várias de uma só vez, e que ficamos frustrados porque percebemos que alguma coisa falta para preencher o todo. Às vezes insistimos e mentimos pra nós mesmos por um tempo, mas este 1% faz toda a diferença. E eu acredito que, por mais clichê que isso soe, o 1% que falta é o que chamamos de Coração. E eu não faço a mínima ideia de como explicar isso. Mas sei que você me entende, e se não, espero que me entenda um dia.

Não digo que esse 1% é pensado e não quero romantizar muito essa ideia já tão mal resolvida do Coração. O que sei é que, sem saber porque, o Coração sabe muito mais da gente do que nós mesmos.

É o Coração que se acelera quando pensamos na pessoa, ou quando a vemos de longe, chegando devagarzinho e nem nos notando. É o Coração que se acalma quando se está junto, ou quando a pessoa diz que vai ficar tudo bem quando você acha que alguma coisa já não tem volta. É o Coração que palpita estranho e se aperta quando a pessoa está longe, ou quando as coisas saem do seu controle e você não sabe como consertar algo que fez de errado pra essa pessoa. É o Coração que bate forte demais e não te deixa dormir quando você se deita e sente o perfume da pessoa ainda na sua mão (ou o cheiro da pipoca depois de uma noite de filme, o que é meio frustrante).

É o Coração que bate numa frequência descompassada quando se aproxima do outro Coração, mas que num abraço sincero as notas se encaixam e todo aquele aparente descompasso vira música.

Eu já aposentei minhas certezas e não sei bem o que pensar sobre essas coisas todas. Tudo que eu sei é que o Coração, não sei por quê, bate feliz. E que talvez seja melhor raciocinar menos e parar pra escutar a felicidade dele.

A história de Tuxukim

Quando eu era criança eu era muito babaca. Tá, ainda sou babaca, mas eu era mais babaca ainda.

Tudo me irritava, tudo me tirava do sério. Meu irmão mais velho, Fausto, sabia explorar muito bem esse meu lado. Não sei se ele fez um Telecurso 2000 de irritação ou apenas nasceu com esse dom, mas ele conseguia me irritar dos jeitos mais variados possíveis. Tinha a irritação clássica de fazer musiquinhas com o nome da menina que eu gostava (e a melhor delas era uma paródia com Inaraí, do Katinguelê, vai vendo…). Tinha a irritação dos apelidos, que sempre funcionava, já que eu sempre reclamava. Tinha aquela técnica de dar um soco, daí você revida com outro soco e ele fala “Ah é?! Vai me dar soco? Vai tomar 10 socos agora!”. Numa época ele ficava olhando pra mim e dobrando o dedo indicador. Não faço a mínima ideia do porque, mas isso me irritava. Aí eu dava um soco nele e ele me dava mais dez de volta.

Mas, depois de muito treino, ele desenvolveu a técnica definitiva: ele me deu o apelido de Tuxukim, compôs a canção “Tuxukim não gospe ni mim” (sim, desse jeito mesmo) e me perseguia pela casa, repetindo a música. Numa hora eu me irritava, porque era babaca, e guspia nele. Aí ele falava “Ah é?! Vai guspir ni mim?!” E guspia de volta. Na cara. E me dava 10 socos.

E recomeçava a canção.

Conforme cresci, aprendi a ser menos babaca, mas ainda me irritava com algumas coisas. Até que entrei numa aula de desenho e conheci um professor que me fez voltar a ser muito babaca. Para a minha surpresa, o nome dele era Fausto também. Ele fazia piadinhas comigo o tempo todo, me zuava na frente dos outros alunos e sempre tinha uma resposta genial que me fazia parecer um imbecil toda vez que eu tentava retrucar.

Numa dessas quarta-feiras no estúdio de pintura ele avisou que ia sair da escola e se mudar pra outra cidade, e nesse dia, em meio a um cigarro e outro, ele me ensinou uma das coisas mais incríveis na vida: “Thales, eu só te encho o saco porque você fica irritado. Se você não ligasse, não teria graça e eu já teria parado antes.”.

Porra.

Um mundo novo se abriu naquele momento e eu nunca mais me irritei com os apelidos de Tuxukim, Vietnamita, Cabeçudo, Preguinho, Quatro Zóios, Motoca, Crente da Bunda Quente, Barata na Perna, Irmão do Boka, Virjão, Simba, Chinês, Cabeleira, entre outros. Anos de bullying explicados e sanados em quinze segundos de conversa.

Infelizmente, muita gente ainda precisa aprender essa verdade libertadora. Nos últimos meses conversei com pelo menos meia dúzia de pessoas que ainda não aprenderam a arte de não se irritar, e a maioria delas tem tido esse problema com coisas muito mais sérias que apelidos, musiquinhas e guspe. Algumas delas se irritam com atitudes de pessoas da família, outras com o ambiente de trabalho e algumas delas com coisas que aconteceram há décadas atrás.

Não tenho a pretensão de ajudar essas pessoas aqui, afinal, psicólogos estão aí pra isso, mas quero compartilhar o meu jeito de confrontar as irritações nossas de cada dia.

Dividi em 4 etapas, todas começando com a mesma sílaba que é pra parecer livro de auto-ajuda mesmo:

Respirar – Se você não respirar, você não é um ser vivo. Começa por aí. Mas fora essa piada desnecessária, é necessário respirar fundo às vezes. Bem fundo. Fundo a ponto de se afogar de tanto ar e não conseguir cometer o erro de falar algo de cabeça quente. Já vi muita gente tomando as decisões mais imbecis e insustentáveis da vida porque não deram uma boa respirada antes de abrir a boca.

Como diria um velho sábio japonês, entrar numa luta já é perder a luta. Então, antes de responder, retrucar ou guspir no irmão, respire. Apenas respire.

Relevar – Eu sei, eu sei. Ela esqueceu tudo que você fez no passado e disse que você é um bosta. Ele falou que a comida da mãe é melhor que a sua. Ela falou que você é um bosta, de novo. Ele chamou sua mãe de coxinha, seu pai de risole e disse que comeu os dois. Ela não sabe brigar, tá chorando e te chamou de bostão, dessa vez.

Relevar não é fácil, minha gente. Mas até as ofensas ou atitudes mais absurdas, você pode simplesmente deixar pra lá.

Dar a outra face, que aquele rapaz judeu insistia em doutrinar, é justamente isso, relevar as agressões quantas vezes for necessário.

Como dizem no futebol de roça, se não saiu sangue, não é falta. Segue o jogo!

Reduzir – A validação para relevar as coisas leva a esta etapa. Muitas vezes, no calor do momento a gente expande coisas pequenas e, na cegueira da raiva, conclui coisas cada vez mais absurdas. “Ah, ela virou a cara pra mim ontem, e eu sei que isso é porque quando passou o reprise do último episódio de Kubanacan em 2004, no terceiro intervalo, eu comi a última pipoca do pote do meio, que estava, PASMEM, bem na frente dela!”. Aí você descobre que ela virou a cara porque pisou num chiclete e parou pra olhar pro pé.

Reduzir é procurar as reais intenções de cada ato. A maioria das brigas nascem de ações mal pensadas ou mal interpretadas, e não de ações maldosas. Se você reduzir as coisas, vai encontrar motivos genuínos, como carência, ignorância ou simplesmente falta de noção.

Resetar – A parte mais difícil de todas é essa. E ela é totalmente independente das outras, porque pode ser acionada mesmo quando você falhou em todo o resto. Resetar não é apenas desligar e ligar de novo. Resetar é uma atitude drástica e que tem a ver apenas consigo mesmo. Resetar é pegar uma caneta, apertar aquele botão escondido no Tamagotchi e recomeçar do zero. É arrancar à força da memória aquilo que já foi feito e traçar uma linha nova, daqui pra frente.

Resetar é perdoar genuinamente, é aquele perdão que descarta o que aconteceu e não vomita todo o passado de volta na primeira oportunidade que tem. É o 70 vezes 7 e é pra valer.

No fim de tudo, não é simples. E nem é divertido. Mas é libertador e protege de desgastes desnecessários o que é realmente necessário: se relacionar em amor uns com os outros.

Já diria o Menino do 8, “tá bom, mas não se irrite!”. E eu complemento: Você só se irrita com aquilo que você deixa te irritar.

Meus Reveiõns de roupa preta

Reveilon. Reveillion. Revelion. Revieon. Reveião.

Virada de Ano.

Nunca soube escrever o nome gourmet desse evento anual no qual comemos umas uvas passas escondidos enquanto olhamos, famintos, a comida esfriar. O chester lá, todo convidativo, e você abraçando todos os seus novecentos e trinta e dois parentes. Alguns deles ainda vão te dar aquele abraço de verdade, te balançando pra lá e pra cá por dois minutos, e talvez até te molhar o ombro com meia dúzia de lágrimas sinceras.

Todo mundo espera com ansiedade pelo novo ano, repleto de oportunidades e novos desafios a serem vencidos. Eu geralmente espero pela chance de comer logo o chester.

Quando era mais novo eu sempre fui o chato dessas festas. Não que eu tenha mudado muito, mas eu realmente não gostava do Reveião. Via alguns parentes fazendo aquelas promessas vazias e mentirosas, via gente brigada chamando “trégua de dois dias” de perdão, via gente comendo lentilha (credo, troço ruim). Mas o que mais me irritava era ver gente de branco. Nossa, como eu ficava incomodado com essa superstição da roupa branca.

Menino-rebelde-problema que eu era, comecei a usar preto nos Reveileões lá pros 11 anos de idade (quando Bug do Milênio ainda metia medo nas pessoas). Ficava com meu discurso anti-superstição apontado pra cada parente que viesse falar sobre o mau agouro que a cor da minha camiseta (e calça, e meia, e cueca) traria. Quase ninguém falava nada, até porque eu geralmente dormia de fome no sofá às 22h e acordava às 24h achando que estava num bombardeio em Bagdá.

Mas uma coisa que eu não entendia até pouco tempo atrás é que o Reveion é necessário. E escolher uma cor de roupa pra essa ocasião não é tão absurdo assim.

A vida humana é uma vida totalmente pautada por rituais e suas roupas específicas. Nossas mães escolheram uma roupa específica pra sairmos da maternidade no colo delas, e 365 dias depois nos colocaram em alguma roupa totalmente desconfortável para nosso primeiro aniversário. Nosso primeiro dia na escola teve o uniforme mais bem passado de nossas vidas. Já nosso trote da faculdade acaba com a roupa tão suja que é bom nem mostrar pras mães. Nossa formatura teve aquela roupa de padre e aquele chapéu do Professor Tibúrcio. Pra casar, as mulheres usam o vestido mais caro lindo que conseguiram achar. Os homens, curiosamente, usam o mesmo traje com o qual serão enterrados.

Cada um desses rituais tem a necessidade de sinalizar para nós mesmos e para os outros o fim de uma etapa e o começo de uma nova. E pra simbologia destes rituais funcionar bem, aliamos comidas, bebidas, lugares, frases e roupas específicas que remetem a coisas realmente importantes, algumas que talvez já se tenham perdido nas velhas tradições. É nessa simbologia aí que entram as cores das roupas. Ok, deve existir gente que realmente acha que a Hering tem poderes sobrenaturais e capacita cada roupa amarela dela a te trazer dinheiro pelos próximos 365 dias (ou que uma lingerie vermelha vai te trazer amor, coisa que já testei e continuo solteiro pra provar meu ponto de vista cético das coisas), mas o que acontece de verdade na maioria dos casos não é isso. O se vestir de branco é nada mais que reconhecer e dizer que espera a paz como uma prioridade no próximo ano. Usar amarelo não traz dinheiro, mas te lembra nesse ritual que você tem que correr atrás das coisas se quiser ter uma vida financeira diferente. O vermelho é porque tá com fogo no rabo mesmo, não tem uma explicação bonitinha.

E é pensando nessas coisas todas que eu decidi usar preto nesse próximo Reveilion. Não, não é uma recaída em minha rebeldia adolescente, é simplesmente um desejo de morte para o próximo ano.

Nos próximos 365 dias eu desejo que morra todo ódio que senti no último ano, e o amor tenha mais espaço no meu dia a dia. Desejo que cada consequência dos meus erros morram e interrompam a inércia da minha maldade. Desejo que meus novos traumas e medos morram, e novos rumos se tornem livres para eu seguir. Desejo que minha dificuldade em perdoar algumas pessoas morra, e a reconciliação seja uma grata surpresa para todos. Desejo que meus dogmas morram e me permitam ver o mundo sob novas óticas. Desejo que meus vícios morram e meus olhos se abram para o que não consigo enxergar ainda. Desejo que minha falta de fé morra e a gratidão pelas surpresas de Deus venha mais naturalmente.

Desejo morte à preguiça, à procrastinação, ao desperdício e ao desespero. Desejo o velho eu cada vez mais morto, pra que assim eu viva em novidade de vida.

Para o próximo ano eu desejo que a mentira que eu vivo morra, e a Verdade não tenha mais que dividir quarto aqui dentro de mim.

Já diria o falecido poeta, “Eu prefiro morrer do que perder a vida”. E eu desejo isso pros nossos próximos 365 minutos, dias e anos: que a gente entenda que o único jeito de não perder a vida de verdade, é morrendo para tudo que é de mentira.

Na seca

Que atire a primeira pedra quem nunca colocou água no frasco de xampu porque se esqueceu de comprar outro. Mente quem diz que nunca esganou o tubo de pasta de dente quando estava no finzinho, ou quem nunca teve que se virar com resto do resto do desodorante por um ou dois dias. Assumo que já tive que colocar um par de meias usadas pra sair porque todas os outros estavam no cesto de roupa suja. Assumo também que quando o tanque do carro está cheio, dirijo sem medo de ser feliz, mas quando aquela luz do combustível acende eu oro por um mundo só com descidas.

As coisas acabam uma hora ou outra. E não pense que este é mais um daqueles textos em que eu vou metaforizar alguma coisa e falar de algo abstrato que também acaba uma hora ou outra (como a zoeira, que nunca acaba). Eu quero falar das coisas mesmo, mais especificamente quero falar da água.

Sempre assisti na TV com aquela surrealidade que só a distância nos permite aquelas imagens do sofrido povo africano, se arrastando atrás de lagoas sujas, procurando qualquer coisa que pingue pra matar a sede. Via também o sertão nordestino, com a terra rachada por falta de chuva e os bois morrendo de sede. Metade da minha família vem da Bahia e os mais velhos contam de como era andar longas pernadas com um jarro de água na cabeça. Talvez por isso eu sempre tive um certo respeito por este líquido vital. Mas toda essa história de dificuldade de se encontrar água era diluída quando ouvia a professora de geografia falar que o Brasil é o país com mais água do doce do mundo. Poxa, se Deus é brasileiro, eu tenho lá minhas dúvidas, mas deve ser aqui que ele coloca o canudinho quando está com sede.

Talvez por viver na famosa “terra em que se plantando, tudo dá”, eu tenha crescido mal acostumado. Confesso que fui daquelas crianças que davam descarga só pra ver a água girando, e que em boa parte da minha vida eu tive que abrir a torneira pra ouvir um barulho de água e conseguir fazer xixi. Confesso também que metade das vezes que lavei louça na vida, o fiz com a torneira aberta quase o tempo todo. E pior: confesso que boa parte dos textos deste blog foram pensados em momentos de reflexão sob o chuveiro.

Mas há um ano atrás eu entendi pela primeira vez a importância de se economizar água. E não foi por perceber os níveis dos reservatórios caindo. Foi porque eu esqueci a garrafa no carro mesmo. Estava numa viagem aventuresca com um amigo, íamos percorrer uma longa trilha e depois subir uma pedra de quase 2000 metros de altitude pra acampar lá em cima. Me lembro da gente montando as malas e separando um belo galão de água, mas no meio da trilha bateu uma sede e a gente percebeu que ele não estava mais entre nós. Não havia nenhuma fonte de água por perto e tivemos que nos virar com menos de 1 litro de água cada um. Se dava sede, a gente só molhava a garganta. Se precisava lavar as mãos, o fazíamos com gotas. Se machucar estava proibido.

Na manhã seguinte descemos lá do alto exaustos e um tanto desidratados. Bebemos toda a água necessária pra repor tudo que perdemos, mas percebi que alguma coisa eu tinha ganhado: consciência. Nos dias seguintes, já em casa, eu passei a olhar a água de outra maneira. Fechava o chuveiro pra me ensaboar, tomava banhos mais curtos, evitava lavar a louça (deixava pros outros lavar, assim EU não gastava água). Mesmo que timidamente, a experiência de privação de algo importante me fez entender o valor real que isso tem. É a velha história de que só damos valor para aquilo que perdemos.

Não deveria ser assim, mas não tem jeito melhor de aprender a valorizar algo do que ficar sem essa coisa. Há cerca de 10 anos atrás o nível da água desceu até bater na bunda de todo paulista quando uma forte estiagem secou de maneira inédita nossos reservatórios. Rolou um pouco de medo, um pouco de dança da chuva, mas a seca passou e respiramos aliviados enquanto lavávamos nossas calçadas. Mas dessa vez nem tem mais água pra bater na bunda. O Governo, desgovernado e desleixado que é, tenta invocar Moisés e tirar água da pedra. A população se vira com o que tem. Os motoristas de caminhão pipa andam escoltados. Os canais de TV reprisam Water World. Os cientistas dizem “Nós avisamos”. Os religiosos ansiosos dizem que é o fim dos tempos. (Os presbiterianos estão tranquilos em seus batismos, eita igreja sustentável, minha gente!)

A grande verdade é que todo mundo está ocupado demais em ficar desesperado e em apontar o dedo pro vizinho que ainda insiste em lavar o carro, que ninguém percebeu a enorme oportunidade que temos. Nós, povo mais aguado da face da Terra, temos a grande oportunidade de aprender a viver com menos. Nós recebemos a maior oportunidade de aprender a economizar, a reutilizar, a repensar nosso consumo. Temos a oportunidade de criarmos consciência sobre a necessidade de preservação do Meio Ambiente, das florestas, de jogarmos o lixo no lugar certo, de fazer xixi no banho e de fechar a torneira enquanto escovamos o dente. Podemos aprender a tomar banhos mais rápidos, a lavar o carro com balde, a varrer a calçada. E podemos pressionar nossos governantes a limparem nossos rios, a cortarem os desperdícios com vazamentos e a pararem de enxergar lucro na qualidade de vida da população.

Mais do que tudo isso, a gente tem em mãos uma enorme possibilidade de aprender a amar ao próximo. O desperdício e o descaso de uma pessoa afeta diretamente seu vizinho. Porém, pior do que isso, o desperdício e o descaso de nossa geração pode gerar escassez, doenças e guerras para as gerações seguintes.

Eu me entristeço com a dificuldade que estamos passando, mas sou grato, e muito, por cada gota de chuva que não caiu para nos fazer aprender a amar o próximo com cada gota de água ainda que temos.

(vale a pena assistir este clipe, tem tudo a ver com o assunto)