Poderes mais ou menos trazem responsabilidades mais ou menos.

Sei que parece idiota, mas durante boa parte da minha adolescência eu torci pra que uma aranha radioativa me picasse. Eu lia aquelas histórias em quadrinho do Homem Aranha e também queria ser o menino magrelo e míope que sofria bullying (isso eu já era, na verdade) se transformando num cara com super poderes, que podia saltar de um prédio pro outro e disparar teia para salvar as donzelas indefesas de criminosos encapuzados. Eu sei, picada de aranha geralmente causa necrose nos membros, e no interior de São Paulo não existe tanto prédio assim pra se pendurar, mas, tirando a parte de usar uma roupa coladinha dessas numa região tropical, deve ser louco demais ter grandes poderes assim, mesmo que eles venham com toda essa baboseira de grandes responsabilidades.

Essa besteira de querer ser super herói na verdade começou mais cedo. Me lembro que quando criança fiz uma máscara azul pra usar com um colete azul de gosto duvidoso que minha mãe tinha me dado. Meu codinome era Netuno, e eu deixava tudo isso guardado dentro do guarda-roupa, daí entrava nele e saía fantasiado pra combater o crime imaginário do meu quarto. (Pensando agora, eu meio que literalmente saía do armário com outro nome e uma máscara combinando com um colete. Ok, isso tudo soa muito estranho agora…)

Mas enfim, cresci aprendendo que na vida não existem super heróis, mas sim toda aquela história bonita de que “existem é pessoas que fazem atos heróicos todos os dias, como os bombeiros, policiais, médicos e aquele cobrador de ônibus que te vê correndo feito um queniano e pede pro motorista segurar o busão mais um pouquinho”. E é mesmo, todos os dias vemos heróis ordinários que nos salvam do fogo, do assalto, da virose e do atraso no trabalho. Todos os dias se descobre mais um herói que salvou alguma criança em apuros, todo fim de campeonato tem o herói que salvou o time do rebaixamento, toda ano eleitoral tem o herói que vai nos salvar da corrupção e todo ano seguinte tem um herói que vai julgar o herói anterior por desvio de verbas públicas.

Nós procuramos heróis que nos salvem do crime, da tristeza, do tédio, da carreira, do chefe, da doença, da rotina. Nós procuramos heróis que nos salvem do tempo, da existência, da humanidade. Nós procuramos heróis que nos salvem de nós mesmos. E na primeira ação heróica que vislumbramos, nosso herói ordinário se torna um símbolo, e daí não fica muito distante o caminho pra transformá-lo num ídolo. E menor ainda é a distância entre o ídolo e a idolatria.

Idolatramos políticos que nos salvariam do comunismo, idolatramos ideologias que nos salvariam do consumismo, idolatramos empresários que nos salvariam do desemprego e idolatramos empresas que nos deixam desempregados. Idolatramos pessoas que nos salvariam da solidão. Idolatramos o casamento que nos salvaria da perdição. Idolatramos teologias que nos salvariam do compromisso real que nos convoca.

E, mais cedo ou mais tarde, todos os ídolos se mostram imperfeitos e se tornam decepção.

Me lembro de uma cena de 300 de Esparta quando o Rei Leônidas do abdômen trincado assume o máximo de sua fraqueza, tira sua armadura, solta seu escudo e, sob flechas inimigas, joga sua lança contra o andrógeno Imperador Xerxes, o grande herói e líder persa que se dizia um deus e era idolatrado por meio mundo. A lança viaja pelo ar e rasga um lado do rosto de Xerxes, que tenta de todas as maneiras esconder o sangue que revelava sua mera humanidade. Leônidas morre, mas mostra que seu adversário não passa de um ídolo de carne, osso e sangue como todos nós.

Criamos expectativas demais no que não é pra ser, e a mesma afobação que transforma heróis em ídolos se vale da decepção pra transforma-los em vilões.

Na contramão desta história, um certo Jesus entrou na capital de seu país aos gritos de “Salva-nos”. A galera viu que ele fazia umas coisas inexplicavelmente doidas, arrastava multidões e falava como um rei poderoso. Era o herói que esperavam há tempos pra salvá-los do pesado domínio romano, era o rei que todos ansiavam pra por fim a uma era de abusos e sofrimento, era o messias prometido que traria estabilidade e grandeza à Israel. Idolatraram o próprio Jesus, exaltaram o que ele nunca clamou ser, e aos gritos de “Crucifica-o”, mataram a fraude de um herói que não salvou nem a si mesmo.

Mas orgulhoso de sua morte, ele não escondeu seu sangue e nem reagiu, pois sabia que a salvação pela qual ele veio não se conquista por heroísmo e espada, mas sim por entrega e amor.

Nosso desejo por salvação não encontra nada além de frustração quando procuramos por heróis que nos salvem. E pior: nosso desejo por salvação geralmente não sabe ao certo nem do que quer ser salvo. Estamos danados no sentido não baiano da palavra, condenados, irremediavelmente perdidos.

Estamos à deriva no meio do oceano da perdição humana e não faz sentido pensar que alguém de dentro do barco tenha capacidade pra nos salvar dali.

Não faz sentido procurar no meio dos imundos quem nos salve da sujeira. Não faz sentido procurar na humanidade quem nos salve de ser humanos.

Não faz sentido procurar um herói quando se precisa de um Salvador.