[Áudio] Relacionamento, infidelidade e amor.

Olás!

Eu sei, tô sumido. E nem tenho uma desculpa boa dessa vez. Tenho uns 50 rascunhos de textos pela metade e não tô conseguindo parar para concluir eles…

Mas quero compartilhar algo meio diferente hoje (só pra falar que tô menos sumido): esses dias atrás, pela primeira vez, eu preguei (ou dei uma palestra, sermão, chame como lhe for menos estranho) na minha igreja. Daí tenho a gravação do áudio aqui para vocês ouvirem.

Aproveitei o Dia dos Namorados para falar um pouco sobre relacionamentos e essas coisas doidas todas.

Pra quem não me conhece, sim, eu falo rápido e embolado. À partir de agora você vai ler meus textos imaginando um locutor de rodeio com paçoca na boca.

Grande abraço!

(ps: eu tô apanhando desse plugin do MixCloud… Mas vai assim mesmo.)

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Apaixone-se por alguém que não te merece

Ah, como eu queria viver noutros tempos! Nesses dias de touchscreens, selfies e Tinder todo o romantismo nos foge por entre os dedos. Bons tempos eram aqueles em que ficávamos a ver as moças passearem pelos bosques, cavalgávamos no fim da tarde pelas campinas ao encontro da amada para declamar todo o nosso amor com o joelho direito no chão, os braços abertos e as folhas de outono como testemunhas. E então, depois um pé na bunda, voltávamos pro feudo tocando no alaúde aquela música fossa do Frejat.

Seja no feudo ou na cidade, seja à cavalo ou espremido num metrô, se apaixonar de verdade é quase sempre aquele ato irracional que muitas vezes vai nos custar horas de terapia e algum tempo pra recuperar a dignidade perdida. Mesmo assim, todo dia me deparo com vários textos do tipo “Apaixone-se por uma pessoa que te faça rir”, ou “Namore alguém que ande de bicicleta”, ou ainda “Case-se com alguém que saiba o nome dos 151 Pokemons da primeira temporada” (mentira, eu só estou tentando me ajudar nessa). Todo mundo quer dar um pitaco de como você deve proceder pra encontrar a pessoa ideal pra passar o resto da vida junto. Todo mundo pinta a vida como um conto de fadas, mas ninguém conta que o príncipe só sabe falar de academia e a princesa tem mais bafo que o dragão do castelo. Não é por acaso que essas dicas geralmente não dão certo.

Em todos os meus fracassos amorosos alguém (geralmente minha mãe) sempre chegava em mim dizendo que foi melhor assim, que quando não é pra ser não acontece, que Deus está preparando alguém melhor pra mim, que “quem sabe sua prometida ainda nem nasceu” (tem coisa mais desesperadora do que ouvir isso com mais de 25 anos?). São sempre essas e outras coisas do tipo advindas de contos de fadas, livros de auto-ajuda baratos e forçação de barra bíblica.

Por muito tempo acreditei que um dia Deus gastou tempo planejando a moça A para o moço A, a moça B para o moço B e todo esse alfabeto pareado e destinado a se encontrar um dia para viverem felizes para sempre. Acreditava que toda panela tinha sua tampa e comecei a pensar que talvez eu fosse uma frigideira ou, sei lá, um rodinho de pia nessa história toda. Mas um dia vi minha mãe tampando a panela do feijão com um prato e parei pra perceber que a moça A namorava o moço A e depois o traiu com o moço B, que por sua vez era afim da moça C e usou essa situação toda pra flertar com a moça E e gerar ciúmes, o que revoltou o moço J, que foi fofocar tudo pro moço L, que era secretamente afim do moço R, que virou padre depois que a moça N morreu num acidente trágico antes do casamento deles. A teoria do caos e toda aquela baboseira do bater da asa de uma borboleta podem explicar bem todo esse tornado nos planos do destino depois que a moça A resolveu dar uma escapadinha.

Já me cansei de ouvir aquele papo de que “existe uma pessoa prometida” pra mim, mas a verdade é que ninguém nunca me prometeu nada disso. E duvido que tenham prometido pra você também (a não ser que vossa senhoria ainda esteja a viver no Brasil Colônia e já pagaste adiantado o dote ao pai da donzela).

Não bastando a falta de lógica nessa história de que as pessoas estão destinadas umas às outras, o grande problema reside no fato de que não tem como existir uma pessoa certa pra outra se todo mundo no mundo é errado. De Dilma Roussef à Megan Fox não existe gente perfeita neste mundo.

Portanto, desencane de buscar a pessoa certa pra você e comece a buscar uma pessoa errada, porque é o único tipo de pessoa que se vai encontrar por aí. Aprender a se perceber como uma pessoa cheia de defeitos é essencial para finalmente se enxergar no mesmo patamar de gente ruim que, surpresa, todo mundo está. E à partir daí se pode derrubar os preconceitos e expectativas irreais baseados em ideais de perfeição que deixariam até Platão enjoado. Se precisar, assista aquele filme de terror chamado O Amor é Cego.

Mas calma. Não estou falando que se deva abdicar de todos os gostos pessoais e coisas que se acha importante encontrar na outra pessoa, mas sim de que você não vai encontrar todos esses gostos pessoais e coisas que acha importante numa pessoa. Não no mundo real. Aceite isso e aprenda a lidar com o inesperado sem descambar para a frustração. Boa parte do que chamamos de defeito são apenas características que o outro vai carregar pra sempre, e depende exclusivamente de você se esforçar para ajustar um pouco suas expectativas para fazer caber a pessoa que se gosta integralmente nos seus sonhos.

No fim das contas, é muito bonita a ideia de nascer destinado para amar e ser amado por outra pessoa, mas a realidade é sempre mais bonita que a fantasia simplesmente por ser real.

Na vida real não existem príncipes cavalgando cavalos brancos para salvar donzelas em perigo, mas existe pegar dois ônibus pra conseguir passar uma hora ao lado da pessoa (e mais dois ônibus pra voltar pra casa). Na vida real não existem dragões acorrentados em castelos, mas existe parar tudo que se está fazendo para ouvir a outra pessoa chorar do outro lado do telefone por alguma coisa que deu errado no dia dela. Na vida real não tem bruxa malvada, mas tem aquele chefe que te segura até às 19h e te faz perder a reserva do restaurante bem no aniversário de namoro. Na vida real não tem sapo enfeitiçado, mas tem vício em foto de perereca. Na vida não real não tem torre de castelo, mas tem 12 andares sem elevador. Na vida real não tem maçã envenenada, não tem fada madrinha, não tem sapato de cristal. Na vida real tem câncer, tem boleto, tem verruga na testa, tem suor na mão, tem erro de português, tem tênis molhado, tem um filho de 5 anos, tem calvície hereditária, tem parente morrendo, tem diarréia no primeiro encontro, tem alface no meio do dente.

Na vida real não tem muita ficção.

E concorde comigo: é muito mais bonito se apaixonar com tudo isso acontecendo do que simplesmente porque o destino apresentou a pessoa prometida para você.

Há um tempo atrás uma das minhas amigas que mais me conhece na vida veio me falar que esperava muito que eu encontrasse alguma garota especial que me merecesse de verdade. Recebi aquilo respondendo um “Eita, tomara que não!”. Eu, que me conheço melhor que minha amiga, sei o quão ruim sou e o quão péssimo consigo ser se parar de me esforçar só um pouquinho. Além disso, não sou rico nem galã, e o que deveria compensar sendo legal e engraçado geralmente não sai como esperado. Então me parece um baita de um castigo alguém merecer uma pessoa cheia de defeitos como eu.

Porém, sabendo que no fundo ninguém realmente merece algo de bom, espero encontrar um dia alguém que me aceite. E espero estar pronto para aceitá-la também.

Acredito que tudo que existe e acontece de bom sobre a Terra nos ajuda a entender um pouco mais de quem Deus é e o que ele tem feito por aí, e no caso de se apaixonar isso fica ainda mais evidente para mim. Nosso coração é podre demais para aceitar o quão podres realmente somos, e toda essa presunção só evidencia o quanto estamos distantes de alcançar qualquer coisa de bom por nossa própria conta. Somos culpados do mau que somos e do mal fazemos, e não merecemos nada além da justa punição de morrermos solitários e separados do que quer que buscamos pra vida. Mas apesar dos defeitos, apesar dos erros, apesar de quem nós somos, o Amor se encarrega de absorver isso tudo e anular toda e qualquer rebarba que o impeça de nos aceitar ao seu lado onde não existe “até que a morte os separe”.

Não existe merecimento nenhum em ser amado. O nome disso é graça.

Se for pra se apaixonar, que não seja por quem te mereça.

Tenha paciência e deixe que o Amor faça o trabalho dele e una perfeitamente todas as coisas.

Se apaixone por graça, simplesmente.

Aquele abraço

Pode parecer fofo demais pra mim, mas uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi virar tio. É legal demais aguardar o nascimento de um sobrinho e depois acompanhar o desenvolvimento dele sem ter que ficar acordando de madrugada e sem ter que trocar fraldas, já que você não é o pai da criança. E quando menos se espera, você já está fazendo piada com pavê naturalmente e ensinando a criança a fazer coisa errada.

Me lembro que com meus três sobrinhos um dos momentos em que mais aproveitei foi quando eles aprenderam a abraçar. Isso também pode parecer fofo demais, mas não. Obviamente, eu amo abraçar essas crianças e não consigo vê-las sem sair correndo feito retardado exigindo um abração no tio, mas era extremamente divertido mesmo convencer elas a abraçarem tudo que vissem pela frente. Depois que ganhava meu abraço eu falava “Isso, agora dá um abraço na bicicleta também. Pronto, agora abraça a mesa. Que gostoso! Agora abraça a parede. Olha como ela ficou feliz! Mas o chão também quer um abraço, oras!” e assim passava um bom tempo me divertindo às custas de abraços desperdiçados em coisas inanimadas.

Mas quando criança eu também era meio tapado nisso de abraçar. Me lembro que uma vez saí correndo todo feliz e dei um baita abraço na minha mãe, daqueles abraços de criança que segura forte numa coxa e repousa a cabeça no quadril. Fiquei um tempo considerável ali até perceber que aquela mulher, que não era minha mãe, estava achando a situação bem estranha. Soltei dela sem graça e fui procurar minha mãe verdadeira bastante desconcertado. Duas décadas mais tarde, provando que continuo tapado, fui conhecer a família da minha namorada e, por centímetros, não abracei por trás a namorada do meu cunhado por engano bem na frente de todo mundo. Acho que ninguém percebeu, mas isso ajuda a explicar porque fiquei solteiro novamente.

Apesar da minha falta de atenção e das sacanagens com sobrinhos, a ciência tem descoberto nos últimos anos que o abraço é na verdade extremamente benéfico para o corpo humano. Estudos mostram que, além de ser muito gostoso, o abraço (e quando digo abraço, me refiro a abraço de verdade, não aquela ombrada social com três tapinhas nas costas que costumamos fazer) realmente alivia dor, estresse e ansiedade, auxilia em tratamentos de problemas psicológicos, reduz a pressão arterial e diminui o risco de pegar gripe (desde que você não abrace pessoas gripadas, é claro). Abraço faz bem pra saúde, veja só!

Sem saber disso tudo, num dia desses eu estava passando por Campinas e aproveitei pra ir no Hospital da Unicamp dar um abraço na minha vizinha. Ela foi transferida pra lá às pressas depois de sofrer vários infartos e como o marido dela não conseguia nenhuma notícia do hospital, prometi a ele que aproveitaria minha viagem pra voltar de lá com notícias. Perguntei dela na recepção e, pra minha felicidade, ela havia acabado de sair da UTI e já estava bem e no quarto. Elevadores acima, pedi licença pra entrar no quarto e ela ficou tão eufórica por ouvir uma voz conhecida que só não pulou da cama porque as pernas dela ainda estavam anestesiadas por conta do cateterismo. Conversamos um pouco, rimos bastante, oramos juntos, mandamos uma foto pra família e ligamos pro marido dela.

Quando estava pra sair, perguntei se ela queria que eu mandasse alguma mensagem pra eles e ela pediu “Manda um abraço pro Dê!”. Retruquei falando “Poxa, Glorinha, mas só um abraço pro Ademir?! Não quer que mande um beijo?”, e ela então fez uma cara de “Ué…”. Acatei o pedido dela rindo e voltei pra casa.

Alguns dias depois entreguei o abraço pro Ademir. Infelizmente, o fiz na porta do velório. Ela havia pegado uma infecção no hospital e acabou não resistindo por muito tempo. Eu já o tinha abraçado algumas outras vezes, mas quando contei essa história pra ele e entreguei este abraço enviado por ela, ele chorou e me apertou mais forte, como se ela estivesse ali nos braços dele. Como num último gesto dela, mesmo que inconsciente do futuro que a aguardava, aquele abraço levava um pouco da força e conforto de que ele precisava pra se curar naquele momento.

E a mim, por ter tido a honra de ser usado como intermediador deste gesto, ficou a lição de que não existe maior demonstração de amor do que um abraço.

Existem milhões de outras formas de se interagir com pessoas que se ama. Existem formas que demonstram o máximo de intimidade, como o sexo ou usar o banheiro de porta aberta. Existem formas que demonstram como a pessoa é valiosa, como torrar o salário comprando um anel de ouro ou até mesmo doando um órgão pra que a outra continue vivendo. Existem formas que demonstram carinho, como um beijo ou um “vai ficar tudo bem” sussurrado ao pé do ouvido. Mas nenhuma dessas consegue funcionar em todas as ocasiões como um abraço.

Ninguém dá presentes quando o outro chega em casa contando que foi demitido. Ninguém dá beijo de língua pra contar do falecimento de alguma pessoa próxima. Ninguém tira a roupa quando ouve um diagnóstico de câncer. Ninguém transa porque está desiludido com a vida. Não tem carinho, não carro zero, não tem rim, não tem cafuné, seio, homenagem, piada ou frase de auto ajuda que ajudem realmente quando o que se precisa é de um abraço.

Nenhum outro gesto persiste na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.

E não existe outro gesto que doa mais quando a morte decide que é hora de separar.

O abraço é mais do que um emaranhado de braços em volta de torsos. O abraço é guarda baixa que permite agarrar a realidade do outro. É diluidor de tristeza. É multiplicador de alegria. É sinfonia de sentidos no silêncio.

O abraço é sincronia de corações.

Dentro deste espaço onde se tenta ignorar que dois corpos não o podem ocupar ao mesmo tempo, cabe muito mais do que se imagina.  No abraço cabe a paciência que dissolve a desesperança. No abraço cabe a compaixão que ignora a indiferença. No abraço cabe a alegria que carrega o consolo. No abraço cabe a paz que afasta o medo.

No abraço cabe o amor que não caberia em lugar nenhum.

Quem é você dentro de você?

Num passado distante cientistas foram desafiados a criar um complexo sistema mundial de interligação de computadores para troca de informações à distância. As possibilidades eram enormes: poderiam enviar informações militares e científicas de um continente a outro, acessar dados bancários, conversar com pessoas do outro lado do mundo, comprar e vender sem sair de casa. Décadas mais tarde, cá estou eu, me dedicando a gastar tempo nesse tal complexo sistema mundial de interligação de computadores para fazer testes em que descubro qual seria meu Pokémon na vida real.

Por mais tonto que seja, é muito divertido responder 5 perguntas e descobrir que no universo de Friends eu seria o Ross (droga, sempre quis ser o Chandler), que no Star Wars eu seria o Jar Jar Binks (o que é indiscutível, infelizmente) e que dentre as princesas da Disney eu seria a Branca de Neve (sim, eu já fiz esse teste mesmo). Os resultados são meio deprimentes, mas é viciante demais pra parar com isso.

Fora estes testes bisonhos de “quem é você na fila do pão” e “quem é sua alma gêmea” (nunca funciona, acreditem em mim), tem outros realmente interessantes por aí, alguns que dá até pra botar certa fé e parecem ter algum embasamento de psicologia por trás. Meus favoritos são aqueles em que você tem que imaginar um cenário com vários elementos e depois descobre que aquele deserto é a representação da sua vida patética e sem sentido, o cavalo rebelde é sua pessoa amada que está pisando na única flor do jardim, que representava seu último amigo. (Baseado em fatos bizarramente reais de um amigo meu esse exemplo.)

Meu primeiro contato com testes assim foi na época em que a Internet ainda era tudo mato. Quando criança conheci uma velhinha muito simpática que parecia ter poderes sobrenaturais. Ela estava em casa conversando com minha mãe e do nada me pediu pra desenhar uma estrada, árvores e uma casa. Achei tonto da parte dela (e não disse isso porque eu era um menino muito educado), mas fiz lá o tal desenho pra velhinha. Ela pegou o papel na mão, abaixou os óculos de velha dela e começou a me descrever completamente se baseando no desenho: “Olha, menino, estas árvores inclinadas pra direita mostram que você gosta de imaginar muito as coisas antes de fazê-las; a cerca na estrada feita assim me diz que você tem muito medo de arriscar nas suas decisões; o caminho com curvas deste jeito mostra que você é muito desorganizado; e esta casa com telhado deste jeito e um cachorro na porta me indicam que você gosta muito de cachorro, porque eu nem pedi pra desenhar cachorro”. Caramba! Não lembro bem como foi que ela descreveu as coisas na verdade, mas ela parecia saber mais de mim do que eu mesmo! Em seguida pegou meu caderno da escola e descobriu pela minha letra que eu era impaciente, distraído e sentia ciúmes da menina que gostava (o que era verdade mas neguei, obviamente). Depois de desnudar meus sentimentos e personalidade ela deu um sorrisinho, fez alguma piadinha sobre poderes mágicos e me deixou anos pensando que ela era prima da Morgana ou algo do tipo.

Infelizmente anos mais tarde eu soube que ela havia estudado algo relacionado a psicologia, o que fez a magia desaparecer um pouco, mas de qualquer maneira isso me fez ficar fanático por estes testes de personalidade.

Há um tempo atrás eu vi em um site mais um destes testes em que se tem que imaginar um cenário, um animal, uma cabana e mais um monte de coisas. Entre estas coisas, devia imaginar uma caneca ou frasco que estava no fundo da tal cabana. Como ele é? Imaginei um frasco de vidro bem fino e fraco, todo embaçado e com água suja parada. O que você faz com ele? Contrariando o que eu realmente faria na vida real, me imaginei pegando o frasco, jogando a água suja fora e depois fui em uma torneira, o lavei, sequei e levei comigo tomando todo o cuidado do mundo. No fim do teste eles explicavam que o frasco representava a minha relação com a pessoa mais importante pra mim naquele momento. Mais tarde naquele dia liguei pra tal “pessoa mais importante pra mim naquele momento”, contei que fiz mais um daqueles testes tontos, falei que limpei o frasco porque não queria nenhum Aedes Aegypti por perto, rimos, nos desejamos boa noite e fomos dormir.

Um mês depois ela me largou e voltou com o ex-namorado.

Não sei se Freud explica isso também, mas aquele teste fez sentido até demais pra mim. Era realmente um relacionamento frágil, cheio de sujeira acumulada de passados mal resolvidos. Tentei limpar com cuidado, mas na vida real acabou tudo despedaçado.

Este pode parecer um texto sobre pé na bunda e seus pais falando “Pelo menos agora você sabe como faz pra pegar alguém, né?” (e não, ainda não sei), mas não. Este texto é apenas um devaneio sobre como carregamos tanta sujeira nesse nosso frasco chamado vida. Sobre como como nossas atitudes são comandadas por coisas que nem percebemos que nos dominam e ditam nossa vida.

O que somos e o que fazemos é, em sua maioria, resultado do que vivemos até então, e a nossa linha do tempo é o tempo todo agredida e entortada por pancadas que experimentamos todo santo dia. Cada pequena falha nossa ou do outro faz pingar mais uma gota no frasco, cada pecado cumpre sua função em aumentar a distância nos relacionamentos, cada trauma nos imputa medos que tornam opacas nossas decisões e, quando menos esperamos, nosso frasco está transbordando sujeira e nos encontramos envoltos em tanto lodo que já não dá mais pra ver do outro lado do vidro.

É preciso limpar o que está ali dentro.

Ignorar a sujeira que acumulamos conosco não a limpa, e nessa vida não se tem tapete suficiente pra varrer tudo pra debaixo dele. Cada trauma ignorado, cada falha arquivada, cada pecado engavetado vão cobrar sua atenção um dia. É preciso esvaziar nossos armários para que as traças não corroam o que realmente importa. É preciso tratar as velhas feridas, mesmo que seja pra aprender como tratar as que ainda estão por vir. É preciso enfrentar os velhos traumas para que eles não roubem sua liberdade de escolha na vida. É preciso enterrar seus mortos, mesmo sabendo que parte de você será enterrada junta. É preciso se livrar da sujeira que acusa e te impede de se relacionar consigo mesmo, pois só assim pode-se se tornar livre pra se relacionar com o outro outra vez.

Quantas amizades precisam ser desperdiçadas por medo de confiança? Quantos amores precisam ser evitados por medo do abandono? Quantos cachorros precisam ser negados por medo da separação? Quantos projetos precisam ser engavetados por medo do fracasso? Quantas festas, quantas comidas, quantas experiências, quantas viagens, quantas roupas, quantos sorvetes, quantos abraços, quantas danças, quantos prazeres?

Quanta vida é preciso deixar pra lá por coisas que já deveriam ter sido deixadas pra lá?

É preciso esvaziar o velho eu para poder ser preenchido de uma nova vida.

Não há frasco que não possa ser lavado. Não há passado que não possa ser deixado pra trás.

É preciso aprender perdoar – a si mesmo, inclusive.

Minha decisão, não sei por quê.

Quando se fica tanto tempo encalhado solteiro, se tem muito tempo pra analisar as coisas. E analisar o mundo é um dos meus passatempos favoritos. Gosto muito de ficar olhando pra onde as nuvens vem e vão, de reparar como cada dia do verão fica mais longo e como em fevereiro o sol começa a se pôr mais cedo. Gosto de analisar as formigas desmembrando outros insetos maiores. Gosto de ficar analisando as pessoas na rua, imaginando o porque são assim, como vieram parar aqui e imaginar que tipo de trauma na infância as fizeram ouvir funk sem fone de ouvido.

Mas uma das coisas que mais me prendi a observar desde a adolescência são os casais. Não por inveja, carência ou algo do tipo, mas porque sempre achei curioso como pessoas que nasceram em lugares diferentes, em anos diferentes (às vezes épocas diferentes) acabam se juntando e resolvendo viver juntas, às vezes pra sempre. E crescendo neste mundo onde a vida tenta imitar a arte o tempo todo, a gente acaba se deixando levar por tanta besteira que fica difícil separar o que é Conto de Fadas do que é Vida.

Meninos crescem aprendendo que devem ser charmosos príncipes, ou no mínimo lenhadores muito habilidosos para merecer a mão de meninas que crescem aprendendo a esperar nas torres de seus castelos imaginários pelo cara que vai matar um dragão que elas mesmas criaram pra se defender do medo de se envolver de verdade com alguém. A gente cresce ouvindo o Fábio Júnior cantando sobre “a metade da laranja, dois amantes, dois irmãos” (que isso, Fabião?!) e outras fábulas de coisas que são até bonitas, mas que logo a gente percebe que não são bem assim.

Eu mesmo, até alguns anos atrás achava que Deus, num dia sem muito o que fazer, resolveu que o Rapaz A era predestinado à Moça A, o Rapaz B pra Moça B e por aí vai. Aquela velha história da tampa e das panelas. E passei até a achar que eu era uma frigideira nessa história toda. Mas se um dia o Rapaz A resolveu se casar com a Moça B e o Rapaz B estava interessado no Rapaz L, o rolê todo já foi por água a baixo. O mundo da Disney (do qual eu só curtia mesmo O Rei Leão, é claro) parou de fazer sentido aí. A vida real começou a bater à porta.

Num dia desses, de ócio criativo e provavelmente debaixo do chuveiro gastando mais água do que deveria, eu me propus a entender o porque as pessoas escolhiam umas e não outras diante dessa realidade de que não existem almas gêmeas, e de que maneira isso seria quantificável, já que pra mim o Universo todo pode ser mensurado de alguma maneira.

Criei uma teoria mirabolante e que, de fato, faz muito sentido. Imaginei que existe um sistema de pontos onde você analisa fatores etários, ambientais, estéticos/físicos, geográficos, econômicos e de personalidade/interesses, dá pesos diferentes para cada um desses fatores segundo suas prioridades, encontra uma nota de 0 a 10 e a confronta com sua nota de corte para cada situação: talvez para dar uns beijos numa festa; talvez sexo casual; talvez para namoro sem compromisso real; ou até mesmo para ficar a vida inteira juntos.

É tudo muito frio, mas no fim das contas, dentro da gente talvez seja assim mesmo. Um cálculo, racional em todos os sentidos da palavra, uma decisão fria e pensada sobre fatores quantificáveis, escondida por trás de palavras bonitas ou xavecos baratos.

Eu tinha certeza de toda essa minha teoria até ser confrontado com a seguinte pergunta: “Você acha que gostar de alguém é 100% decisão?”.

Não tenho dúvidas de que pessoas que decidem usar outras pessoas, mesmo que de maneira consensual, se deixam levar apenas por aqueles seis fatores de que falei anteriormente, e o fazem muitas vezes por questão de honra, de status, interesses egoístas e mais uns cinco baldes de más intenções. Mas isso não é gostar de alguém, é gostar de si próprio e usar alguém. Tem que haver algo mais do que apenas a matemática literal e sua média ponderada nisso tudo. Aquela pergunta me fez repensar toda a minha teoria.

Tudo que escrevo daqui pra frente não é bem pensado. Estou chutando um monte de coisas e talvez esteja redondamente errado em tudo.

Acredito hoje que gostar de alguém é 99% decisão. E que 99% não é uma coisa, é quase uma coisa. Não duvido que aqueles fatores frios sejam estes 99% da coisa toda, e de que muita gente se contenta e se precipita em arredondar tudo para 100% e viver uma vida 99% feliz junto com outra pessoa.

Acredito que ao longo da vida somos apresentados a tantas pessoas que preenchem estes 99%, às vezes várias de uma só vez, e que ficamos frustrados porque percebemos que alguma coisa falta para preencher o todo. Às vezes insistimos e mentimos pra nós mesmos por um tempo, mas este 1% faz toda a diferença. E eu acredito que, por mais clichê que isso soe, o 1% que falta é o que chamamos de Coração. E eu não faço a mínima ideia de como explicar isso. Mas sei que você me entende, e se não, espero que me entenda um dia.

Não digo que esse 1% é pensado e não quero romantizar muito essa ideia já tão mal resolvida do Coração. O que sei é que, sem saber porque, o Coração sabe muito mais da gente do que nós mesmos.

É o Coração que se acelera quando pensamos na pessoa, ou quando a vemos de longe, chegando devagarzinho e nem nos notando. É o Coração que se acalma quando se está junto, ou quando a pessoa diz que vai ficar tudo bem quando você acha que alguma coisa já não tem volta. É o Coração que palpita estranho e se aperta quando a pessoa está longe, ou quando as coisas saem do seu controle e você não sabe como consertar algo que fez de errado pra essa pessoa. É o Coração que bate forte demais e não te deixa dormir quando você se deita e sente o perfume da pessoa ainda na sua mão (ou o cheiro da pipoca depois de uma noite de filme, o que é meio frustrante).

É o Coração que bate numa frequência descompassada quando se aproxima do outro Coração, mas que num abraço sincero as notas se encaixam e todo aquele aparente descompasso vira música.

Eu já aposentei minhas certezas e não sei bem o que pensar sobre essas coisas todas. Tudo que eu sei é que o Coração, não sei por quê, bate feliz. E que talvez seja melhor raciocinar menos e parar pra escutar a felicidade dele.

Amor Limitado

Eu te amo.

Essa foi a frase mais falada na internet dos anos 00 passados. Eu achava curioso como a geração emo falava mais “eu te amo” do que “mãe, cadê minha chapinha?”. A frase estava por toda parte: no status do MSN (saudades, MSN…), nos comentários dos Flogs (tiraram o meu do ar…), nos scraps do Orkut (me add lá!), nos versos das capas de caderno, até mesmo escrito à caneta Bic na borda quase branca do All Star modinha da época. Mas, será que rolava todo esse amor mesmo?

Nessa época eu, que não nasci pra ser emo, comecei a entender o que significava a tal “banalização”. Ouvia muito disso sobre muitas coisas, mas ao ver o tanto de gente que jurava amor em caracteres especiais do Windows um pro outro e depois mal se cumprimentava na escola, entendi que o “eu te amo” era o novo “bom dia”: mais uma expressão formada de belas palavras e vazia de significado.

Não sei se depois da infância eu disse “eu te amo” pra mais de 3 pessoas. Devo ter falado pros meus pais, provavelmente por SMS ou email, e uma vez disse pra uma menina que não me amava e tal. Acontece. Enfim, eu cresci aprendendo a dar o devido valor pra algumas palavras e a ter medo de usar algumas outras. Basicamente eu era o fariseuzinho juvenil que prometia pra não jurar, afinal, é pecado jurar em nome de qualquer coisa; eu dizia que gostava demais disso ou daquilo pra não dizer que adorava, afinal, só devia adorar a Deus. (E eu trocava Deus por São Pedro em todas as piadas pra não usar o nome de Deus em vão. E até hoje nunca o usei em vão, porque realmente não sei como ele se chama.)

Com esse lance de amor eu faço igual até hoje. Geralmente eu digo que “gosto muito” ou “curto de coração”, mas não falo que amo. Não por acreditar toscamente que dizer que amo alguma pessoa específica é pecado ou viadice, mas porque eu entendo que existe uma responsabilidade muito grande por trás disso tudo. Amor é coisa séria. Juro.

Obviamente, eu amo muita gente. Pessoas próximas, pessoas longes, pessoas que mal conheço ou que nem conheço. Mas não acho que elas precisem ouvir aquelas três palavras pra saber isso de mim. Elas nem precisam saber que existo, na verdade. O que me dá medo de contar pra essas pessoas sobre tudo isso é o fato de que minha capacidade de amar é plenamente imperfeita e vai falhar numa hora ou outra. Se ninguém souber desse grande poder, vão esperar menos responsabilidade de mim. Peter Parker me entende, provavelmente.

Mas afinal, se aquilo que os emos fazem não é amar, o que é o amor, o amar e tudo mais? Se você que é dos gregos, vai encontrar várias palavras pra essa mesma coisa de modos diferentes. Se você é dos românticos, vai gostar de classificar o amor como um sentimento. Se é dos apaixonados, vai confundir com paixão. Já ouvi falar que o amor é um movimento, uma ação, uma decisão. Para o apóstolo Paulo, o amor é o que dá liga pra qualquer coisa que você faz. Camões dizia que o amor é o fogo que arde sem se ver. Renato Russo foi menos criativo e decidiu concordar com esse dois últimos caras. Numa das definições mais interessantes que já li, Paulo Brabo fala que o amor é um vírus, um desestabilizador de sistemas e o único poder deste mundo que não tem como cair em mãos erradas.

Todas essas visões são muito interessantes, mas não acho que nenhuma delas chegou perto de definir definitivamente o que é o amor. Uma vez li (numa legenda de um selfie de uma menina fútil qualquer pelo Facebook) que “quem se define, se limita”. Achei ela idiota, mas concordei. Há milênios a humanidade tenta definir o que é o amor, mas acaba por limita-lo, diminui-lo, sem nem chegar perto de entede-lo. E já que ninguém conseguiu a façanha de definir perfeitamente esse amor, eu vou fazer minha parte e limita-lo um pouco mais: pra mim, o amor é aquilo que limita.

“Mas o amor tudo pode, o amor nunca acaba, o amor é eterno”, esbravejarão alguns, e eu não vou discordar. Mas não vejo como amar qualquer coisa sem se limitar de alguma forma, sem colocar barreiras em si mesmo. O amor é o que te limita os olhos pra encontrar beleza apenas na mesma mulher todo dia, pro resto da vida. O amor é o que limita seu dinheiro do lanche na escola pra comprar um presente pra sua mãe. O amor é o que limita sua água e faz o outro também ter o que beber. O amor é o que te limita o sossego e te faz adotar uma criança. O amor é o que te limita o calor pra que outra pessoa não passe frio. O amor é o que te limita o senso crítico e te faz dizer que o desenho do seu filho está lindo, mesmo que seu filho se chame Romero Britto e você se torne responsável por todo esse caos brega que o mundo passa hoje.

O amor limita o espaço da sua casa. O amor limita seu cobertor. O amor limita o seu lucro. O amor limita seus planos. O amor limita sua alegria. O amor limita sua saúde. O amor limita sua gasolina, sua comida, sua roupa, seu tempo, seu físico, seu gosto por atum, seu lazer, sua energia, seu útero, seu Playstation, seu apetite, seu ombro, sua testosterona, seu cabelo. E se você diz “eu te amo” e não limitou nada da sua vida, você, no máximo, gosta muito, mas não ama. O amor, na sua infinidade de formas, te limita a liberdade e deixa o outro livre.

Nunca saberemos amar perfeitamente, afinal, seres imperfeitos tem essa limitação. Aliás, nunca saberemos aqui o que de fato é o amor. Qualquer definição de amor que façamos agora é um auto-retrato tendo como referência um espelho embaçado de vapor. Mas vai chegar o dia em que veremos o amor face a face, e vamos entender perfeitamente o grande mistério que é o próprio Amor, infinito, eterno e imortal, se limitar e morrer para que haja vida em gente morta e liberdade aos que não merecem.

Roberto Carlos que me perdoe, mas ele fica em segundo nesse negócio de ter o amor maior do mundo. Não existe amor maior que o Amor Ilimitado se limitar a morrer por quem ele ama.

Nós

Quando eu tinha uns 11 anos meu irmão me levou pra uma atividade do grupo escoteiro que ele participava. Achei tudo muito demais: ficar correndo pra lá e pra cá, rolar na lama, aprender a resgatar feridos, escalar coisas, fazer fogueira, pontes, torres de observação e tudo mais. Pouco tempo depois eu comecei a me preparar pra fazer minha promessa escoteira.

Aprendi a história do escotismo, a usar cumprimento escoteiro da mão esquerda, e decorei com gosto que prometeria pela minha honra fazer o melhor possível para cumprir meus deveres com Deus e com minha Pátria, ajudar o próximo em qualquer situação e obedecer à Lei Escoteira. Só tinha um problema: tinha uma prova de nós.

Pra você entender um pouco esse meu drama com nós, eu demorei mais que as crianças normais pra conseguir amarrar meus cadarços do jeito certo: cerca de 22 anos. Aquela história de “o jacaré passou atrás da árvore, pulou no lago e saiu do outro lado dando um triplo mortal carpado” demorou pra amadurecer dentro de mim. Eu mandava logo um nó todo torto, dava outro por cima pra segurar, jogava as pontas pra dentro do tênis e tudo dava certo.

No Manual do Escoteiro havia umas dezenas de nós específicos pra cada situação e minha angústia era decorar míseros quatro deles pra mostrar pro Chefe que eu estava apto a usar aquela roupa de gosto discutível e aquele belo lenço laranja (que eu não faço mais ideia de onde foi parar). Escolhi os nós mais fáceis. Decorei mil vezes antes da prova, dei uma enrolada de leve na hora e, com uma leve camaradagem daquele senhor vestido de criança, passei na prova.

Nos acampamentos que se seguiram eu sempre me prestava a cortar bambu, buscar lenha, armar as barracas, mas fugia sempre das cordas. Invejava muito os outros escoteiros que davam nós que levavam trocentas etapas pra terminar, mas logo depois os odiava quando tinha que enfrentar algo em que eu era ainda pior do que em dar nós: desatar os nós.

Não sei se alguém da minha época vai ler isto daqui, mas se você um dia se perguntou “por que diabos alguém cortou essa corda boa sem razão alguma?”, a resposta é minha falta de habilidade e paciência em desatar nós.

Pra mim, qualquer nó que não se soltasse puxando uma das pontas, era nó cego e precisava ser cortado. Às vezes eu insistia por um tempo e achava que era só uma questão de puxar mais forte ou de forçar aqui ou ali, mas quando me dava conta, o nó estava ainda mais apertado e a corda já toda desfiada, por vezes irrecuperável.

Nós são assim. Nós somos assim.

Sempre que evocamos a primeira pessoa do plural numa frase, estabelecemos que existe uma relação entre pelo menos duas pessoas. Nós somos duas partes de uma corda, ligadas por meio de uma relação em que uma parte prende a outra. Uma relação, um nó, algo que nos une, que nos torna dependentes um do outro.

Às vezes essas relações são bem trabalhadas e harmoniosas. Uma parte sustenta a outra perfeitamente. Belos laços são expostos e, a qualquer momento, essa relação pode ser repensada, aprimorada, fortalecida sem que nenhuma das partes sofra dano algum. Pelo contrário, ambas se tornam mais laceadas, mais maduras, prontas pra aguentar a carga que for sem arrebentar.

Noutras vezes essa relação é inconsequente, feia. Uma parte começa a escorregar sobre a outra e achamos que é só uma questão de apertar mais um pouco aqui e ali. É só enrolar uma parte nela mesma, fazer uma volta e passar tudo por dentro. É só forçar mais, é só jogar um pouco de água pra travar tudo, é só jogar algum peso por cima e nada vai escapar. Quando se vê, nada daquilo faz mais sentido e é preciso soltar tudo para uma nova relação ser feita. Quando se vê, se está apertando mais o nó ruim. Quando se vê, as duas partes já estão desfiadas e não servem mais como cordas. Quando se vê, a faca é a última esperança pra acabar com isso tudo.

Quando se vê, não era uma relação, era um nó cego.

Minha mãe costuma ficar brava comigo toda vez que me vê com um saquinho plástico de qualquer coisa na mão. Sou daqueles que geralmente rasga o saco de pão ao invés de abri-lo da maneira certa, como um ser humano comum. Geralmente ela toma o pacote da minha mão e, com toda a calma do mundo, olha pro nó, mexe daqui, puxa de lá, e pronto: tá aberto.

Mas teve um dia em que o padeiro caprichou tanto no nó, que não tinha de onde mexer ou puxar. Eu, com fome, já fui rasgar o logo plástico, quando vi que o sangue japonês realmente corre nas veias da minha mãe: ela me aplicou um golpe de Judô.

Mentira. Ele nem sabe fazer essas coisas, graças a Deus.

Ela me repassou uma coisa que o pai dela, Sr. Sigestoshi Matsuoka (mais conhecido por Sr. Zé Japonês) a ensinou enquanto ainda era vivo, uma daquelas sabedorias que poderia ter vindo do Sr. Miyagi: “Pra soltar um nó que está difícil, você não o puxa. Você o chacoalha”.

Pensei que seria uma coisa extremamente besta e que só iria piorar o nó cego – e a minha fome. Mas não, deu muito certo. Conforme ela chacoalhou aquilo, espaços começaram a aparecer e, puxando daqui, mexendo de lá, o pacote de pão estava aberto e eu não precisei cortar e nem rasgar nada. E o pão foi o que menos me alimentou nessa hora.

Um dogma acabava pra mim naquele momento: não existe nó cego.

Não existe relação entre duas pessoas que não possa ser resolvida.

É tudo uma mera questão de chacoalhar um pouco. Enquanto os dois lados tentam resolver se enrolando e puxando, ignorando que este nó está fadado ao fracasso e que é preciso se soltar pra começar de novo, as coisas vão apenas piorar. Mas se algo vem e as chacoalha, tudo que foi ignorado balança junto. Tudo se desarma. Cria-se espaço pra se soltar, se repensar em um nó melhor, se repensar em um nós de verdade.

Jamais serei ingênuo de afirmar que tudo pode ser restaurado entre duas pessoas que tiveram problemas enquanto se relacionavam. O trauma às vezes é grande demais, tudo se desfia e as partes perdem a capacidade de sustentar qualquer outra relação tão forte quanto essa. Já em outros casos, a covardia e o medo de enfrentar o lento e difícil processo de desatar e arrumar o nó mal feito dão oportunidade para que lâminas cortem fora essa relação.

O que não percebemos é que a cada nó cortado, à cada relação descartada, um pedaço nosso fica preso ao outro. Um pedaço que nos diminui e que jamais teremos de volta. Aos poucos a nossa impaciência e soberba destroem nossa capacidade de se relacionar e nos condena à completa solidão.

Meu desejo é que, começando por mim, a gente aprenda a ser menos preguiçoso e soberbo. Que a gente enxergue que uma relação não se faz sozinho e que nela não existe um lado mais importante que o outro. Que a gente enxergue que, mesmo que estejamos desfiados, existe alguém pode nos trançar de novo. E que, mesmo cortados, um restinho de corda de cada lado basta para um novo nós surgir.

Não existe nó cego. Chacoalha aí pra ver.

Baixa-Estima lá no Auto.

Outro dia estava rindo com uns amigos (diria que estava conversando, mas a gente mais riu do que conversou) e, pra variar, meu estado civil virou assunto. Daí uma amiga perguntou se eu tinha “problemas de auto-estima”. Por que eu não teria?

Eu apanhei, tomei choques, cusparadas e armlocks minha infância inteira. Caçula de quatro irmãos, eu me desdobrava pra suprir o desejo de judiação de todos eles. Eram muitas musiquinhas, cuecões, luz do banheiro apagando de repente, beliscões com os dedos do pé, etc. Bullying começa em casa.

Cresci ouvindo piadas de baiano e japonês ao mesmo tempo na escola; além das piadas de cunho geográfico, rolava um bullying pelo tamanho da minha cabeça e por causa da minha miopia; eu só portava a camisa 10 do time da escola porque eu usava a mesma camisa (enorme) do meu irmão (corte de gastos e a esperança de ser o Raí um dia); meu biotipo na infância, apesar de me dar agilidade pra fugir correndo dos valentões, não me ajudava muito quando uns três deles me cercava.

Eu já fui o pobre na escola de ricos e depois, na escola pública, fui desdenhado por acharem que eu era rico. Já fui o nerd demais pra ser amigo dos descolados e não nerd o bastante pra ser amigo dos nerds. Já perdi no braço-de-ferro pra uma garota. Já tomei fora de menina fácil. Já fui tachado de baitola na faculdade porque reclamei de uma coleção de Playboys jogada numa área comum da república. Já fui tachado de baitola porque não gosto de cerveja. Já fui tachado de baitola porque dispenso garotas quando não quero nada com elas.

Hoje vejo uma galera com 10 anos a menos que eu fazendo trabalhos melhores que os meus; vejo que a ciência avança menos que minhas entradas no cabelo; vejo que em um mês de inatividade eu perco os dois quilos de massa muscular que demorei três anos pra ganhar. Eu vejo meus amigos casando e tendo filhos, outros indo para o exterior, outros ficando milionários, outros ganhando prêmios. Eu vejo o Hulk na seleção do Brasil (como pode?).

Às vezes penso que esse meu jeito piadista não é só porque minha mãe conheceu meu pai num teste da A Praça é Nossa. Às vezes penso que isso é algum modo de defesa. Mas daí penso melhor e vejo que é isso mesmo. Aos 12 tive um professor de desenho que me aloprava o tempo todo, e no último dia dele na escola ele me disse uma daquelas coisas que muda a vida da gente: “Thales, eu só te encho o saco porque você se irrita. O dia em que você não ligar mais pra isso, perde a graça e ninguém mais te zoa”. Aprendi a lição, Fausto: hoje em dia eu sou o primeiro a praticar bullying comigo mesmo, que é pra não dar chance pros outros mesmo.

Voltando ao primeiro parágrafo, respondi à pergunta da minha amiga com um sonoro “Claro, ué!”.

Sei que existe gente com problemas e traumas muito mais sérios que os meus, porém eu me reservo o direito de ter problemas de auto-estima. Mas acontece que o meu problema geralmente é que acabo me superstimando. Sempre acho que se eu não estiver no comando das coisas, nada vai dar certo. Acabo abafando a capacidade dos outros e atropelando o que poderia rolar muito bem sem mim. Tenho um problema em encontrar substitutos pras tarefas que desempenho por acreditar que sou bom e que ninguém é eficiente o bastante pra ficar no meu lugar. Gosto de jogar no time mais fraco, que é pro time depender de mim, mesmo que perca (o que geralmente acontece). Acabo sendo crítico e exigente demais com o que espero de uma mulher pra mim, e acabo sozinho.

Vez ou outra eu preciso parar na frente do espelho e dar uma boa olhada em mim mesmo. Não pra me lembrar que sou magrelo, míope, fraco e que vou ficar careca aos 40. Mas para me lembrar que sou barro. Tão barro quanto qualquer outra pessoa. Tão ruim quanto qualquer outra pessoa. Tão imerecedor de graça quanto qualquer outra pessoa.

Assim eu me lembro que não faz sentido me sentir melhor que alguém. Não faz sentido me achar pior também. Ninguém é bom, no fim das contas.

Somos todos barro.

As namoradinha

O grande problema de estar solteiro não é ter que lidar com os sábados à noite vendo algum filme ruim do Steven Seagal (me desculpem a redundância) ou ter que dormir abraçado com um travesseiro (juro que faço isso por causa da coluna, não é carência).

O grande problema é a Tia.

E quando digo “Tia”, não estou me referindo especificamente a alguma das minhas tias. Estou me referindo a todas as minhas tias e a todas as outras pessoas possuídas pela Tia, uma das mais perigosas entidades que assombram por aí.

Esse espírito se manifesta sempre que existe alguém solteiro num ambiente festivo. Pode ser aniversário, Natal, Páscoa, Dia de Tiradentes ou velório: ela estará lá. E ela vai chegar com um pratinho na mão perto de você.

Roubar, matar e destruir? Pfff… Essa entidade busca coisas mais simples, como o extermínio da sua alma e auto estima.

E tanto faz se você já teve mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores ou se você é como eu. Basta um dia solteiro e você será abordado pela questão que vai sugar sua força vital e te botar um sorriso amarelo no rosto: “E as namoradinha?”

Repare que não há uma resposta certa pra derrotá-las:

“Me largou, Tia.” – Fracassado;

“Tá difícil encontrar uma, Tia.” – Incompetente;

“Tudo vaca, Tia.” – Gay;

“Não achei o amor da minha vida ainda, Tia.” – Bicha louca, fracassada e incompetente.

A boa notícia é que quando você está namorando, a Tia para de atormentar sua alma. (dizem…)

A má notícia é que neste momento o Primo se manifesta. E, meu amigo, ele vai fazer questão de queimar seu filme com todas as histórias que sua namorada não precisava saber.