Agridoce

Já passava de uma da madrugada. O filme tinha acabado de terminar, o pessoal começou a se levantar pra ir embora e eu comecei a pensar em como matar minha fome noturna. Tinha sobrado brigadeiro de colher que as meninas fizeram pra comer durante o filme, mas minha mãe tinha feito peixe frito na janta. Me bateu o dilema: Brigadeiro ou peixe? Doce ou salgado? No meio do embate moral que se formou dentro de mim, ouvi uma voz vindo de dentro que me disse: “Come tudo junto, Thales”.

A voz era o sono, eu sei, mas eu decidi segui-la e peguei um pedacinho do filé de merluza empanado, cobri com um pouco de brigadeiro e comi com a exata cara de nojo que você está fazendo agora. E me assustei, porque ficou bom. Sério. Peguei um pedaço maior, tentei de novo pra ver se não era alucinação, mas não, realmente tinha ficado muito bom. E quando digo bom, não me refiro a comer batatinha com Sundae do Mc Donalds (isso as pessoas fazem só pra chamar atenção), mas talvez, debaixo do olhar de desaprovação de quase todos ali, eu tivesse acabado de descobrir o Santo Graal da improbabilidade de gostos misturados.

Segundo minha enciclopédia mental de cultura inútil, o que a gente geralmente chama de gosto é na verdade o cheiro da comida. Existem apenas cinco gostos que nossas línguas são capazes de discernir: o ácido, o doce, o salgado, o amargo e o umami. Sim, existe um treco chamado “umami” que ninguém sabe realmente como é, mas que todo mundo concorda que é gostoso. O resto todo é apenas o cheiro da comida, e essa é a razão pela qual a comida fica sem gosto quando estamos gripados, ou porque tampamos o nariz quando vamos tomar aquele remédio com delicioso gosto de chão de hospital.

Mas fora toda a complexidade do que é gosto e do que é cheiro, o divertido mesmo é misturar coisas inesperadas na cozinha. Já fiz algumas boas experiências, como o frango grelhado com morango, que fica ótimo em um sanduíche com queijo, por exemplo; ou o filé de abacaxi temperado e assado à manteiga, que vai muito bem com omelete e champingnon; e uma vez coloquei pedaços de chocolate refogados ao alho no molho de tomate para acompanhar macarrão, e ficou realmente bom. É claro que algumas vezes fracassei, e te digo pra evitar colocar limão em qualquer vitamina com leite, não tentar comer Sucrilhos com Sprite e jamais jogar uma colher de Nescau na Coca-Cola.

O interessante dessas misturas é que a gente descobre que o doce não é o contrário do salgado e nem o ácido o inimigo do amargo, mas ambos os gostos podem coexistir fazendo festa na boca. Eu posso colocar sal na manga e experimentar o doce e salgado ao mesmo tempo, assim como posso colocar limão na rúcula e sentir o ácido e amargo juntos. Ou posso colocar sal na manga, a manga na rúcula e mergulhar tudo em suco de limão pra tentar descobrir finalmente o que é o umami, e ainda não vou descobrir o que é. Mas além dos gostos que sentimos na língua, as sensações que sentimos na vida também são assim.

Certa vez compartilhei algumas dessas experiências culinárias com um Chef de Cozinha de verdade e, obviamente, ele me disse que sou retardado e tinha fumado maconha pra experimentar essas coisas. Mal sabia ele como era lá em casa…

Meu pai era o mestre da nojeira na cozinha. Eu imagino que ele tinha algum problema no paladar ou olfato porque sempre comia comida azeda ou estragada sem perceber, mas além disso não era estranho entrar na cozinha e o encontrar colocando chuchu em cima de bolacha Passatempo, misturando jiló com doce de figo e mel, ou comendo pão com abobrinha, manga e amendoim. Não posso negar que depois de um tempo o estranho era vê-lo comer alguma normal. E também não posso negar o quanto ainda acho anormal ter que falar dele apenas no passado.

Há pouco tempo atrás eu tomei o café da manhã mais estranho da vida. Me lembro que bebi um suco de laranja, comi um Polenghinho e uma barrinha de cereal, mas por ter encontrado meu pai tragicamente já sem vida há algumas horas, senti apenas um amargo intenso em tudo que experimentei naquele dia. De repente comer tomate com gelatina ou qualquer outra mistura absurda que ele fazia parecia ter mais sentido do que tudo ao redor. O amargo da tristeza que eu sentia era tão forte que me impedia de perceber qualquer outra coisa. Mas aos poucos comecei a sentir algo estranho e improvável.

“É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia a poesia do velho Vinicius, e aprendi assim minha vida inteira de que ou se sente alegria ou tristeza. Mas conforme o baque foi passando, eu percebia que, alheia à toda a tristeza que sentia naquele momento, havia ainda um sentimento destoante, uma estranha alegria latente dentro de mim. Apesar de todo o medo e insegurança que fazia os músculos do meu coração oscilar, meus músculos da face repuxavam estranhamente me colocando um sorriso improvável no rosto. Eu não entendia bem da onde vinha, mas não queria abrir mão daquela alegria estranha que vez ou outra se deixava sentir ali no meio de toda aquela bagunça.

Já ouvi gente dizer que a alegria é uma invenção moderna e que a busca por ela é uma jornada sem sentido. Por outro lado, não é incomum ouvirmos que precisamos fazer ou ter certas coisas para sentirmos alegria. Ligamos a alegria à realização profissional, aos relacionamentos amorosos, à saúde, ao dinheiro na conta do banco ou ao jogo do Corinthians (se perder, a gente fica alegre, é claro). Mas isso tudo não passa de distração, como uma sobremesa doce após o almoço. E não me entenda mal, distrações e sobremesas são sempre bem vindas. O problema é vincular sua alegria com coisas tão efêmeras e imperfeitas quanto dinheiro, romances ou o ataque do Timão. Se sua alegria é tão falha assim, que triste ela é!

A alegria verdadeira e de que precisamos geralmente passa despercebida o tempo todo. Alheia a todos os sabores amargos e doces que a vida nos oferece, separada de toda tristeza e distração que nos atinja, a alegria está ali escondida, insípida, inodora e incolor, dando liga a cada um dos sabores. A alegria que precisamos não dá cárie nos dentes, não faz subir nossa pressão arterial e não nos coloca uma careta engraçada no rosto. A alegria que precisamos não tem prazo de validade, não estraga fora da geladeira e não mancha roupa alguma.

A alegria que precisamos nos refresca a alma. A alegria que precisamos nos saceia a sede e nos permite experimentar o equilíbrio de tudo que a vida nos oferece. E mais que isso, a alegria que precisamos nos oferece vida.

O velho Vinicius de Morais uma vez disse também que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É realmente muito triste esse ponto de vista onde a tristeza não cumpre sua função de nos levar à reflexão e à uma consequente mudança de pensamento, mas ao contrário, nos escraviza e nos leva cada vez mais pra baixo, cada vez mais fundo.

Porém, é no fundo do poço que se encontra água limpa.

Não desejo isso a mais ninguém, mas chegar tão lá embaixo é uma das maneiras de se aprender esta verdade. Porém a boa notícia é que não é necessário ir tão fundo assim: a alegria verdadeira que precisamos nos é oferecida o tempo todo graciosamente e de graça. A alegria verdadeira não se vende em galões de 20 litros e não se acaba com má gestão da Sabesp. A alegria verdadeira não se seca com o calor e não se suja com nossa podridão. E o melhor de tudo: não importa o tamanho da nossa sede, beber dela uma vez já é o bastante pra saciar uma vida toda.

Os que tem sede, venham. Os que choram, bebam. É tudo de graça. É tudo graça.

Felizes os que choram, porque o choro acaba. Felizes os que choram, porque a alegria jorra pra eternidade.