Com quem seria?

(Texto originalmente escrito para o blog da Ultimato Jovem com o título “Escolha amar alguém imperfeito para você”)

 

Seus melhores amigos estão ali. Sua família está ali. Sua tia perua, seu primo estranho e seus avós também. É uma reunião de pessoas e você é o centro das atenções. Há bexigas. Há um bolo. Há uma vela. Há uma canção. Mas todo este protocolo de alegria se transforma em angústia quanto mais se aproxima do que você torce para ser o final – mas que não será. Você puxa o ar pra soprar a vela, mas não acaba aí, sempre há algo a mais nesta cena: há um tio sem noção. E este tio esperará menos de 3 segundos após o fim da música oficial deste ritual anual para carregar todos a um momento de vexame e exposição desnecessária de suas fraquezas:

“Com quem será? Com quem será? Com quem será que o fulano vai casar?”

Lembro que nos meus aniversários durante a infância eu sentia vontade de me esconder debaixo da mesa nessa hora. Não foi a toa que na adolescência fingi maturidade e disse pra minha mãe que com 15 anos já podia parar com esse negócio de festa de aniversário. “No máximo um bolinho com o pessoal daqui de casa mesmo e tá bom demais”. Mentira.

O tempo passou e fiquei muito tempo sem celebrar meu aniversário, mas nos últimos anos tenho ido a tantos velórios que comecei a valorizar mais a ideia de celebrar a vida todo ano. E agora, chegando à terceira década de caminhada e piadas ruins sobre essa Terra, percebi que o constrangimento já não é apenas meu na hora de cantar Parabéns. Acaba a música e até o tio sem noção fica sem graça. Um olha pro outro, alguém puxa o ar pra cantar, mas a troca de olhares denuncia que talvez a brincadeira já perdeu a graça. O bolo de climão já pode ser servido.

Não vou mentir que tenho medo de trocarem a letra da música nos meus aniversários pra “Com quem seria?”.

Em meio a tanta pressão e babaquice que vemos por aí, este texto vai para você que, mais do que estar solteiro, é solteiro. Você que sempre fica de vela nos rolês. Você que trabalha no jantar de casais da sua igreja. Você que é chamado pra ser padrinho de casamento junto com sua mãe (acontece). Você que não escolheu esperar, mas que não teve tanta escolha assim também.

Tenho uma mensagem pra você: não escolha desesperar, mas tome cuidado também para não se acomodar.

Eu sei, a vida, a galera e o tempo às vezes pressionam muito. Eu sei, você vê todo mundo namorando, casando (e, infelizmente, até divorciando) e se pega pensando quando será sua vez (menos do divórcio, por favor). Mas é importante ter em mente que não é preciso ficar desesperado, porque gente desesperada toma atitudes desesperadas, e atitudes desesperadas não costumam ser as mais inteligentes.

Muitas vezes nos encontramos em becos sem saída durante a vida. E estar neste beco sem alguém pra dar uns beijos não é legal. Junte isso à pressão vinda dos relacionamentos perfeitos postados nas redes sociais, das brincadeiras com a solteirice, do tempo que passa e dos prazos irreais que você estipulou pra sua vida. Você se encontra cada vez mais longe de um relacionamento sério, e neste beco sem saída, vê de relance a esperança virando a esquina e te deixando, sozinho, pra trás. Neste momento você abraça um novo amigo chamado Desespero e resolve sair por aí usando os outros pra tentar dar um jeito em um problema mal resolvido consigo mesmo.

Agora é hora de matar cachorro a grito. Nessa hora já não importa muito a personalidade, a beleza e muito menos os princípios: caiu na área é pênalti. Nessa hora você é tomado pelo espírito de Rambo e afunda o dedo no gatilho esperando acertar um tiro sequer. É nessa hora que você resolve ver qualé a do Tinder e em meia hora flerta com um número não saudável de pessoas aleatórias. É nessa hora que você deixa as motivações erradas te guiarem, e acaba envolvendo nos problemas que você criou pra si mesmo gente que não tem nada a ver com eles. É nessa hora que você não percebe o que tem te motivado de verdade.

A carência e a solidão jamais devem ser motivadores pra procurar alguém com quem partilhar a vida.

Mesmo que vingue (o que é raro), um relacionamento que começa pelas motivações erradas terá um longo e doloroso caminho pela frente, e se não for tratado com maturidade, carregará esse peso pra sempre.

Por isso, mais importante do que não estar desesperado, é estar satisfeito. A satisfação não deixa muito espaço para o desespero. Estar satisfeito em estar solteiro pode parecer estranho, mas acontece quando você percebe que é perda de tempo viver uma caçada constante quando se poderia curtir o que a vida de solteiro te permite. Existe tanta coisa boa pra fazer enquanto se está solteiro e nós muitas vezes desperdiçamos esse tempo fantástico vivendo uma vida de idolatria ao relacionamento que não temos. Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã mente solteira. Há Playstation, por exemplo.

Parece besta, mas um Playstation é um investimento muito melhor do que os ingressos pras baladinhas dessa vida, ou do que aquela roupa cara que você quer usar pra impressionar alguém, ou do que a gasolina pra ir em shoppings (ou praças, se você morar no interior). E se você não é de Playstation, tem também passagens de avião e hotéis de um mundo enorme que se pode conhecer sozinho ou com os amigos. Tem cinema ou show com os amigos pra quem é rolezeiro, tem pizza em casa pra quem é de Netflix. Tem bicicleta e parques pra passear; tem futebol com a galera no sábado à tarde; tem Natal e Ano Novo onde você quiser, sem precisar negociar os feriados com alguém; tem estudo tranquilo; tem noites bem dormidas (ou nem dormidas, se você preferir); tem muitas coisas que foram feitas para serem curtidas no momento em que não se tem um compromisso. Não que ter compromisso seja ruim, mas lá na frente será melhor sentir saudades do que se curtiu do que remorso do que não se aproveitou.

A solteirice não é um estado civil, é uma oportunidade. Oportunidade de descobrir qual é sua real identidade antes de decidir mesclar seus sonhos e verdades com os de mais alguém. Mais do que autoconhecimento, é uma oportunidade de crescer em maturidade e, principalmente, espiritualidade. Aprender a estar satisfeito consigo mesmo passa primeiro por aprender a estar satisfeito em Deus. E se não há satisfação em sua vida, tudo que você terá a oferecer a alguém em um relacionamento será uma bela frustração.

Mas é preciso cuidado também, pois a falta de esperança pode se manifestar na prima do desespero: a acomodação.

Talvez você já tenha entendido que comer em restaurante por quilo quando se está faminto é uma péssima ideia. Mas greve de fome também não é o ideal. Talvez você já entendeu que não é uma boa ideia sair por aí dando tiro pra tudo quanto é lado, e resolveu simplesmente não sair mais. Sua vida se tornou uma grande maratona de Netflix. Talvez você se sente como aquele ratinho de laboratório que toma choque toda vez que encosta no queijo, e decidiu que queijos não foram feitos pra você. Às vezes o monte de ilusões e desilusões amorosas tenham te machucado e traumatizado tanto que você acha que já não vale a pena arriscar mais.

Você passa então a negligenciar muita coisa na vida e a sabotar a si mesmo pra não dar nenhuma chance pro romance brotar nessa pedra que hoje você chama de coração. Mas é bem possível que sua visão esteja viciada por traumas passados. E se você acha que seria sim uma boa ter alguém com quem passar os melhores e piores momentos da vida ao lado, está na hora de tomar uma atitude consigo mesmo. É bem possível que exista alguém pra fazer maratonas de Netflix com você, mas é apenas desligando a TV de vez em quando que você vai descobrir isso.

Há alguns meses, eu desliguei o Netflix. Não porque eu quis, mas porque meu primo me chamou pra ser padrinho de casamento (junto com minha mãe. Acontece). Com a família toda lá, um tio empolgou no microfone e foi listar os sobrinhos que ainda faltavam para casar. Não eram muitos. Na verdade eram 3. Tava fácil lembrar de todo mundo, mas ele se esqueceu de mim! Não sei se ele não percebeu, não sei se ele perdeu as esperanças comigo, não sei se ele simplesmente se esqueceu de mim.

Mas, independentemente dele, naquele dia percebi que eu já havia me esquecido de mim.

Naquele casamento vi meu primo, bem mais novo que eu, dizer sim à uma vida nova e empolgante com uma mulher incrível. Vi reciprocidade real entre eles, e vi como os dois, que já eram pessoas fantásticas sozinhas, se tornaram ainda mais fantásticos juntos. Cada um se esforçando para ser melhor para o outro, e cada um tornando o outro melhor neste processo também. Era tanta evolução que as novas temporadas de Pokémon até perderiam a graça.

Vendo isso tudo, parei um instante e vi que eu não estava tentando me tornar melhor em nada. Tava no modo “deixa a vida me levar”, e a vida tava levando eu. Não que eu estivesse me tornando um vagabundo, não que eu estivesse desencanado de qualquer cuidado com minha aparência, não que eu estivesse largado nas drogas, estivesse me trancando em casa ou coisa assim, mas eu simplesmente tinha me esquecido dessa ideia toda de como deve ser legal compartilhar minha vida com alguém. Eu havia me acomodado em meu trabalho, meu corpo, minhas ideias, meus projetos, meu conforto, e não havia deixado espaço para compartilhar nada disso com ninguém.

Já faz um tempo que entendi que esse padrão Disney de romance não faz sentido. Isso aconteceu principalmente quando resolvi ler a Bíblia de verdade, e descobri que Deus não predestina romances por aí. Na Bíblia há basicamente três casamentos arranjados por Deus, e a galera lembra apenas de Adão e Eva (que não tiveram muita escolha) e do romance bonitinho de Isaque e Rebeca para justificar essas teorias de que Deus prepara alguém especialmente para você. O problema é que se esquecem de Oséias e a prostituta com quem Deus o mandou casar. Aí a teologia Disney vai por água abaixo.

O Deus que aparece na Bíblia não fica shippando as pessoas assim. O Deus que abençoou o casamento perfeito entre Isaque e Rebeca é o mesmo que abençoou os relacionamentos bizarros de Jacó, de Davi, de Raabe, de Rute e de Maria. (Se você não conhece essas histórias, saiba que são basicamente daqueles tipos de relacionamento que você teria um pouco de vergonha de contar pra família.)

O Deus da Bíblia não faz o Rapaz A pra Moça A, o Rapaz B pra Moça B e por aí vai, porque o Rapaz A é pecador e pode resolver ficar com a Moça B, e às vezes o Rapaz B tá beijando o Rapaz Y, e a Moça B fica frustrada e resolve rodar o alfabeto inteiro. A gente é rebelde demais pra esperar os três apitos do micro-ondas, imagina então para seguir romances programados por Deus!

A vida real é mais crua, porém é mais bela.

Deus coloca um monte de gente na Terra e não nos predestina a ficar com alguém, pois se assim fosse, pra quê serviria o amor? É melhor que isso: Deus é o autor do amor e nos deixa escolher dentre bilhões de pessoas uma só pra amar de maneira especial. Imagino que Deus até dá um empurrãozinho vez ou outra, mas no final a escolha de amar e seguir adiante é nossa.

Na vida real, Deus não tem alguém feito para você, mas te convida a se preparar para amar alguém imperfeito para você. O amor te leva a olhar os defeitos e fraquezas de alguém e escolher, assim mesmo, seguir adiante. Toma essa, Disney.

No casamento do meu primo me lembrei dessas coisas. Naquele dia percebi que estava acomodado em minha missão de compartilhar minha alegria com alguém e de oferecer o meu ombro quando a alegria do outro lado faltar. Percebi que estava acomodado na minha missão de crescer como homem para fazer uma mulher crescer também. Percebi que estava acomodado na missão de poder abençoar as próximas gerações de um mundo rebelde com filhos que possam continuar o legado que carrego de meus pais. Percebi que estava acomodado na missão de sinalizar a este mundo de paixões descartáveis de que o amor nunca sai de moda.

Porém, mais do que acomodado na missão, eu estava acomodado também no privilégio de poder experimentar reciprocidade nisso tudo, e assim, entender melhor o que é ser amado de graça pelo próprio inventor do amor.

Me ver acomodado nisto tudo me lembrou de que não é preciso estar em um relacionamento para começar a amar a outra pessoa. Não é preciso nem conhecer a pessoa! Ações práticas e relação ao seu corpo, saúde, finanças, responsabilidades e, principalmente, à espiritualidade são jeitos de começar a amar a outra pessoa mesmo que ainda solteiro.

Ao invés de se sabotar, aproveite a oportunidade que você tem de estar sozinho para cuidar da sua vida a fim de oferecer o seu melhor ao outro. Aproveite a oportunidade para crescer como pessoa, assim você estará apto a aproveitar o melhor que o outro tem a te oferecer também.

Não acredito que existam tampas e panelas por aí, e sei que tem gente que talvez fique melhor sozinho mesmo, mas espero que você se desprenda de qualquer tipo de desespero ou acomodação, e que resolva perseguir a perfeição de caráter do inventor do amor.

Que quando a oportunidade surgir, você escolha amar com graça alguém imperfeito para você.

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[Áudio] Relacionamento, infidelidade e amor.

Olás!

Eu sei, tô sumido. E nem tenho uma desculpa boa dessa vez. Tenho uns 50 rascunhos de textos pela metade e não tô conseguindo parar para concluir eles…

Mas quero compartilhar algo meio diferente hoje (só pra falar que tô menos sumido): esses dias atrás, pela primeira vez, eu preguei (ou dei uma palestra, sermão, chame como lhe for menos estranho) na minha igreja. Daí tenho a gravação do áudio aqui para vocês ouvirem.

Aproveitei o Dia dos Namorados para falar um pouco sobre relacionamentos e essas coisas doidas todas.

Pra quem não me conhece, sim, eu falo rápido e embolado. À partir de agora você vai ler meus textos imaginando um locutor de rodeio com paçoca na boca.

Grande abraço!

(ps: eu tô apanhando desse plugin do MixCloud… Mas vai assim mesmo.)

Apaixone-se por alguém que não te merece

Ah, como eu queria viver noutros tempos! Nesses dias de touchscreens, selfies e Tinder todo o romantismo nos foge por entre os dedos. Bons tempos eram aqueles em que ficávamos a ver as moças passearem pelos bosques, cavalgávamos no fim da tarde pelas campinas ao encontro da amada para declamar todo o nosso amor com o joelho direito no chão, os braços abertos e as folhas de outono como testemunhas. E então, depois um pé na bunda, voltávamos pro feudo tocando no alaúde aquela música fossa do Frejat.

Seja no feudo ou na cidade, seja à cavalo ou espremido num metrô, se apaixonar de verdade é quase sempre aquele ato irracional que muitas vezes vai nos custar horas de terapia e algum tempo pra recuperar a dignidade perdida. Mesmo assim, todo dia me deparo com vários textos do tipo “Apaixone-se por uma pessoa que te faça rir”, ou “Namore alguém que ande de bicicleta”, ou ainda “Case-se com alguém que saiba o nome dos 151 Pokemons da primeira temporada” (mentira, eu só estou tentando me ajudar nessa). Todo mundo quer dar um pitaco de como você deve proceder pra encontrar a pessoa ideal pra passar o resto da vida junto. Todo mundo pinta a vida como um conto de fadas, mas ninguém conta que o príncipe só sabe falar de academia e a princesa tem mais bafo que o dragão do castelo. Não é por acaso que essas dicas geralmente não dão certo.

Em todos os meus fracassos amorosos alguém (geralmente minha mãe) sempre chegava em mim dizendo que foi melhor assim, que quando não é pra ser não acontece, que Deus está preparando alguém melhor pra mim, que “quem sabe sua prometida ainda nem nasceu” (tem coisa mais desesperadora do que ouvir isso com mais de 25 anos?). São sempre essas e outras coisas do tipo advindas de contos de fadas, livros de auto-ajuda baratos e forçação de barra bíblica.

Por muito tempo acreditei que um dia Deus gastou tempo planejando a moça A para o moço A, a moça B para o moço B e todo esse alfabeto pareado e destinado a se encontrar um dia para viverem felizes para sempre. Acreditava que toda panela tinha sua tampa e comecei a pensar que talvez eu fosse uma frigideira ou, sei lá, um rodinho de pia nessa história toda. Mas um dia vi minha mãe tampando a panela do feijão com um prato e parei pra perceber que a moça A namorava o moço A e depois o traiu com o moço B, que por sua vez era afim da moça C e usou essa situação toda pra flertar com a moça E e gerar ciúmes, o que revoltou o moço J, que foi fofocar tudo pro moço L, que era secretamente afim do moço R, que virou padre depois que a moça N morreu num acidente trágico antes do casamento deles. A teoria do caos e toda aquela baboseira do bater da asa de uma borboleta podem explicar bem todo esse tornado nos planos do destino depois que a moça A resolveu dar uma escapadinha.

Já me cansei de ouvir aquele papo de que “existe uma pessoa prometida” pra mim, mas a verdade é que ninguém nunca me prometeu nada disso. E duvido que tenham prometido pra você também (a não ser que vossa senhoria ainda esteja a viver no Brasil Colônia e já pagaste adiantado o dote ao pai da donzela).

Não bastando a falta de lógica nessa história de que as pessoas estão destinadas umas às outras, o grande problema reside no fato de que não tem como existir uma pessoa certa pra outra se todo mundo no mundo é errado. De Dilma Roussef à Megan Fox não existe gente perfeita neste mundo.

Portanto, desencane de buscar a pessoa certa pra você e comece a buscar uma pessoa errada, porque é o único tipo de pessoa que se vai encontrar por aí. Aprender a se perceber como uma pessoa cheia de defeitos é essencial para finalmente se enxergar no mesmo patamar de gente ruim que, surpresa, todo mundo está. E à partir daí se pode derrubar os preconceitos e expectativas irreais baseados em ideais de perfeição que deixariam até Platão enjoado. Se precisar, assista aquele filme de terror chamado O Amor é Cego.

Mas calma. Não estou falando que se deva abdicar de todos os gostos pessoais e coisas que se acha importante encontrar na outra pessoa, mas sim de que você não vai encontrar todos esses gostos pessoais e coisas que acha importante numa pessoa. Não no mundo real. Aceite isso e aprenda a lidar com o inesperado sem descambar para a frustração. Boa parte do que chamamos de defeito são apenas características que o outro vai carregar pra sempre, e depende exclusivamente de você se esforçar para ajustar um pouco suas expectativas para fazer caber a pessoa que se gosta integralmente nos seus sonhos.

No fim das contas, é muito bonita a ideia de nascer destinado para amar e ser amado por outra pessoa, mas a realidade é sempre mais bonita que a fantasia simplesmente por ser real.

Na vida real não existem príncipes cavalgando cavalos brancos para salvar donzelas em perigo, mas existe pegar dois ônibus pra conseguir passar uma hora ao lado da pessoa (e mais dois ônibus pra voltar pra casa). Na vida real não existem dragões acorrentados em castelos, mas existe parar tudo que se está fazendo para ouvir a outra pessoa chorar do outro lado do telefone por alguma coisa que deu errado no dia dela. Na vida real não tem bruxa malvada, mas tem aquele chefe que te segura até às 19h e te faz perder a reserva do restaurante bem no aniversário de namoro. Na vida real não tem sapo enfeitiçado, mas tem vício em foto de perereca. Na vida não real não tem torre de castelo, mas tem 12 andares sem elevador. Na vida real não tem maçã envenenada, não tem fada madrinha, não tem sapato de cristal. Na vida real tem câncer, tem boleto, tem verruga na testa, tem suor na mão, tem erro de português, tem tênis molhado, tem um filho de 5 anos, tem calvície hereditária, tem parente morrendo, tem diarréia no primeiro encontro, tem alface no meio do dente.

Na vida real não tem muita ficção.

E concorde comigo: é muito mais bonito se apaixonar com tudo isso acontecendo do que simplesmente porque o destino apresentou a pessoa prometida para você.

Há um tempo atrás uma das minhas amigas que mais me conhece na vida veio me falar que esperava muito que eu encontrasse alguma garota especial que me merecesse de verdade. Recebi aquilo respondendo um “Eita, tomara que não!”. Eu, que me conheço melhor que minha amiga, sei o quão ruim sou e o quão péssimo consigo ser se parar de me esforçar só um pouquinho. Além disso, não sou rico nem galã, e o que deveria compensar sendo legal e engraçado geralmente não sai como esperado. Então me parece um baita de um castigo alguém merecer uma pessoa cheia de defeitos como eu.

Porém, sabendo que no fundo ninguém realmente merece algo de bom, espero encontrar um dia alguém que me aceite. E espero estar pronto para aceitá-la também.

Acredito que tudo que existe e acontece de bom sobre a Terra nos ajuda a entender um pouco mais de quem Deus é e o que ele tem feito por aí, e no caso de se apaixonar isso fica ainda mais evidente para mim. Nosso coração é podre demais para aceitar o quão podres realmente somos, e toda essa presunção só evidencia o quanto estamos distantes de alcançar qualquer coisa de bom por nossa própria conta. Somos culpados do mau que somos e do mal fazemos, e não merecemos nada além da justa punição de morrermos solitários e separados do que quer que buscamos pra vida. Mas apesar dos defeitos, apesar dos erros, apesar de quem nós somos, o Amor se encarrega de absorver isso tudo e anular toda e qualquer rebarba que o impeça de nos aceitar ao seu lado onde não existe “até que a morte os separe”.

Não existe merecimento nenhum em ser amado. O nome disso é graça.

Se for pra se apaixonar, que não seja por quem te mereça.

Tenha paciência e deixe que o Amor faça o trabalho dele e una perfeitamente todas as coisas.

Se apaixone por graça, simplesmente.

Aquele abraço

Pode parecer fofo demais pra mim, mas uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi virar tio. É legal demais aguardar o nascimento de um sobrinho e depois acompanhar o desenvolvimento dele sem ter que ficar acordando de madrugada e sem ter que trocar fraldas, já que você não é o pai da criança. E quando menos se espera, você já está fazendo piada com pavê naturalmente e ensinando a criança a fazer coisa errada.

Me lembro que com meus três sobrinhos um dos momentos em que mais aproveitei foi quando eles aprenderam a abraçar. Isso também pode parecer fofo demais, mas não. Obviamente, eu amo abraçar essas crianças e não consigo vê-las sem sair correndo feito retardado exigindo um abração no tio, mas era extremamente divertido mesmo convencer elas a abraçarem tudo que vissem pela frente. Depois que ganhava meu abraço eu falava “Isso, agora dá um abraço na bicicleta também. Pronto, agora abraça a mesa. Que gostoso! Agora abraça a parede. Olha como ela ficou feliz! Mas o chão também quer um abraço, oras!” e assim passava um bom tempo me divertindo às custas de abraços desperdiçados em coisas inanimadas.

Mas quando criança eu também era meio tapado nisso de abraçar. Me lembro que uma vez saí correndo todo feliz e dei um baita abraço na minha mãe, daqueles abraços de criança que segura forte numa coxa e repousa a cabeça no quadril. Fiquei um tempo considerável ali até perceber que aquela mulher, que não era minha mãe, estava achando a situação bem estranha. Soltei dela sem graça e fui procurar minha mãe verdadeira bastante desconcertado. Duas décadas mais tarde, provando que continuo tapado, fui conhecer a família da minha namorada e, por centímetros, não abracei por trás a namorada do meu cunhado por engano bem na frente de todo mundo. Acho que ninguém percebeu, mas isso ajuda a explicar porque fiquei solteiro novamente.

Apesar da minha falta de atenção e das sacanagens com sobrinhos, a ciência tem descoberto nos últimos anos que o abraço é na verdade extremamente benéfico para o corpo humano. Estudos mostram que, além de ser muito gostoso, o abraço (e quando digo abraço, me refiro a abraço de verdade, não aquela ombrada social com três tapinhas nas costas que costumamos fazer) realmente alivia dor, estresse e ansiedade, auxilia em tratamentos de problemas psicológicos, reduz a pressão arterial e diminui o risco de pegar gripe (desde que você não abrace pessoas gripadas, é claro). Abraço faz bem pra saúde, veja só!

Sem saber disso tudo, num dia desses eu estava passando por Campinas e aproveitei pra ir no Hospital da Unicamp dar um abraço na minha vizinha. Ela foi transferida pra lá às pressas depois de sofrer vários infartos e como o marido dela não conseguia nenhuma notícia do hospital, prometi a ele que aproveitaria minha viagem pra voltar de lá com notícias. Perguntei dela na recepção e, pra minha felicidade, ela havia acabado de sair da UTI e já estava bem e no quarto. Elevadores acima, pedi licença pra entrar no quarto e ela ficou tão eufórica por ouvir uma voz conhecida que só não pulou da cama porque as pernas dela ainda estavam anestesiadas por conta do cateterismo. Conversamos um pouco, rimos bastante, oramos juntos, mandamos uma foto pra família e ligamos pro marido dela.

Quando estava pra sair, perguntei se ela queria que eu mandasse alguma mensagem pra eles e ela pediu “Manda um abraço pro Dê!”. Retruquei falando “Poxa, Glorinha, mas só um abraço pro Ademir?! Não quer que mande um beijo?”, e ela então fez uma cara de “Ué…”. Acatei o pedido dela rindo e voltei pra casa.

Alguns dias depois entreguei o abraço pro Ademir. Infelizmente, o fiz na porta do velório. Ela havia pegado uma infecção no hospital e acabou não resistindo por muito tempo. Eu já o tinha abraçado algumas outras vezes, mas quando contei essa história pra ele e entreguei este abraço enviado por ela, ele chorou e me apertou mais forte, como se ela estivesse ali nos braços dele. Como num último gesto dela, mesmo que inconsciente do futuro que a aguardava, aquele abraço levava um pouco da força e conforto de que ele precisava pra se curar naquele momento.

E a mim, por ter tido a honra de ser usado como intermediador deste gesto, ficou a lição de que não existe maior demonstração de amor do que um abraço.

Existem milhões de outras formas de se interagir com pessoas que se ama. Existem formas que demonstram o máximo de intimidade, como o sexo ou usar o banheiro de porta aberta. Existem formas que demonstram como a pessoa é valiosa, como torrar o salário comprando um anel de ouro ou até mesmo doando um órgão pra que a outra continue vivendo. Existem formas que demonstram carinho, como um beijo ou um “vai ficar tudo bem” sussurrado ao pé do ouvido. Mas nenhuma dessas consegue funcionar em todas as ocasiões como um abraço.

Ninguém dá presentes quando o outro chega em casa contando que foi demitido. Ninguém dá beijo de língua pra contar do falecimento de alguma pessoa próxima. Ninguém tira a roupa quando ouve um diagnóstico de câncer. Ninguém transa porque está desiludido com a vida. Não tem carinho, não carro zero, não tem rim, não tem cafuné, seio, homenagem, piada ou frase de auto ajuda que ajudem realmente quando o que se precisa é de um abraço.

Nenhum outro gesto persiste na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

E não existe outro gesto que doa mais quando a morte decide que é hora de separar.

O abraço é mais do que um emaranhado de braços em volta de torsos. O abraço é guarda baixa que permite agarrar a realidade do outro. É diluidor de tristeza. É multiplicador de alegria. É sinfonia de sentidos no silêncio.

O abraço é sincronia de corações.

Dentro deste espaço onde se tenta ignorar que dois corpos não o podem ocupar ao mesmo tempo, cabe muito mais do que se imagina.  No abraço cabe a paciência que dissolve a desesperança. No abraço cabe a compaixão que ignora a indiferença. No abraço cabe a alegria que carrega o consolo. No abraço cabe a paz que afasta o medo.

No abraço cabe o amor que não caberia em lugar nenhum.

Amor Limitado

Eu te amo.

Essa foi a frase mais falada na internet dos anos 00 passados. Eu achava curioso como a geração emo falava mais “eu te amo” do que “mãe, cadê minha chapinha?”. A frase estava por toda parte: no status do MSN (saudades, MSN…), nos comentários dos Flogs (tiraram o meu do ar…), nos scraps do Orkut (me add lá!), nos versos das capas de caderno, até mesmo escrito à caneta Bic na borda quase branca do All Star modinha da época. Mas, será que rolava todo esse amor mesmo?

Nessa época eu, que não nasci pra ser emo, comecei a entender o que significava a tal “banalização”. Ouvia muito disso sobre muitas coisas, mas ao ver o tanto de gente que jurava amor em caracteres especiais do Windows um pro outro e depois mal se cumprimentava na escola, entendi que o “eu te amo” era o novo “bom dia”: mais uma expressão formada de belas palavras e vazia de significado.

Não sei se depois da infância eu disse “eu te amo” pra mais de 3 pessoas. Devo ter falado pros meus pais, provavelmente por SMS ou email, e uma vez disse pra uma menina que não me amava e tal. Acontece. Enfim, eu cresci aprendendo a dar o devido valor pra algumas palavras e a ter medo de usar algumas outras. Basicamente eu era o fariseuzinho juvenil que prometia pra não jurar, afinal, é pecado jurar em nome de qualquer coisa; eu dizia que gostava demais disso ou daquilo pra não dizer que adorava, afinal, só devia adorar a Deus. (E eu trocava Deus por São Pedro em todas as piadas pra não usar o nome de Deus em vão. E até hoje nunca o usei em vão, porque realmente não sei como ele se chama.)

Com esse lance de amor eu faço igual até hoje. Geralmente eu digo que “gosto muito” ou “curto de coração”, mas não falo que amo. Não por acreditar toscamente que dizer que amo alguma pessoa específica é pecado ou viadice, mas porque eu entendo que existe uma responsabilidade muito grande por trás disso tudo. Amor é coisa séria. Juro.

Obviamente, eu amo muita gente. Pessoas próximas, pessoas longes, pessoas que mal conheço ou que nem conheço. Mas não acho que elas precisem ouvir aquelas três palavras pra saber isso de mim. Elas nem precisam saber que existo, na verdade. O que me dá medo de contar pra essas pessoas sobre tudo isso é o fato de que minha capacidade de amar é plenamente imperfeita e vai falhar numa hora ou outra. Se ninguém souber desse grande poder, vão esperar menos responsabilidade de mim. Peter Parker me entende, provavelmente.

Mas afinal, se aquilo que os emos fazem não é amar, o que é o amor, o amar e tudo mais? Se você que é dos gregos, vai encontrar várias palavras pra essa mesma coisa de modos diferentes. Se você é dos românticos, vai gostar de classificar o amor como um sentimento. Se é dos apaixonados, vai confundir com paixão. Já ouvi falar que o amor é um movimento, uma ação, uma decisão. Para o apóstolo Paulo, o amor é o que dá liga pra qualquer coisa que você faz. Camões dizia que o amor é o fogo que arde sem se ver. Renato Russo foi menos criativo e decidiu concordar com esse dois últimos caras. Numa das definições mais interessantes que já li, Paulo Brabo fala que o amor é um vírus, um desestabilizador de sistemas e o único poder deste mundo que não tem como cair em mãos erradas.

Todas essas visões são muito interessantes, mas não acho que nenhuma delas chegou perto de definir definitivamente o que é o amor. Uma vez li (numa legenda de um selfie de uma menina fútil qualquer pelo Facebook) que “quem se define, se limita”. Achei ela idiota, mas concordei. Há milênios a humanidade tenta definir o que é o amor, mas acaba por limita-lo, diminui-lo, sem nem chegar perto de entede-lo. E já que ninguém conseguiu a façanha de definir perfeitamente esse amor, eu vou fazer minha parte e limita-lo um pouco mais: pra mim, o amor é aquilo que limita.

“Mas o amor tudo pode, o amor nunca acaba, o amor é eterno”, esbravejarão alguns, e eu não vou discordar. Mas não vejo como amar qualquer coisa sem se limitar de alguma forma, sem colocar barreiras em si mesmo. O amor é o que te limita os olhos pra encontrar beleza apenas na mesma mulher todo dia, pro resto da vida. O amor é o que limita seu dinheiro do lanche na escola pra comprar um presente pra sua mãe. O amor é o que limita sua água e faz o outro também ter o que beber. O amor é o que te limita o sossego e te faz adotar uma criança. O amor é o que te limita o calor pra que outra pessoa não passe frio. O amor é o que te limita o senso crítico e te faz dizer que o desenho do seu filho está lindo, mesmo que seu filho se chame Romero Britto e você se torne responsável por todo esse caos brega que o mundo passa hoje.

O amor limita o espaço da sua casa. O amor limita seu cobertor. O amor limita o seu lucro. O amor limita seus planos. O amor limita sua alegria. O amor limita sua saúde. O amor limita sua gasolina, sua comida, sua roupa, seu tempo, seu físico, seu gosto por atum, seu lazer, sua energia, seu útero, seu Playstation, seu apetite, seu ombro, sua testosterona, seu cabelo. E se você diz “eu te amo” e não limitou nada da sua vida, você, no máximo, gosta muito, mas não ama. O amor, na sua infinidade de formas, te limita a liberdade e deixa o outro livre.

Nunca saberemos amar perfeitamente, afinal, seres imperfeitos tem essa limitação. Aliás, nunca saberemos aqui o que de fato é o amor. Qualquer definição de amor que façamos agora é um auto-retrato tendo como referência um espelho embaçado de vapor. Mas vai chegar o dia em que veremos o amor face a face, e vamos entender perfeitamente o grande mistério que é o próprio Amor, infinito, eterno e imortal, se limitar e morrer para que haja vida em gente morta e liberdade aos que não merecem.

Roberto Carlos que me perdoe, mas ele fica em segundo nesse negócio de ter o amor maior do mundo. Não existe amor maior que o Amor Ilimitado se limitar a morrer por quem ele ama.