Um minuto de silêncio.

Quando estava na faculdade, provavelmente num dia sem muito o que fazer, resolvi que tinha que fazer meu testamento. Sim, com uns 20 anos de idade, vivendo num lugar tranquilo, sem nenhum problema de saúde que desse razão a isso, resolvi que precisava deixar por escrito o destino dos meus (poucos) pertences e as instruções pro meu funeral. Você deve estar achando que sou doido, e talvez essa seja a resposta mesmo. Eu tenho um pessimismo “Murphyano” secreto onde sempre acho que as coisas tem enormes chances de darem errado, e como quase todo mês eu pegava estrada pra voltar pra minha cidade dividindo pistas simples com caminhões carregados de cana, julgava ter grandes chances de sair feito garapa de alguma dessas viagens.

Meu testamento era uma coisa bem besta, como se pode imaginar. Eu descrevia detalhes de como queria meu funeral e pra quem deveriam ser doados minha câmera, meu computador, minha cama, meu quimono de Aikido, minha bateria e essas coisas. Eu também insistia que tivesse bexigas ao invés de flores e de que iria deixar umas piadas ruins anotadas, daí qualquer pessoa que quisesse ir lá na frente falar algo sobre mim, teria que contar uma dessas piadas antes. É besta? É. Mas ia ser legal, assuma.

No meio desse monte de bobagens eu ainda acho que algumas coisas devem ser levadas em conta, como não vestir meu corpo com a camisa do São Paulo e, se for permitido, pra me enrolar num lençol do Corinthians ao invés de usar caixão: já que é pra apodrecer, vamos fazer direito. Mas fora essas coisas com sentido, ao mesmo tempo me deparei com o quanto eu não respeitava a morte e a dor naquele momento. Queria que não tivesse choro e dizia que “luto é uma coisa besta”. Ninguém tão próximo de mim havia morrido, e o único velório que havia ido era o do meu avô, com 4 anos. Só lembro que queria ir embora porque tinha certeza de que ele iria se levantar do caixão e chupar o sangue de todo mundo ali presente. O tempo passou e eu ainda não havia entendido muita coisa sobre a morte.

Hoje entendo que acima de tudo nessas horas é preciso de um pouco de silêncio.

Quando a tragédia bateu na porta de casa levando meu pai, não faltou gente tentando me acalmar dizendo que estava lá por mim, de que tudo iria dar certo e de que a vida é uma bosta mas eu iria superar. Aceitei e agradeci a todos pelo apoio, mas diante da minha expressão catatônica todos remendavam dizendo o óbvio: “não tenho o que falar…”.

Aprendi que existem momentos em que não temos mesmo o que falar, e nesses momentos a melhor opção é nem comentar sobre isso. As pessoas que mais me consolaram naquele dia foram as que simplesmente chegaram e me abraçaram sem falar nada. Chorar com os que choram é o suficiente. Me lembro desses abraços e o silêncio deles fala comigo até hoje.

Hoje acordei cedo e, enrolando pra levantar olhei no celular e vi uma manchete dizendo que o avião que levava o surpreendente time da Chapecoense e uma ótima equipe de jornalistas pra final da Copa Sulamericana caíra na Colômbia matando quase todos os passageiros. Me levantei assustado pra tomar banho e ouvia na sala o pessoal de casa comentando enquanto o repórter da TV dava detalhes da tragédia. No trabalho, os colegas e clientes falavam sobre isso o dia todo. Na rua, todo mundo era expert em aviação. Na Internet, todas as linhas de todos os sites mostrando mostrando todos os ângulos do horror em tempo real. Quase se podia literalmente tocar no assunto, de tão denso e tenso que ele habitou o dia.

Talvez nós precisamos de um pouco de silêncio.

Precisamos de silêncio para digerir toda essa informação. Precisamos de silêncio pra aceitar toda essa nova realidade. Precisamos de silêncio para nos lembrar dos que se foram. Precisamos de silêncio para valorizar os que ficaram. Precisamos de silêncio para perceber que a tempestade já se foi, mas também para perceber que ninguém é imune às próximas que virão. Precisamos de silêncio para perceber que há esperança além da dor.

Precisamos de silêncio para aprender que é preciso viver a vida, mas que isso passa por aprender a respeitar a morte.

Portanto, façamos hoje um minuto de silêncio por cada atleta que morreu. Façamos um minuto de silêncio por cada funcionário do clube, por cada jornalista, por cada tripulante do avião. Mas não façamos apenas por estes.

Façamos um minuto de silêncio porque nenhum homem é uma ilha, e a morte de qualquer pessoa nos diminui por sermos parte da humanidade. O silêncio também é por nós.

Que no gramado da morte esse minuto de silêncio faça ecoar a esperança de uma vida sem dor e tristeza por toda a eternidade.

Agridoce

Já passava de uma da madrugada. O filme tinha acabado de terminar, o pessoal começou a se levantar pra ir embora e eu comecei a pensar em como matar minha fome noturna. Tinha sobrado brigadeiro de colher que as meninas fizeram pra comer durante o filme, mas minha mãe tinha feito peixe frito na janta. Me bateu o dilema: Brigadeiro ou peixe? Doce ou salgado? No meio do embate moral que se formou dentro de mim, ouvi uma voz vindo de dentro que me disse: “Come tudo junto, Thales”.

A voz era o sono, eu sei, mas eu decidi segui-la e peguei um pedacinho do filé de merluza empanado, cobri com um pouco de brigadeiro e comi com a exata cara de nojo que você está fazendo agora. E me assustei, porque ficou bom. Sério. Peguei um pedaço maior, tentei de novo pra ver se não era alucinação, mas não, realmente tinha ficado muito bom. E quando digo bom, não me refiro a comer batatinha com Sundae do Mc Donalds (isso as pessoas fazem só pra chamar atenção), mas talvez, debaixo do olhar de desaprovação de quase todos ali, eu tivesse acabado de descobrir o Santo Graal da improbabilidade de gostos misturados.

Segundo minha enciclopédia mental de cultura inútil, o que a gente geralmente chama de gosto é na verdade o cheiro da comida. Existem apenas cinco gostos que nossas línguas são capazes de discernir: o ácido, o doce, o salgado, o amargo e o umami. Sim, existe um treco chamado “umami” que ninguém sabe realmente como é, mas que todo mundo concorda que é gostoso. O resto todo é apenas o cheiro da comida, e essa é a razão pela qual a comida fica sem gosto quando estamos gripados, ou porque tampamos o nariz quando vamos tomar aquele remédio com delicioso gosto de chão de hospital.

Mas fora toda a complexidade do que é gosto e do que é cheiro, o divertido mesmo é misturar coisas inesperadas na cozinha. Já fiz algumas boas experiências, como o frango grelhado com morango, que fica ótimo em um sanduíche com queijo, por exemplo; ou o filé de abacaxi temperado e assado à manteiga, que vai muito bem com omelete e champingnon; e uma vez coloquei pedaços de chocolate refogados ao alho no molho de tomate para acompanhar macarrão, e ficou realmente bom. É claro que algumas vezes fracassei, e te digo pra evitar colocar limão em qualquer vitamina com leite, não tentar comer Sucrilhos com Sprite e jamais jogar uma colher de Nescau na Coca-Cola.

O interessante dessas misturas é que a gente descobre que o doce não é o contrário do salgado e nem o ácido o inimigo do amargo, mas ambos os gostos podem coexistir fazendo festa na boca. Eu posso colocar sal na manga e experimentar o doce e salgado ao mesmo tempo, assim como posso colocar limão na rúcula e sentir o ácido e amargo juntos. Ou posso colocar sal na manga, a manga na rúcula e mergulhar tudo em suco de limão pra tentar descobrir finalmente o que é o umami, e ainda não vou descobrir o que é. Mas além dos gostos que sentimos na língua, as sensações que sentimos na vida também são assim.

Certa vez compartilhei algumas dessas experiências culinárias com um Chef de Cozinha de verdade e, obviamente, ele me disse que sou retardado e tinha fumado maconha pra experimentar essas coisas. Mal sabia ele como era lá em casa…

Meu pai era o mestre da nojeira na cozinha. Eu imagino que ele tinha algum problema no paladar ou olfato porque sempre comia comida azeda ou estragada sem perceber, mas além disso não era estranho entrar na cozinha e o encontrar colocando chuchu em cima de bolacha Passatempo, misturando jiló com doce de figo e mel, ou comendo pão com abobrinha, manga e amendoim. Não posso negar que depois de um tempo o estranho era vê-lo comer alguma normal. E também não posso negar o quanto ainda acho anormal ter que falar dele apenas no passado.

Há pouco tempo atrás eu tomei o café da manhã mais estranho da vida. Me lembro que bebi um suco de laranja, comi um Polenghinho e uma barrinha de cereal, mas por ter encontrado meu pai tragicamente já sem vida há algumas horas, senti apenas um amargo intenso em tudo que experimentei naquele dia. De repente comer tomate com gelatina ou qualquer outra mistura absurda que ele fazia parecia ter mais sentido do que tudo ao redor. O amargo da tristeza que eu sentia era tão forte que me impedia de perceber qualquer outra coisa. Mas aos poucos comecei a sentir algo estranho e improvável.

“É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia a poesia do velho Vinicius, e aprendi assim minha vida inteira de que ou se sente alegria ou tristeza. Mas conforme o baque foi passando, eu percebia que, alheia à toda a tristeza que sentia naquele momento, havia ainda um sentimento destoante, uma estranha alegria latente dentro de mim. Apesar de todo o medo e insegurança que fazia os músculos do meu coração oscilar, meus músculos da face repuxavam estranhamente me colocando um sorriso improvável no rosto. Eu não entendia bem da onde vinha, mas não queria abrir mão daquela alegria estranha que vez ou outra se deixava sentir ali no meio de toda aquela bagunça.

Já ouvi gente dizer que a alegria é uma invenção moderna e que a busca por ela é uma jornada sem sentido. Por outro lado, não é incomum ouvirmos que precisamos fazer ou ter certas coisas para sentirmos alegria. Ligamos a alegria à realização profissional, aos relacionamentos amorosos, à saúde, ao dinheiro na conta do banco ou ao jogo do Corinthians (se perder, a gente fica alegre, é claro). Mas isso tudo não passa de distração, como uma sobremesa doce após o almoço. E não me entenda mal, distrações e sobremesas são sempre bem vindas. O problema é vincular sua alegria com coisas tão efêmeras e imperfeitas quanto dinheiro, romances ou o ataque do Timão. Se sua alegria é tão falha assim, que triste ela é!

A alegria verdadeira e de que precisamos geralmente passa despercebida o tempo todo. Alheia a todos os sabores amargos e doces que a vida nos oferece, separada de toda tristeza e distração que nos atinja, a alegria está ali escondida, insípida, inodora e incolor, dando liga a cada um dos sabores. A alegria que precisamos não dá cárie nos dentes, não faz subir nossa pressão arterial e não nos coloca uma careta engraçada no rosto. A alegria que precisamos não tem prazo de validade, não estraga fora da geladeira e não mancha roupa alguma.

A alegria que precisamos nos refresca a alma. A alegria que precisamos nos saceia a sede e nos permite experimentar o equilíbrio de tudo que a vida nos oferece. E mais que isso, a alegria que precisamos nos oferece vida.

O velho Vinicius de Morais uma vez disse também que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É realmente muito triste esse ponto de vista onde a tristeza não cumpre sua função de nos levar à reflexão e à uma consequente mudança de pensamento, mas ao contrário, nos escraviza e nos leva cada vez mais pra baixo, cada vez mais fundo.

Porém, é no fundo do poço que se encontra água limpa.

Não desejo isso a mais ninguém, mas chegar tão lá embaixo é uma das maneiras de se aprender esta verdade. Porém a boa notícia é que não é necessário ir tão fundo assim: a alegria verdadeira que precisamos nos é oferecida o tempo todo graciosamente e de graça. A alegria verdadeira não se vende em galões de 20 litros e não se acaba com má gestão da Sabesp. A alegria verdadeira não se seca com o calor e não se suja com nossa podridão. E o melhor de tudo: não importa o tamanho da nossa sede, beber dela uma vez já é o bastante pra saciar uma vida toda.

Os que tem sede, venham. Os que choram, bebam. É tudo de graça. É tudo graça.

Felizes os que choram, porque o choro acaba. Felizes os que choram, porque a alegria jorra pra eternidade.